Páginas

Mostrando postagens com marcador Daniel Oliveira. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Daniel Oliveira. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Sexta-feira

Hoje meu espírito
É como uma floresta de eucalipto,
Não pousa ninguém.

Hoje minha alma
É uma sacola no arbusto indiano,
Seca de calor.

Hoje meu sorriso
É uma mansão em chamas na Califórnia,
Cínico e amarelo.


Daniel Oliveira

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Palavra

Palavra que liberta
É palavra vomitada.

Grito exaurido
É palavra sufocada,

É água de enxurrada
É visão distorcida
É massa adormecida
É névoa amanhecida
É goela ensandecida

É o fim.


Daniel Oliveira

domingo, 16 de janeiro de 2011

NASCEU MAIS UM TRABALHADOR

Meu filho chegou ao mundo, rompendo bolsas
(amanhã romperá cercas)
Chegou gritando que é para que todos escutem:
Nasceu mais um trabalhador!

Nos castelos reis se assombram:
Nasceu mais um trabalhador!

Em suas poltronas de veludo, perplexos,
velhos “políticos” herméticos ao povo,
exclamam baixinho:
Nasceu mais um trabalhador!

Não sabiam ainda, para maior temeridade,
que meu filho trazia no nome a insígnia – Lucas Fidel.

Nasceu com nome de brisa libertadora,
que é para não deixar dúvidas:
Nasceu mais um trabalhador!


Daniel Oliveira
Minas/Brasil
08/01/2011 – Nascimento de Lucas Fidel Gama Reszka de Oliveira

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Grupos escusos

Na partilha do resto
Os ratos se unem

Na divisão do cadáver
Os vermes se aglutinam

Findo o labor do saque
Bandidos se achegam

Mas quando a riqueza é exaurida
Os escusos
Se devoram.




Daniel Oliveira

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

A HORA É ESSA

A hora é essa

Temos lutado todo esse tempo
com os pés descalços,
Saboreando o sonho que se esboça,
Encravados na luta que é de classes;
Internacionais!

Sempre nos quiseram mortos,
e ainda assim nosso peito segue ofegante.
Daniel Oliveira

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Mesma cena







Mas que tipo de nação
Onde chuva é benção e maldição
Veja o companheiro a situação
O tesouro que cai do céu,
que faz a terra fecundar,
brota terra e caixão.
Traz esperança e mal-querência
como diz a primeira-velha de lá:
"Fugimos da seca pra otra vida lidar,
e a chuva orgulhosa nos perseguiu a enterrar."

Mas se a chuva mata, é porque quem pode evitar
retrai sua mão plena de moedas a praguejar:
"Que votem! Deixem votar! A natureza é sabia.
Não façam nada, que depois de eleito, talvez,
coroas de flores molhadas hão de ganhar."

Mas que tipo de nação
Onde chuva é benção e maldição
Veja o companheiro a situação



Daniel Oliveira
Minas Gerais/2010

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A tus cien años y a nuestros años cien

Ahora el tiempo se anuncia
lo importante es banal
los hombres y la basura
quien come a quien
palabras fuera de moda
la miseria en el informativo
todos quieren circo
anestesia sin pan
los hombres no dicen basta
llegamos a ningún lugar
la masa, el fermento, la lágrima
todo lo que es torpe y se llama madre
todo lo que es sin nombre
todo lo que no vale la hoja
un papel bordado y dos cigarros en la mano
un siglo que se cierra sin decir adiós


Daniel Oliveira

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

GULLAR XXI

GULLAR XXI
Dedicado à Thiago de Mello

Ainda hoje me lembro
com boa memória,
como se o tempo tivesse parado
e me congelado no instante em
                                      que te vi;
_Coisa fantástica é essa!
Sorri, gargalhei, entrei em pranto.
Contigo aprendi que dois e dois
nem sempre são quatro,
pelejei junto à ti contra o Tio Sam
em plena maçã, contemplei belezas
mais lindas do que uma deslumbrante
bolinha prateada de um maço qualquer,
atirado ao sol por homem ou fêmea fumante,
mais lindas até do que uma plataforma
da Petrobrás em alto mar iluminada.
Vi também uma revolução que nascia
nos seus versos barbados e honestos.
Pude comprovar a importância crucial
de um vassoureiro e um barbeiro
para o desenvolvimento da história nacional.

Vi tanta coisa.
Agora não vejo nada.

O Gullar XXI estrangulou com mãos frias o Gullar XX.
Trancou os restos em um cofre bem fundo,
que é para que o morto não gritasse,
como gritou a alma radiante de Herzog ao ser suicidado.

Você se matou, Gullar,
e pôs outro em seu lugar.

Seu discurso se perdeu.
E o que é um poeta sem discurso, Gullar?
Um poeta sem bandeira?
Sem sonhos?
Paixão?

O que é você, Gullar XXI?
(Me indago, porém de antemão
trago em mim a resposta)

Você acreditou demais nos homens,
E você duvidou demais dos homens
(certas coisas são válidas apenas em poesia)
E se esqueceu de acreditar em si
no seu compromisso consigo
na relação com o outro que nasce da vida,
seja ela como for, e você se isolou, Gullar XXI.

Em sua torre de vidro,
fez ninho fortificado.

No entanto, a história não para, Gullar.
A história é dinâmica e dialética,
por mais que lhe doa saber,
morrerá, e todo seu conhecimento,
sua alta intelectualidade, morrerá,
e seu cadáver pálido não brilhará, Gullar
(Porque morrestes há tempos)

Quando mais precisávamos de você; morreu.
Gostaria de ser mais claro - balanço:
Você parte sem dizer adeus, e em volta do seu
caixão, a mais fina nata da aristocracia nacional.

