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quarta-feira, 25 de setembro de 2013
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
As dúvidas sobre a morte de Pablo Neruda
No dia 11 de setembro de 1973, quando o governo de Salvador Allende
foi derrubado por um golpe de estado liderado por Augusto Pinochet, a
casa de Pablo Neruda, na Isla Negra, foi saqueada e seus livros,
queimados. Enquanto tudo isso ocorria, o poeta estava no hospital,
afetado por um câncer de próstata. Desde que escutou no rádio as últimas
palavras de seu amigo Salvador Allende, Neruda foi se apagando aos
poucos. Finalmente morreu no dia 23 desse mês fatídico.
Christian Palma - Correspondente da Carta Maior em Santiago do Chile (@chripalma)
Em 11 de setembro de 1973 o governo de Salvador Allende é derrubado
por um golpe de estado protagonizado por Augusto Pinochet, durante o
qual a casa na Isla Negra do poeta prêmio Nobel de Literatura Pablo
Neruda é saqueada e seus livros, queimados. Enquanto tudo isso ocorre, o
poeta está no hospital, afetado por um câncer de próstata, moribundo, e
pede notícias. Às vezes consegue dormir, às vezes delira. Desde que
escutou no rádio as últimas palavras de seu amigo Salvador Allende,
Neruda foi se apagando aos poucos. Finalmente morreu no dia 23 desse mês
fatídico.
“Dos desertos do salitre, das minas submarinas de carvão, das alturas
terríveis onde se faz o cobre e de onde é extraído com trabalhos
inumanos das mãos de meu povo, surgiu um movimento libertador de
magnitude grandiosa. Esse movimento levou à presidência do Chile um
homem chamado Salvador Allende, para que realizasse reformas e tomasse
medidas de justiça inadiáveis, para que nossas riquezas nacionais fossem
resgatadas das garras estrangeiras”, escreveu Pablo Neruda. A oito dias
do golpe de estado no Chile, o poeta era transportado de ambulância da
sua casa na Isla Negra, um pequeno povoado na costa da zona central,
situada a uns poucos quilômetros ao sul de Valparaíso, até a Clínica
Santa María, de Santiago.
No estado de saúde delicado em que se encontrava o poeta e ex-senador
do Partido Comunista chileno, seus pensamentos naquele dia não podiam
deixar de estar submetidos à tristeza pelo que havia ocorrido no país
que, de imediato, transformou-se numa nação onde a crueldade se vivia
nas ruas, com milhares de pessoas mortas ao longo do país.
O câncer que afetava Neruda tinha se agravado depois do golpe e a
partir da violência dos militares que também tinham invadido a casa que o
poeta tinha em Santiago.
O embaixador do México no Chile reservou uma peça de sua casa para o
poeta e político na Clínica Santa María. Na ambulância, sua mulher,
Matilde Urrutia, o acompanhou. Atrás da ambulância um fiat branco 125 o
seguia, conduzido por seu chofer, Manuel Araya.
Cinco dias depois, em 23 de setembro, Pablo Neruda morre, segundo os
médicos, devido ao seu câncer. Agora, há quase 40 anos, o motorista,
Manuel Araya, afirma que Pablo Neruda foi assassinado por agentes do
regime militar, como o assegurou, numa entrevista publicada na revista
mexicana Proceso, o que provocou uma polêmica inevitável.
No quarto estúdio em sua casa, onde há um quadro com a imagem de
Neruda e uma série de livros com suas obras, Araya, em seus 65 anos e
calvo, com cabelos grisalhos do lado, aumenta a voz para relatar sua
versão dos fatos, quando afirma que Neruda foi transportado para a
clínica não por seu estado delicado de saúde, mas para esperar um avião
que, em 24 de setembro o levaria para o México, em direção a um
autoexílio, devido à tragédia que se desencadeava nas ruas chilenas por
esses dias, contra quem fizesse parte do governo de Allende,
simpatizantes, parlamentares de governos, dirigentes sindicais e sociais
e gente dos setores mais pobres.
Araya acredita que o escritor tinha recebido sua injeção letal no
estômago. O ex-motorista assegura além disso que Matilde Urrutia não
quis dar início a ações legais, por medo de perder seus bens. “Por volta
das quatro da tarde entrou um médico na casa e lhe deu uma injeção.
