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quarta-feira, 20 de abril de 2011

Miguel Urbano Rodrigues - A CONTRA CULTURA NA CRISE DE CIVILIZAÇÃO

Quando o homem no Neolítico criou as primeiras civilizações na Mesopotâmia, no Egipto, na China, ocorreram crises cujo desfecho foi a destruição da maioria.
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A única grande civilização que, transformando-se, sobreviveu até à actualidade foi a que surgiu e se desenvolveu na China.
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Todas as outras desapareceram, mas muitas deixaram sementes que floresceram numa multiplicidade de povos.
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As causas da morte das civilizaçoes, na acepção ampla e restrita da palavra suscitam polémicas entre os historiadores. A decadência de algumas prolongou-se ao longo de séculos, marcada por crises devastadoras.
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Assim aconteceu com Roma e com outras cujas elites dirigentes foram incapazes de compreender que as suas crises endémicas se agravavam menos em consequência de ameaças exteriores do que pela própria dinâmica de rupturas sociais internas.
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Obviamente, as generalizações são perigosas. Diferiram muito os processos de ruptura civilizacional na Pérsia Aqueménida, o primeiro estado a aspirar ao domínio do mundo conhecido, no subcontinente indiano, e na Europa Ocidental após a desagregação do Império Romano do Ocidente.
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Também na Ásia, morto o macedónio Alexandre, o seu império esfacelou-se quase imediatamente. Mas a civilização helenística implantou-se numa área vastissima, do Mediterrâneo Oriental às fronteiras da China e da Índia, deixando marcas profundas no caminhar dos povos.
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Na Europa Ocidental, a tomada de Roma pelos Hérulos, em meados do século V, não significou o fim de uma civilização ao contrário do que afirmam muitos historiadores. Na Italia, nas Gálias, na Península Ibérica, a herança de Roma, golpeada, não desapareceu numa época de grande desordem. A Alta Idade Media, como afirmam Henri Pirenne e Marc Bloch não foi um tempo de escuridão, uma fase de regressão absoluta. Aliás, no Mediterrâneo Oriental, na área onde se falava grego, Bizâncio continuou por mil anos a ser pólo de uma grande civilização.
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A noção de civilização confunde-se por vezes com a de cultura. Uma cultura nem sempre coincide com a existência de uma civilização. Os Mongóis que, na sua aventura irrepetível dominaram o mundo por um tempo breve do Pacifico ao Adriático, saíram das estepes com uma cultura própria, mas não criaram uma civilização. Nenhum outro povo cometeu, no espaço de décadas, um genocídio de proporções comparáveis. Na fase da conquista destruíram tudo o que encontraram no mundo dos sedentários. Mas durou pouco a violência dos gengiskanidas. Na China sinizaram-se, no Irão islamizaram-se e foram absorvidos pela cultura persa. Em ambos os casos, o nómada, assimilado pela cultura dos vencidos, tornou-se o seu maior defensor.
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UM FLAGELO CULTURAL
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As grandes crises europeias não desencadearam, desde o fim do Império Romano do Ocidente, crises de civilização.
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A grande peste do século XIV e a Guerra dos 30 Anos, que despovoou a Alemanha, a as hecatombes da I e II Guerras Mundiais, foram acontecimentos trágicos com consequências politicas, sociais e económicas que alteraram profundamente a vida na Europa. O mesmo se pode afirmar da Revolução Francesa de 1789 e da Revolução Russa de Outubro de 1917. De ambas resultaram rupturas que destruíram estruturas seculares, modificando drasticamente as relações sociais.
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Mas aquilo a que se pode chamar o «modelo» civilizacional permaneceu, no essencial. O próprio Lenine sublinhou mais de uma vez que a Rússia revolucionária não podia abdicar da herança cultural acumulada ao longo dos séculos, incluindo a da burguesia. Para ele era fundamental a incorporação na nova cultura desse legado da História da humanidade.
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No último quartel do século XX ocorreu um fenómeno com implicações, pouco estudadas, que passam ainda despercebidas a historiadores e sociólogos. A vida na Terra, em muitos aspectos, mudou mais em trinta anos do que nos duzentos anteriores.
