Páginas

Mostrando postagens com marcador Graciliano Ramos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Graciliano Ramos. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Graciliano Ramos: Cultura a serviço do povo

Camaradas:
Não sei bem se o que lhes vou dizer nesta conversa ligeira combina com o título dela, anunciado no jornal. Escapou-me a notícia, é possível que me afaste um pouco da matéria comunicada aos leitores.
Bem. Para não estarmos com prólogos, entro no assunto e declaro que, na minha fraca opinião, antes de vermos no livro um veículo de cultura, devemos considerá-lo simples mercadoria. Evidentemente ele não é uma graça de Deus, como a luz do sol e a água da fonte: encerra o esforço de numerosas pessoas, do trabalho complexo do autor à rija labuta do impressor. Sem levarmos em conta as fases anteriores e posteriores a isso: a fabricação do papel, da tinta, das máquinas, dos cordéis; a distribuição, a propaganda e até o que neste momento realizamos, pois, confessemos honestamente, exercemos aqui o ofício de camelôs.
Esta minha declaração chocha retira ao livro, objeto pouco mais ou menos inútil à massa e apenas acessível aos iniciados, o caráter de coisa misteriosa a que desde a infância nos habituamos. Criou-se uma espécie de tabu vantajoso à classe dominante: a sabedoria dos compêndios foi durante séculos e continua a ser meio de opressão. Sujeitos hábeis reuniram ideias safadas e adularam, sem nenhuma vergonha, os seus patrões horrorosos. A imprensa sadia é instituição velha, anterior aos tipógrafos, já usada pelos escribas do Egito.

Deixemos os escribas do Egito. Se meter-me em funduras, daqui a pouco estarei falando difícil, empregando a linguagem que desvia dos pensamentos arrumados na folha o homem da multidão. Volto ao que afirmei no começo: o livro é mercadoria. As metralhadoras também são mercadorias, que, até hoje utilizadas contra o povo, irão resguardá-lo. É intuitivo, porém, que de nada servirão se ele não souber manejá-las.
A verdade é que nem todos os livros cantam loas aos tiranos. A desgraça dessa gente é perceber que as suas armaduras racham, a sua força se esvai, os seus defensores se transformam de repente em inimigos. A palavra escrita é arma de dois gumes. A literatura velha arqueja e sucumbe; a literatura nova fere com vigor a reação desesperada. Não nos ocupamos da primeira, está visto; deixaremos que se enterre, no silêncio, na penumbra e no mofo, com algum latim resmungado pelos críticos da LEC.(2) A segunda é a que nos traz a esta sala, encerra-se nos volumes aqui expostos. Precisamos conhecê-la de perto. É claro que nada ganharemos olhando, com respeito, esses volumes protegidos por uma vitrina. Indispensável sabermos o que há dentro deles. Vimos numa capa o nome de Máximo Gorki e experimentamos o desejo de largar uns palpites sobre ele, atrapalhando tudo. Recuamos a tempo — e na reunião da célula ouvimos, bastante chateados, referências ao admirável russo, num informe. Contudo, a recordação da vitrina permanece, garantimos que Máximo Gorki é notável. Temos de cor uma lista de personagens célebres, afirmamos a celebridade, mas seria difícil dizermos em que ela se baseia. Asserções que nos fizeram na escola, repetidas longamente, foram aceitas afinal. Em vão tentamos adivinhar como subiram certos figurões das letras nacionais. Vi um tipo quase chorar lendo a notícia da morte de um literato conde.
Necessário conhecermos a razão dos nossos entusiasmos, não nos comovermos à toa. Vamos ver se a página impressa é digna de admiração. Tratemos, pois, de adquiri-la: é para ser vendida que se exibe além do vidro. Terra de leitura escassa. Vemos filas para banha, açúcar, pão, carne, o diabo, mas não conceberíamos fila diante de uma livraria. Realmente ali não se vendem comestíveis. Contudo é bom um sujeito ler algumas vezes, ao menos para fingir importância na presença do chefe ou da namorada.
Literatura ao alcance da massa? Muito bem. O livro está perto, à mão, na vitrina. Foi redigido cuidadosamente: no interior dele não há cercas de arame farpado, evitaram-se atoleiros, rios cheios, pedras escorregadias e pinguelas, enfim qualquer inteligência razoável pode transitar ali facilmente, por todos os lados. Agora esperemos que o homem do povo se mexa, dê alguns passos até o balcão da livraria, peça o volume. E pague, naturalmente, pois os cidadãos que mourejam naquilo não vivem no éter.
Rio, 28 de fevereiro de 1947
IN: RAMOS, Graciliano. Garranchos [organização de Thiago Mio Salla]. 2ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2013, p. 293.
- – - – -
Notas
1. Arquivo Graciliano Ramos, Manuscritos, Discursos, not. 12.22A. Título atribuído pelo organizador. Palestra proferida por Graciliano no comitê distrital Santos Dumont, órgão pertencente à estrutura do PCB, no dia 1° de março de 1947. Segundo o jornal Tribuna Popular, tal fala, intitulada “Cultura a serviço do povo”, se deu no contexto da “Campanha do livro”, promovida pelo Partidão, que pretendia, sobretudo, estimular a venda de obras das editoras de orientação comunista Vitória e Horizonte. Na oportunidade, o escritor alagoano foi homenageado pelo jornalista Astrojildo Pereira (GRANDE INTERESSE desperta a “Campanha do livro”. Tribuna Popular, Rio de Janeiro, 27 de fevereiro de 1947, p. 3).
2. Referência à Liga Eleitoral Católica (LEC), uma associação civil de caráter nacional criada em 1932, no Rio de Janeiro, por dom Sebastião Leme da Silveira Cintra, com o auxílio de Alceu Amoroso Lima. “Seu objetivo era mobilizar o eleitorado católico para que este apoiasse os candidatos comprometidos com a doutrina social da Igreja nas eleições de 1933 para a Assembleia Nacional Constituinte e de 1934 para a Câmara Federal e as assembleias constituintes estaduais” (KORMIS, Mônica. LIGA ELEITORAL CATÓLICA (LEC). In: ABREU, Alzira Alves de et al [coords.]. Dicionário histórico-biográfico brasileiro — Pós-1930. Rio de Janeiro: CPDOC, 2010). Atuou ainda nos pleitos presidenciais de 1945 e de 1950, bem como nas eleições para a Assembleia Constituinte de 1946.