Morre, Gullar, morre.
Não é a saudade que fica, é a obra-primeira,
e essa permanece ancestral, latente, viva.

Se dela nascer uma flor que seja,
Mostrará que finalmente o Gullar XX
descobriu a senha para se libertar do cofre.

Daniel Oliveira
Sabará/MG
10/11/2010

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Meu fôlego é uma flauta

Meu fôlego é uma flauta
                Que se esvai

As vezes em mi
As vezes sem dó

Daniel Oliveira
Belo Horizonte

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A PULSEIRA

_ Qual o seu problema? – pergunta a atendente do hospital.
_Bom, não sei ao certo, parece que quebrei os dedos, eu disse, indicando a mão direita com um ar apalermado.
_ Sente-se que a doutora logo irá examiná-lo.
Porra, agora fico aqui umas duas horas para passar por um exame que não durará dez minutos. Mas me sento. E espero.
O banco duro de plástico se molda a minha agonia. O lugar estava lotado de trapos humanos. A alegria ali era artigo raro.

Olho para frente, um cartaz. “Classificação de risco”. Fico ansioso para saber o meu. Cinco cores correspondem a cinco períodos de espera. Os mais graves primeiros, como na guerra. A guerra brasileira.
Vermelho, atendimento imediato. Um cara do meu lado espera sobre uma maca improvisada. Até onde posso ver, leva três balaços na perna. O que poderia ser mais imediato do que isso, três balaços na cabeça? Ele tem uma pulseira laranja no pulso. Consulto o cartaz. Dez minutos. Contando os vinte que cheguei, começo a desconfiar da minha cor.
Amarelo. Sessenta minutos. Olho em volta, estico o pescoço até onde posso. Nada. Nem uma pulseira amarela. Meu pessimismo aumenta.
Pulo a seguinte e passo para a última, a fim de estabelecer o teto máximo do meu possível risco. Azul. Duzentos e quarenta minutos. Ai meu Deus, que não seja uma lesão tão leve!
Verde. A cor da maioria. Por alto, noventa e nove vírgula alguma coisa, excetuando o rapaz que sangra pelos três orifícios rubro-negros. Todos verdes. Cento e vinte minutos oficiais. Quatro horas pela minha experiência de “cidadão”. Sou chamado. Entro. Sento-me em outra cadeira, agora fria, de metal. Tem cheiro de álcool. Tudo tem cheiro de álcool. Tiro a camisa, trocamos algumas palavras, ela anota alguma coisa. É jovem. Termina. Saio e volto a me sentar na cadeira dura de plástico. Espero.
Sou novamente chamado. É estranho ouvir meu nome tantas vezes no mesmo dia. Enfim, ganho minha pulseira. Passaram-se duas horas. Verde.
Passo mal, pergunto onde é o banheiro. O guarda patrimonial me acompanha. Penso em dizer alguma coisa sobre roubar o papel higiênico, mas tenho que vomitar. No banheiro, o cheiro do desinfetante é duas mil vezes mais forte do que no consultório.
Passo correndo de frente para o espelho. Paro. Não posso crer. Não é possível. Não me vejo, sou nada, transparente, apenas a pulseira verde permanece, resplandecente, cada vez mais verde, um risco contínuo, uma quimera.

Daniel Oliveira daniludens@yahoo.com.br
Belo Horizonte/MG
27 de Abril de 2009

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

ENTREVISTA COM UMA MÃE QUE ESPERA

Não, não senhor.
Ele nunca me deu trabalho.
Nunca precisei gritar, mandar.
Bater eu nunca bati.

Subversivo? Sei não.
Ah, ele era muito prestativo.
Tava sempre em mutirão,
ensinando os menino a lê,
a escreve. Era muito amoroso.

Comunista? Sei não, senhor.
Se comunista era ter um coração
como o dele, então deve de ser
coisa boa.

Todo domingo. Fazia novena.
Política? Não me alembro.
Era novinho, só rezava a missa.
O outro padre? Morreu de velho.

Sim senhor, é muito tempo.
Não senhor. Pra mim não.
Seu rosto, sua voz. Foi ontem.

Tenho 92. Sim, senhor.
Viúva. Sozinha.
Os irmãos seguiram a vida.
Não, nunca me mudei.

Por quê? Porque tantos
apareceram depois.
Em 79 então, que esperança.
Nessa época juntei dinheiro.
Pra fazer uma festa pra ele.

Não senhor. Nem carta nem nada.
Umas visitas dos amigos.
Companheiros dele.
Diziam que não adiantava
eu sofrer esperando.

Mas eu espero.
Ele saiu com a chave.
Não, a fechadura é a mesma.
O telefone a empresa mudou,
apesar dos meus pedidos.

E não, senhor? Quantas vezes...
Mas não posso. Não sem abraçá-lo
uma última vez...

Bom, se é assim, então eu
o encontrarei lá.
Tortura? Penso não.
Já pensei. Dói demais.

Os irmãos queriam, eu não.
Olha, senhor, nem que fosse
pelo menos osso, que eu pudesse
enterrar, botar nome, trocar flor,
olhar pra ele...

Não senhor, com o filho de ninguém.
Porque a dor de enterrar não se
compara a dor de esperar.

Obrigada ao senhor.
E se alguém der notícia do meu menino,
Cristo colocará coroa e manto
no seu caminho.



Daniel Oliveira