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O homem realizou prodigiosas conquistas. Mas a revolução técnico-científica, hegemonizada por um sistema de poder desumanizado, foi colocada a serviço de um projecto imperialista que, para sobreviver, exige, na prática, a transformação do homem num ser passivo, robotizado.
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Esse objectivo é uma consequência da crise estrutural do capitalismo. A resistência dos povos às guerras e crimes das ultimas décadas dela inseparáveis foi atenuada, quase neutralizada, pela imposição, em escala planetária, de uma cultura - na realidade contra – cultura - que é componente importante da crise de civilização.
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O pólo de tal cultura localiza-se nos Estados Unidos onde ela foi gerada e donde irradiou, contaminando o Canadá, a Europa, a América Latina, o Japão, a Ásia Oriental, a Austrália e hoje a quase totalidade dos povos.
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A interacção entre os mecanismos do capitalismo e esse fenómeno cultural, epidémico, é subtil, sendo difícil de identificar em muitas das suas manifestações. O objectivo do capital é a sua multiplicação ininterrupta; o acesso do homem à felicidade possível não lhe interessa.
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A presença e os efeitos da contra-cultura estadunidense – qualificada de mc world culture por alguns sociólogos - são identificáveis em áreas muito diferenciadas, abrangendo, pode-se afirmar, a totalidade da vida.
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A ofensiva por vezes quase invisível, mas com frequência avassaladora, manifesta-se nas frentes política, social, económica, militar e, evidentemente, na cultural.
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Sem o controle quase absoluto dos meios de comunicação social e dos audiovisuais pelo sistema de poder a disseminação epidémica da contra cultura exportada pelos EUA, país onde, registe-se, coexiste em conflito com a cultura autêntica, seria impossível.
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A televisão, o cinema, a rádio, a imprensa escrita e, agora, sobretudo a internet cumprem um papel fundamental, imprescindível, no avanço de uma contracultura que nos países industrializados alterou profundamente nos últimos anos o quefazer dos povos e a sua atitude perante a existência. A mudança é transparente actuando como um vendaval sobre adultos, adolescentes e crianças.
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A construção do homem formatado principia na infância e exige uma ruptura com o emprego tradicional dos tempos livres. O convívio tradicional, incluindo o do ambiente familiar, é substituído por ocupações lúdicas frente à televisão e ao computador, com prioridade para jogos violentos e filmes que difundem a contracultura.
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As horas dedicadas à leitura de obras que transformam o conhecimento em cultura passaram a ser escassas ou inexistentes. Com a peculiaridade de os escritores de qualidade, que formam, serem trocados por romancistas light,alguns apresentadores de televisão, e pelas revistas de fofocas.
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No projecto de vida, a maioria dos jovens tem hoje como meta o sucesso mediático, ser colunável, ganhar uma celebridade efémera mesmo que para tal abdiquem da dignidade.
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As novelas da TV desempenham neste panorama um papel importante como factor de embrutecimento do espírito.
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A contracultura actua intensamente no terreno da música, da cançao, das artes plásticas. Apreciar uma sinfonia de Beethoven, um concerto de Bach tornou-se atitude rara. A contra musica que empolga hoje multidões juvenis é a de estranhas personagens que gritam e gesticulam exibindo roupas exóticas em gigantescos palcos, numa atmosfera ensurdecedora, em rebeldia abstracta contra o vácuo.
O jornalismo degradou-se. Transmite-se a mensagem de uma falsa objectividade para ocultar que os media, ao serviço da engrenagem do poder, são, com raras excepções, instrumentos de difusão da ideologia dominante. A mediocridade dos jornalistas reflecte aliás a queda do nível cultural.
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No caso português, o 25 de Abril abriu as portas do ensino secundário e universitário a centenas de milhares de jovens. Mas a instrução não gera automaticamente cultura. Ao sistema somente interessa formar quadros que sirvam com docilidade o capital. Das universidades saem anualmente fornadas de moços que em matéria de saber são analfabetos com diploma.
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Obviamente, o homem formatado – que traz à memória os robotizados das utopias de Huxley e Orwell- não tem consciência da sua condição de indivíduo manipulado. Quase se orgulha de ser muito diferente das gerações que o precederam