terça-feira, 19 de junho de 2012

120 ANOS DE GRACILIANO RAMOS


imagem


Neste ano de 2012 comemoram-se 120 anos de Graciliano Ramos. Nascido em 27 de outubro de 1892, na cidade de Quebrangulo, sertão de Alagoas, o grande romancista brasileiro ingressou no PCB no ano de 1945, quando já era um escritor consagrado pela publicação de obras que marcariam para sempre a literatura nacional, como São Bernardo e Vidas Secas, verdadeiros libelos contra a miséria e a opressão humanas. Nesta época também já era conhecido por sua postura política profundamente ética e libertária, destacando-se por sua posição antifascista e contrária ao Estado Novo, assim como pelo uso, em suas crônicas, da ironia corrosiva contra as mazelas sociais e a inépcia do governo Vargas em combatê-las. Afinal, havia passado dez meses preso, sem culpa formada, e ficou fichado na Polícia Política como “suspeito de exercer atividade subversiva”, quando eclodiu a rebelião comunista em 1935.

Participou das lutas contra o nazifascismo e contribuiu, com sua militância junto aos escritores, para a retomada das liberdades democráticas e pelo fim do Estado Novo. No PCB, juntou-se a Jorge Amado, Astrojildo Pereira, Caio Prado Júnior, Cândido Portinari, Di Cavalcanti, Carlos Scliar, Djanira, Moacir Werneck de Castro, Aparício Torelly, Oduvaldo Vianna, Dias Gomes, Oscar Niemeyer, Alberto Passos Guimarães, Mário Lago, entre inúmeros outros artistas e intelectuais que enxergaram no Partido Comunista o espaço político necessário à luta pela paz, pelo avanço democrático e pelo socialismo. 

Discordou da política cultural então formulada pelo PC da URSS, a do “realismo socialista”, afirmando que “a literatura é revolucionária em essência, e não pelo estilo do panfleto”. Faleceu em 20 de março de 1953, aos 60 anos, sem ver publicada outra obra clássica escrita por ele: Memórias do Cárcere, reconstituição dos porões da ditadura varguista e belo exemplar do realismo crítico, a retratar as figuras humanas em toda a sua fragilidade, riqueza e complexidade.