Fomos arrumar nossos pertences e, quando chegamos na clínica Neruda
tinha como que uma mancha roxa no estômago. Entrei no banheiro para
lavar o rosto, quando chegou um médico e me mandou comprar um remédio”,
disse o ex-motorista.
Esta hipótese não é absurda para o senso comum de muitos chilenos,
pois o ex-presidente democrata cristão, Eduardo Frei, também morreu num
hospital, em 1982, depois de ter recebido uma injeção letal dos agentes
dos serviços de inteligência do regime militar. Mas o certo é que a
versão relatada por Araya em pouco tempo foi desvirtuada por amigos e
biógrafos de Neruda. Darío Oses, chefe da biblioteca da Fundação Neruda,
diz que o poeta morreu por motivos de saúde.
Jaime Quezada, diretor das oficinas de poesia da fundação, tampouco
dá crédito ao motorista. “Eu entreguei alguns papéis para a fundação mas
não aconteceu nada. Além de sua própria doença, Neruda estava
emocionalmente afetado e isso deve ter influído em sua morte”.
A mesma fundação, em junho passado, emitiu um comunicado público no
qual nega a tese de assassinato. “Não existe evidência alguma nem prova
de natureza alguma que indiquem que Pablo Neruda tenha sido morto por
uma causa distinta do câncer em estado avançado que o acometia”.
De todo modo, o alvoroço das declarações do ex-motorista produziu o
efeito concreto de iniciar uma investigação judicial a cargo do juiz
Mario Carroza, que acolheu a representação do Partido Comunista chileno.
Araya se mostrou satisfeito com a decisão da Justiça, pois disse que
passou “anos batendo em portas e ninguém me escutou. Sempre pensei que
morreria e esta verdade não seria revelada”.
“Estou à disposição de tudo o que venha pela frente: não tenho medo
porque tenho a verdade. Aqui não há ninguém mais que tenha a verdade,
porque eu sou o único, eu vivi os últimos dias com ele”, foi um dos
comentários de Araya aos meios de comunicação, depois que ficar sabendo
da abertura do processo judicial.
Por sua vez, o juiz Carrroza disse que o informe que o Serviço Médico
Legal do Chile a partir da análise forense dos restos de Neruda, é uma
prioridade, visto que a partir deste documento serão fixadas as próximas
diligências do caso, daí porque não se descarta pedir a exumação do
corpo que está enterrado na sua residência em Isla Negra.
“Além da investigação que está a cargo da Brigada de direitos
humanos, parece-nos necessário, e sobre isso se conversou com o Serviço
Médico Legal, estabelecer os antecedentes médicos que existiam antes do
câncer que ele tinha”, disse Carroza.
Assim, Araya não é o único dos chilenos que esperam tranquilamente as
conclusões da investigação judicial, pois o informe final dirá se
Neruda foi assassinado e, se confirmado, isso incentivará a cerimônia
pública de despedida que mereceu, por parte do povo que tanto o amou e
que ainda lê suas poesias, além de admirarem seu compromisso político e
social e de sua amizade com outro grande, como Salvador Allende.
Tradução: Katarina Peixoto
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Pablo Neruda
segunda-feira, 4 de junho de 2012
Ode a Lênin - Pablo Neruda
A revolução tem 40 anos.
Tem a idade de uma jovem madura.
Tem a idade das mães bonitas.
Quando nasceu,
no mundo
se soube a notícia
de forma diferente.
- Que é isso? – perguntaram-se os bispos –
Moveu-se a terra,
Não podemos continuar vendendo céu.
Os governos da Europa,
da América ultrajada,
os ditadores turvos,
liam em silêncio
os alarmantes comunicados.
Por suaves, por profundas
escadas
subia um telegrama,
como sobre a febre
no termômetro:
já não havia dúvida,
o povo havia vencido,
o mundo se transformava.
I
Lênin, para cantar-te
devo dizer adeus às palavras;
devo escrever com árvores, com rodas,
com arados, com cereais.
És concreto como
os fatos e a terra.
Não existiu nunca
um homem mais terrestre
que V. Uliánov.
Há outros homens elevados
que como as igrejas costumam
conversar com as nuvens,
são altos homens solitários.
Lênin manteve um pacto com a terra.
Enxergou mais longe que ninguém.
Os homens,
os rios, as colinas,
as estepes,
eram um livro aberto
e ele lia,
lia mais longe que todos,
mais claro que ninguém.