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REESCREVER A HISTORIA
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A contra cultura estadounidense, dominadora, não poderia ter-se implantado em escala mundial sem uma campanha, paralela, desenvolvida simultaneamente. Em Washington os ideólogos do sistema perceberam que era indispensável reescrever a História. Por outras palavras, falsifica-la. Uma máquina mediática gigantesca empreendeu essa tarefa. O cinema, a televisão, a imprensa, a internet, com a cumplicidade de intelectuais das grandes universidades, das Forças Armadas, de uma legião de jornalistas, de membros do Congresso e de destacadas personalidades da Finança, foram os instrumentos utilizados para ocultar ou deformar a Historia profunda de que nos fala Lucien Fèbvre, e substitui-la por uma Historia inventada, ficcional, que corresponda ao interesse e fins do capital.
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A falsificação - é a palavra adequada - principia pelas antigas civilizações mediterrânicas. Em filmes famosos, Hollywood apresentou da Grécia de Péricles, da Pérsia de Dário, da Roma de César, heróis que transmitem sobre a democracia, a liberdade, a violência, o progresso económico, até o amor, conceitos e ideias supostamente progressistas, usando o discurso do americano «ideal» do século XX.
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Essa agressão à Historia é particularmente nociva e perigosa para as massas quando incide sobre temas e personagens contemporâneos. A versão estadounidense da II Guerra Mundial, por exemplo, é uma grosseira deturpação da Historia. E o objectivo foi em grande parte atingido. Mundo afora centenas de milhões de pessoas crêem que foram os Estados Unidos, em defesa da liberdade e da civilização, quem, em batalhas épicas, enfrentou e destruiu o poder militar da Alemanha nazi. O papel desempenhado pela União Soviética teria sido secundaríssimo. A mentira é tamanha que episódios irrelevantes nos combates da Sicília ou numa ofensiva do general Patton são guindados a epopeias da humanidade, enquanto as batalhas de Stalinegrado é Kursk merecem atenção mínima.
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O anticomunismo primário tem sido ao longo de décadas uma prioridade nessa permanente ofensiva do sistema do capital para reescrever a Historia.
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A satanizarão do socialismo e a apologia do capitalismo como sistema supostamente democrático, e até progressista, são ingredientes básicos no massacre mediático orientado para a formatação de um tipo de homem alienado, inofensivo para a engrenagem do poder.
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Em Portugal a classe dominante tem-se comportado como discípula aplicada dos mestres do imperialismo estadounidense e europeu.
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Diariamente os canais de televisão promovem mesas redondas que falsificam grosseiramente a História. Uma corte de «analistas», apresentados como especialistas em matérias que, afinal, ignoram, palram sobre a totalidade do conhecimento humano, desde a actual rebelião do mundo árabe às cruzadas pela «democratização» do Afeganistão e do Iraque, passando pelo buraco do ozono e a poluição dos oceanos.
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Seria um erro subestimar os efeitos negativos dessa torrente de disparates e mentiras. Ela contribui para confundir, e enganar uma parcela significativa do povo português.
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Sem a anestesia da consciência social seria impensável que no pais do 25 de Abril a memória do general Vasco Gonçalves seja rotineiramente insultada por colunistas de lugar cativo dos grandes diários, enquanto aventureiros da politica e cavalheiros da extrema direita receberam a Grã Cruz da Ordem da Liberdade de sucessivos Presidentes da Republica.
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Que fazer, então, perante um panorama desolador, numa época de crise quando uma criatura com o Primeiro-ministro, porta-voz oficial da contra cultura, ofende a palavra democracia exibindo-se como seu defensor e intérprete?
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Lutar, lutar, lutar, em Portugal e no vasto mundo, sem sermos condicionados pelo calendário da vitória distante.
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A humanidade resistirá à contra cultura que a ameaça. No caminhar da História, o capitalismo contem as sementes da sua própria destruição.
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Vila Nova de Gaia, Março de 2011
Fonte: http://gracietesantana.blogspot.com/