O Partido Comunista Brasileiro – PCB – através de sua página oficial e da Fundação Dinarco Reis, homenageia um dos seus mais importantes militantes históricos com a Seção “120 anos de Graciliano Ramos”, na qual coloca à disposição textos e materiais diversos sobre a história de vida e a obra de Graciliano. Convidamos os militantes e amigos do PCB a contribuírem ativamente com a manutenção deste espaço virtual e com as comemorações em torno de mais um aniversário de vulto para todos nós, no ano em que nosso Partido completa 90 anos de existência.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

O Centro de Estudos Literários e Culturais (CELC) da Faculdade de Letras da UFMG convida para o Simpósio Graciliano Ramos e para a Exposição Graciliano Ramos – Angústia 75 anos

    O Centro de Estudos Literários e Culturais (CELC) da Faculdade de Letras da UFMG convida para o Simpósio Graciliano Ramos e para a Exposição Graciliano Ramos – Angústia 75 anos.
    Exposição Graciliano Ramos — Angústia 75 anos Local: Saguão da Reitoria da UFMG Av. Antonio Carlos, 6627 Belo Horizonte MG Período: 24 a 28 de Outubro de 2011 Abertura: 24 de Outubro de 2011 — 14h30
    Simpósio Graciliano Ramos — Angústia 75 anos Local: Auditório da Reitoria da UFMG Av. Antonio Carlos, 6627 Belo Horizonte MG Data e Horário: 24 de Outubro de 2011 — 15h às 18h Participantes: Belmira Rita da Costa Magalhães (UFAL): Projeto político e projeto literário: a constituição das subjetividades de classe Elizabeth Ramos (UFBA): O espaço na construção de Angústia Erwin Torralbo Gimenez (USP): Mal sem mudança: sombras e realidade em Angústia Hermenegildo Bastos (UnB): O que tem de ser tem muita força: determinismo e liberdade em Angústia Wander Melo Miranda (UFMG): A angústia da revolução

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Simpósio aberto por Antonio Cândido e uma edição especial marcam as comemorações pelos 75 anos de Angústia, de Graciliano Ramos




Para comemorar os 75 anos da primeira edição de Angústia, de Graciliano Ramos, a editora Record lança na próxima semana uma edição especial do romance e abre um ciclo de debates que percorrerá cinco capitais do país. O primeiro evento ocorrerá na Universidade de São Paulo (USP), na terça-feira (20), e será aberto com um depoimento do escritor, professor, ensaísta e crítico literário Antônio Cândido.

O simpósio "Graciliano Ramos - 75 anos de Angústia"  levará ao público uma visão multifacetada sobre esta grande obra da literatura brasileira, publicada pela primeira vez em 1936 quando Graciliano estava preso. Participarão dos debates os professores Elisabeth Ramos (neta de Graciliano) Erwin Torralbo Gimenez, Hermenegildo Bastos, Wander de Melo Miranda e Belmira Rita da Costa Magalhães, todos especialistas na obra do escritor alagoano.

Após a capital paulista, o simpósio acontecerá em outras quatro cidades: Brasília (22/9), Salvador (04/10), Maceió (06/10) e Belo Horizonte (26/10). Nesta última, o ciclo será encerrado com a exposição "Graciliano - 75 anos de Angústia" , no Saguão da Reitoria da UFMG, onde serão exibidos documentos, textos e objetos do autor.

A edição comemorativa de Angústia é organizada por Elizabeth Ramos e conta com posfácios de Otto Maria Carpeaux e Silviano Santigo, além de fortuna crítica e um texto de apresentação de Elizabeth Ramos. "Angústia constrói, através de uma galeria de personagens e da decadência do espaço e do ambiente, uma análise das infinitas roupagens de que se reveste a miséria humana", resume a professora sobre o terceiro romance do avô.

Escrito em ambiente de desassossego e intrigas, em plena repressão do governo Getúlio Vargas, Angústia reflete o desconforto do autor com a situação de insegurança em que vivia. "Falta-me tranqulidade, falta-me inocência, estou feito um molambo que a cidade puiu demais e sujou", pensa o narrador. Graciliano foi levado preso pouco depois de revisar as últimas páginas do livro.