Ele olhava profundamente
O povo, o homem,
olhava o homem como um poço,
o examinava como
se fosse um mineral desconhecido
que tivesse descoberto.
Era preciso tirar as águas do poço.
era preciso levar a luz dinâmica,
o tesouro secreto
dos povos,
para que tudo germinasse e nascesse,
para ser dignos do tempo e da terra.
II
Cuida de não confundi-lo com um frio engenheiro,
cuida de não confundi-lo com um místico ardente.
Sua inteligência ardeu sem ser cinzas jamais,
a morte não gelou ainda seu coração de fogo.
III
Gosto de ver Lênin pescando na transparência
do lago Razliv, e aquelas águas são
como um pequeno espelho perdido entre a relva
do vasto norte e frio prateado:
solidões aquelas, esquivas solidões,
plantas martirizadas pela noite e pela neve,
o ártico silvo do vento em sua cabana.
Gosto de vê-lo ali solitário escutando
o aguaceiro, o voo trêmulo
das rolinhas,
a intensa pulsação do bosque puro.
Lênin atento ao bosque e à vida,
escutando os passos do vento e da história
na solenidade da natureza.
IV
Alguns homens foram só estudo,
livro profundo, apaixonada ciência,
e outros homens tiveram
como virtude da alma o movimento.
Lênin teve das asas:
o movimento e a sabedoria.
Criou no pensamento,
decifrou os enigmas,
foi rompendo as máscaras
da verdade e do homem
e estava em toda parte,
estava em toda parte,
estava ao mesmo tempo em toda parte.
V
Assim, Lênin, tuas mãos trabalharam
e tua razão não conheceu descanso
até que em todo o horizonte
se divisou uma nova forma:
era uma estátua ensanguentada,
era vitoriosa com farrapos,
era uma menina bela como a luz,
cheia de cicatrizes, manchada pela fumaça.
Desde terras remotas os povos a viram:
era ela, não havia dúvida,
era a Revolução.
O velho coração do mundo latejou de outro jeito.
VI
Lênin, homem terrestre,
tua filha chegou ao céu.
Tua mão
movimenta agora
claras constelações.
A mesma mão
que assinou decretos
sobre pão e a terra
para o povo,
a mesma mão
se converteu em planeta:
o homem que fizeste me construiu uma estrela.
VII
Tudo mudou, mas
foi duro o tempo
e áspero os dias.
Durante quarenta anos uivaram
Os lobos junto às fronteiras:
quiseram derrubar a estátua vida,
quiseram calcinar seus olhos verdes,
por fome e fogo
e gás e morte
quiseram que morresse
tua filha, Lênin,
a vitória,
a extensa, firme, doce, forte e alta
União Soviética.
Não conseguiram.
Faltou o pão, o carvão,
faltou a vida,
do céu caiu a chuva, neve, sangue,
sobre as pobres casas incendiadas,
mas entre a fumaça
e a luz do fogo
os povoados mais remotos viram a estátua viva
defender-se e crescer crescer crescer
até que seu valente coração
se transformou em metal invulnerável.
VIII
Lênin, gratos lhe somos os distantes.
Desde então, desde tuas decisões,
desde seus passos rápidos e seus rápidos olhos
não estão sozinhos os povos
na luta pela alegria.
A imensa luz pátria dura,
a que suportou o assédio,
a guerra, a ameaça,
é torre inquebrantável.
Não podem mais mata-la.
E assim vivem os homens
outra vida,
e comem outro pão
com esperança,
porque no centro da terra existe
a filha de Lênin, clara e decisiva.
IX
Grato, Lênin,
pela energia e pelo ensinamento,
grato pela firmeza,
grato por Leningrado e as estepes,
grato pela batalha e pela paz,
grato pelo trigo infinito,
grato pelas escolas,
grato por teus pequenos
titânicos soldados,
grato por este ar que respiro em tua terra
que não se parece com nenhum outro ar:
o espaço é fragrante,
é eletricidade de enérgicas montanhas.
Grato, Lênin,
pelo ar, pelo pão, pela esperança.
Pablo Neruda, 1959, Navegações e Regressos
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quinta-feira, 26 de maio de 2011
O teu riso
Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.
Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.
A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.
Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.
À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.
Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.
Pablo Neruda
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.
Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.
A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.
Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.
À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.
Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.
Pablo Neruda
Fonte: http://www.fabiorocha.com.br/neruda.htm
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