terça-feira, 19 de abril de 2011

Grupos populares de teatro lutam para sobreviver em meio a circuito restrito e que privilegia o teatro para as elites

Na cerimônia de entrega de um dos principais prêmios do teatro brasileiro uma surpresa: um grupo popular é premiado e, ao invés de agradecer, realiza
um protesto contra a patrocinadora do evento, a companhia petrolífera Shell. No momento do recebimento do troféu, a atriz Nica Maria, do Coletivo Dolores Boca Aberta Mecatrônica de Artes, jogou óleo queimado, simulando petróleo, sobre a cabeça do ator Tita Reis, que em seu discurso ironizava o patrocínio da Shell. “Nosso coração artista palpita com mais força do que qualquer golpe de estado patrocinado por empresas petroleiras”, diz o ator.

O Coletivo Dolores foi premiado com o espetáculo A Saga do Menino Diamante, uma Obra Periférica, no último dia 15, na categoria Especial do 23º Prêmio
Shell de Teatro, tradicional premiação que acontece em São Paulo e no Rio de Janeiro. Apesar de aplaudida por parte do público, a cena espantou muitos presentes no local, entre eles, conhecidos nomes do meio artístico paulista. A atriz Beth Goulart, que apresentou o prêmio, indignou-se com a atitude do Coletivo. “Receberam um carinho e deram um tapa”, disse.

De acordo com Luciano Carvalho, integrante do Coletivo, a reação desencadeada já era esperada. “Se fosse significativo [o protesto], a gente sabia que iam
nos criticar”, conta. O ator explica que a oposição do Coletivo não é somente ao fato de ser a Shell a financiadora do prêmio, mas à lógica onde se insere a produção artística brasileira, em que os grandes conglomerados econômicos passam a financiar e dizer o que é ou não é arte. “As grandes empresas tornam-se reis dos estados absolutistas de hoje e dizem o que é bom e o que é ruim. É como se fosse um polvo com todos os seus tentáculos infindáveis que estão, inclusive, na cultura, porque também é espaço de construção de ideologia”, afirma Carvalho.

Privatização O protesto foi realizado para marcar a posição contrária do grupo teatral a este tipo de premiação que, segundo o ator, promove a hierarquização e gera a exclusão daqueles que não atendem aos padrões impostos pelos que controlam o prêmio. Tal visão não é defendida somente pelo Coletivo Dolores. Grupos de teatro popular e comunitário alertam para a forma como está estruturada a política cultural no Brasil. “Esse tipo de prêmio expõe a maneira como essa área cultural e artística do nosso país está privatizada”, alerta Jorge Peloso, do Impulso Coletivo, grupo teatral de São Paulo.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Entre os muros

Já nos mandaram o FastFood.
Nos mandaram a calça jeans.
Enviaram também seu cinema
fantasioso e explosivo.

Não nos deixaram sem a Coca
e muito menos a coca.

Já temos nosso próprio avião
nuclear, submarino nuclear
(só se perdeu a família nuclear).

E agora temos nossa própria
Columbine.

Daniel Braga


Dedicado a todos os professores e alunos que vivem cotidianamente uma guerra invisivel entre os muros da escola e em especial aos pais, familiares, professores
e alunos do Realengo, Rio de Janeiro

Uma análise histórica sobre o Luxo e a Sociedade de Corte européia do século XVII através da obra literária A Roupa Nova do Rei de Hans Christian Andersen

Uma análise histórica sobre o Luxo e a Sociedade de Corte européia do século XVII através da obra literária A Roupa Nova do Rei de Hans Christian Andersen.

Nana Krishna Andrade


Todos querem mais do que podem,
Nenhum se contenta com o necessário,
Todos aspiram ao supérfluo,
E isto é o que se chama luxo.

Padre Antonio Vieira.