Abaixo, a programação do simpósio "Graciliano Ramos - 75 anos de Angústia"
São Paulo - 20 de setembro

Local: USP - Prédio das Ciências Sociais e Filosofia (FFLCH), sala 8
Endereço: Av. Prof. Luciano Gualberto, 315 - Cidade Universitária
Horários: 10h às 12h e 14h30 às 17h
Mais informações: (11)3091-3753 ou 3783
Depoimento de Abertura: Professor Antonio Candido de Mello e Souza
Historiador literário, escritor, ensaísta, professor universitário e crítico consagrado, Antonio Candido nasceu em 1918 no Rio de Janeiro. Sua carreira é marcada pelo trabalho acadêmico, iniciado na Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo (1942) e prolongado por toda a sua vida, inclusive em instituições estrangeiras. Publicou muitos livros importantes, entre os quais Ficção e confissão (1956), estudo fundamental sobre a obra de Graciliano Ramos, Formação da literatura brasileira (1959), Literatura e sociedade (1965) e Vários escritos (1970).

Brasília - 22 de setembro
Local: Universidade de Brasília, Instituto de Biologia, Auditório 4
Endereço: Campus Universitário Darcy Ribeiro, Asa Norte
Horários: 10h às 12h e 16h às 18h
Mais informações: (61)3107-7211 ou (61) 3107-7203, Depto. de Teoria Literária e Literaturas

Salvador - 04 de outubro
Local: Universidade Federal da Bahia, auditório da Faculdade de Comunicação (FACOM)
Endereço:  Campus de Ondina - Rua Barão de Geremoabo, s/nº
Horário: 14h às 18h
Mais informações: (71)8726-4027 ou (71)3283-6225
Depoimento de abertura: escritor Hélio Pólvora
Nascido na Bahia em 1928, Hélio Pólvora iniciou sua carreira literária no Rio de Janeiro. De volta à Bahia em 1984, seguiu na literatura e em intensa atividade jornalística. À sua estréia em livro com Os Galos da Aurora (1958 e 2002), seguiram-se mais de vinte títulos de ficção e crítica literária, além de participação em antologias nacionais e estrangeiras. Tem contos traduzidos para diversos idiomas. Conquistou prêmios como o Bienal Nestlé de Literatura - Contos (em 1982 e 1986), prêmio da Fundação Castro (Estranhos e Assustados) e do Jornal do Commercio (Os Galos da Aurora).

Maceió - 06 de outubro
Local: Universidade Federal de Alagoas, auditório da FAMED, Faculdade de Medicina
Endereço: Campus A. C. Simões  - Av. Lourival Melo Mota s/nº , Tabuleiro do Martins
Horário: 15h às 18h / 19h30 às 21h30
Mais informações: (82)3241-1524 e (82)3214-1640

Belo Horizonte - 24 de outubro
Local: Universidade Federal de Minas Gerais - Auditório da Reitoria
Endereço: Av. Antonio Carlos, 6627  Campus Pampulha
Horário: 14h30 às 18h
Mais informações: (31) 3409-4650 e (31) 3409-4624
Exposição: De 24 a 31 de outubro,  exposição Graciliano Ramos - 75 anos de Angústia, no Saguão da Reitoria da UFMG

Editora Record / Grupo Editorial Record
Assessoria de imprensa - tel.: (021) 2585 2047 - fax: (021) 2585 2082
Gabriela Máximo ( gabrielamaximo@record.com.br Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. )
Leonardo Figueiredo ( leonardo.figueiredo@record.com.br Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. )
imprensa@record.com.br

domingo, 21 de novembro de 2010

Velho Graça


"Fizeram alto. E Fabiano depôs no chão parte da carga, olhou o céu, as mãos em pala na testa. Arrastara-se até ali na incerteza de que aquilo fosse realmente mudança. Retardara-se e repreendera os meninos, que se adiantavam, aconselhara-os a poupar forças. A verdade é que não queria afastar-se da fazenda. A viagem parecia-lhe sem jeito, nem acreditava nela. Preparara-a lentamente, adiara-a, tornara a prepará-la, e só se resolvera a partir quando estava definitivamente perdido. Podia continuar a viver num cemitério? Nada o prendia àquela terra dura, acharia um lugar menos seco para enterrar-se. Era o que Fabiano dizia, pensando em coisas alheias: o chiqueiro e o curral, que precisavam conserto, o cavalo de fábrica, bom companheiro, a égua alazã, as catingueiras, as panelas de losna, as pedras da cozinha, a cama de varas. E os pés dele esmoreciam, as alpercatas calavam-se na escuridão. Seria necessário largar tudo? As alpercatas chiavam de novo no caminho coberto de seixos." (Vidas secas, Graciliano Ramos)