No século XIX, um escritor dinamarquês de nome Hans Christian Andersen escreveu um conto infantil que representava bem as atitudes de um provável rei absolutista da Europa do século XVII. A Roupa Nova do Rei relata a história de um monarca muito vaidoso e muito afeiçoado as suas roupas e as novidades da moda. Há ainda, no conto, elementos que identificam a Sociedade de Corte e a sua ambição pelo luxo e pela ostentação, características típicas do Estado Absolutista barroco.

O conto se inicia com a chegada de dois mercadores espertalhões ao reino, e que tentando se passarem por tecelões e alfaiates de prestigio, oferecem um tecido de rara beleza ao rei. Este tecido, porém, contém qualidades mágicas: só poderia ser visto por pessoas competentes e inteligentes, tornando-se invisível aos olhos dos imbecis e incompetentes. Logo, o rei fica maravilhado com as qualidades do tecido e todos os súditos do reino também se encantam com tal objeto raro. (ANDERSEN, p. 141, 1994)

Já nesses primeiros momentos do conto, observam-se elementos típicos de uma sociedade européia moderna e de um reino absolutista. Há nesse momento histórico na Europa do século XVII, uma secularização, ou seja, o poder político do Estado já não compartilha plenamente as suas decisões com a Igreja. O monarca se constitui o poder absoluto, a cabeça de um Estado corporativo.

Sendo o rei absolutista o poder central, ele não devia tantas obrigações a Igreja Católica. No conto, o tecido especial oferecido ao rei era um objeto mágico: tornava-se visível e invisível. Em tempos feudais tal objeto seria questionado quanto a sua natureza mística. Provavelmente o tecido e os mercadores iriam ser censurados por membros eclesiásticos. O tecido mágico seria considerado objeto do demônio e os mercadores seriam julgados por bruxaria.

Contudo, na fábula de Andersen, a despeito dos julgamentos religiosos, a vontade do rei prevaleceu, e ele adquiriu a fazenda mágica.

O conceito de luxo, da ostentação da riqueza já era um fenômeno histórico de épocas antigas, mas vai ser na Europa Moderna, que passava por uma transição econômica do modo de produção feudal para o capitalista, que este conceito vai achar seu campo mais fértil. Ser nobre significava possuir o que havia de mais belo, viver cercado de artigos maravilhosos, de pompas, como forma de afirmar posições de prestigio e superioridade.

[...] Não há sociedade estatal – hierárquica sem as escaladas dos signos faustosos da desigualdade social, sem os sobrelanços ruinosos e as rivalidades de prestigio pelos consumos improdutivos. Max Weber e Norbert Elias já sublinharam fortemente: nas sociedades aristocráticas, o luxo não é algo supérfluo, é uma necessidade absoluta de representação decorrente da ordem social desigual. (LIPOVETSKY, p.34, 2005).



O rei do conto de Andersen se encanta com a possibilidade de adquirir algo totalmente novo e exótico para sua coleção de roupas e artigos de luxo. Em uma tentativa de exibir a novidade, de ser glorificado e imortalizado pelo evento de possuir algo inovador e de ostentá-lo, ele realizará o desfile para a exibição de seu traje.

Há nesse aspecto do luxo, retratado pela obra literária, elementos que indicam uma mudança na mentalidade do homem moderno: o luxo se tornou sensual. Há o apego estético por coisas belas, o profano se sobressai ao sagrado, há o erotismo dos bens raros. “O processo de desclericalização das obras abriu os caminhos modernos da individualização e da sensualidade do luxo. Ele entrou em seu momento estético.” (LIPOVETSKY, p.37, 2005).

A moda surge nesse contexto europeu, na metade do século XIV. Esse contexto de valorização do luxo e das mudanças na tradição, no apego pela inconstância e pela frivolidade. Já nos séculos XVI e XVII vai se estabelecer, e indicar as formas como a Sociedade de Corte se apresentava e se impunha. No conto, o rei já é dominado por esse novo emblema da moda. “Há muitos e muitos anos, vivia um imperador que só se preocupava em vestir roupas caras e elegantes, gastando com essa vaidade todo o dinheiro que tinha.” (ANDERSEN, p. 140, 1994).

Sobre a moda surgida na Europa Moderna, o filósofo Gilles Lipovetsky afirma:

O aparecimento da moda é a lógica do jogo e da festa (excesso, desperdício) anexando pela primeira vez a arquitetura da toalete. [...] Com a moda instala-se a primeira grande figura de um luxo absolutamente moderno, superficial e gratuito, móvel, liberto das forças do passado e do invisível. (p.40, 2005).

Além das questões do luxo e da moda, outra característica do Estado Absolutista europeu observado no conto é a Sociedade de Corte, surgida na Europa centro-ocidental, em um período de transições econômicas, políticas e sociais, aproximadamente durante os séculos XVI e XVII, se caracterizava por ser uma sociedade hierarquizada, de cargos, elites, e de protocolos e manuais de etiqueta que regulamentavam a vida aristocrática.

Esses manuais de etiqueta, códigos de boa conduta, e diplomacia regiam os comportamentos dos cortesãos e da monarquia. E se tornaram sinônimos, também, de uma diferenciação de classes e de mudanças de elementos éticos e morais, já que os manuais que divulgavam essa nova forma de relações entre o meio e as pessoas, circularam quase que exclusivamente entre os membros das cortes.

Na sociedade de corte existiam muitas disputas pelos cargos de confiança do rei, pelas posições de poder, pelos ministérios. A incessante luta entre os nobres para se manterem no círculo de prestigio do monarca fazia com que certas alianças fossem fortalecidas e que certas “artes” como a arte de observar e de manipular os outros, estudadas por Norbert Elias, fossem aprimoradas.

Um perfeito cortesão é senhor dos seus gestos, dos seus olhos, do seu rosto; é profundo, impenetrável; dissimula os maus ofícios; sorri aos inimigos, oculta sua má disposição, mascara as suas paixões, contraria o coração, fala e age contra os seus sentimentos. (SAINT-SIMON apud ELIAS, p.28, 1987)

Na trama de Andersen, quando o rei pede ao seu Primeiro Ministro que supervisione a confecção de sua roupa, o rei objetiva testar a competência do seu ministro. Este, porém se vê numa situação difícil, pois constata que não consegue enxergar a roupa feita do tecido mágico. Sua reação será, obviamente, não se entregar na sua ignorância e fingir para os falsos alfaiates que consegue vê a vestimenta com todo seu esplendor.

Tem se aí, nessa passagem do conto A Roupa Nova do Rei, um exemplo da arte de observar as pessoas e se preservar manipulando a situação, usando da diplomacia como um meio de defesa do seu cargo político. Isso vai acontecer novamente, na história, com o conselheiro e com o próprio rei, que não vendo a roupa pronta, simularão a satisfação de vê-la. Certamente, os falsos tecelões se aproveitam do código de etiqueta e das posições frágeis da nobreza em assumirem suas fraquezas.

O conto se conclui com o desfile do rei vestindo o traje mágico e invisível. Todos os seus súditos fingem ver o rei com suas roupas e elogiam seus trajes. Ninguém teria coragem de contrariar um rei absoluto, e que estava na realidade nu. Mas uma criança grita no meio da multidão que o rei estava nu. Logo todos os súditos do reino concordam com o julgamento infantil e se rebelam contra o rei e sua atitude ridícula ocasionada por sua vaidade desmedida.

O imperador estremeceu, caindo em si e compreendendo que havia sido logrado. Sem nada dizer, seguiu em frente, pensando: “Tenho de agüentar firme até o final do desfile”. E lá se foi ele, caminhando de cabeça erguida, enquanto os dois camareiros reais seguiam atrás, segurando as pontas da cauda do manto que não existia. (ANDERSEN, p.145, 1994).



As classes mais baixas do reino absolutista desconheciam ou não partilhavam dos códigos de boa maneira da Sociedade de Corte. Como no exemplo do texto de Hans Christian Andersen, o rei é respeitado por sua posição ímpar até seu julgamento, pelos seus súditos, no desfile. Mas a atitude do rei é a mais acertada, sabendo ele de seu lugar na sua sociedade. Por fim ao desfile assim como começou, com sua postura de superioridade implacável, significa ao rei, antes de tudo, assegurar sua permanência no poder.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Iº Seminário Nacional de Cultura - UJC / CCCP / Casa Gregório Bezerra


Nos dias 22, 23 e 24 de Abril, acontecerá o Iº Seminário Nacional de Cultura, no qual será discutido as bases é perspectivas de uma nova política para as juventudes, levando em consideração a sua diversidade e experiências, com palestras, shows e muita informação sobre o que acontece de protagonismo cultural juvenil nas principais cidades do nosso Brasil.
Em alguns dias iremos disponibilizar a programação completa, com os debates, palestrantes e os shows que vão acontecer durante o Iº Seminário Nacional de Cultura.

Mais informações!
http://seminariodeculturajovem.blogspot.com/
http://ujcmaringa.blogspot.com/

Porto Alegre madrugada

Olho pela janela do quinto andar, do quarto (cômodo), vejo o centro da nossa querida Porto Alegre, Morro Santa Tereza à frente. Na ponta de tempo que me resta desta madrugada, manhã madrugada, noite acordada, posso agarrar as primeiras luzes da escada, do corredor, do elevador, que nem a dor montanhosa de um hospital pode barrar… Mas eu somos essa “massa” multiforme que se “trata” neste hospital.

Um retiro, um suspiro, parar para pensar, pessoas vão “represando” na recepção, no ambulatório, roupas no lavatório, 2:30, 3:30, 4:30, 5:30, 6:45… Um clique do mouse, um tilintar do relógio, uma “parede”, vári@s técnic@s, médic@s, equipe de higiene e limpeza, fisioterapia, controle de líquidos, termômetro, cateter, sonda, antibiótico, bactérias, artérias, sono, copa, avental, material… Hospital!

O mais e menos imediato, a “cidade baixa” a “cidade alta”, “saúde pública” e “saúde privada”, privada… privada… Mais uma chícara de café…

Esta manifestação particular da sociedade, generalidade particularizada, particularidade generalizada, indivíduo coletivo, coletivo individualizado…

- Saúde!

SUSpira fundo humanidade cindida combatendo feridas que se abrem sem cessar…

- Saúde, Porto Alegre madrugada!

Autor: Dario Silva
Fonte: http://dariodasilva.wordpress.com/2011/04/09/porto-alegre-madrugada/

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Tempo Neomoderno

2011
A vida verga

Os limites da ordem
Ardem no asfalto
Da pele
Oprecário é funcional
A rotina também

Em celulares
Olhares escutam
A falta de contato
Nas retinas
Calos não calam
As marcas são muitas
A guerra é total

Concomitante

O corpo vai
Medroso
Neorótico
Bruto

Cumprir o neosuplício.

HALLISSON NUNES GOMES

quinta-feira, 7 de abril de 2011

CONCURSO HQ PARTIDÃO


O PCB (Partido Comunista Brasileiro), por motivo de seus 90 anos de fundação a serem comemorados em 2012, editará uma História em Quadrinhos que contará, em dois volumes, a trajetória histórica do Partidão desde os primórdios de sua fundação até os dias de hoje. Para tanto, estamos selecionando desenhistas para participarem do projeto. Fazemos, assim, um chamado aos militantes, simpatizantes e amigos ilustradores do PCB, para que enviem amostras de suas artes até o dia 01 de junho de 2011.

Atenção: trata-se de um trabalho voluntário, militante, daqueles camaradas que ou fazem parte dos nossos quadros partidários ou que, mesmo não fazendo parte do nosso Partido, queiram contribuir para divulgar a rica história de lutas do PCB em nosso país, através de um meio de propaganda que contém uma linguagem de grande aceitação junto à juventude, principalmente. Portanto, o trabalho não será remunerado, mas, repetindo, voluntário, seguindo atradição revolucionária dos comunistas, de assumirem tarefas e compromissos políticos em prol das causas populares e pela afirmação dos nossos ideais.

Para facilitar o trabalho dos camaradas que desejem participar do concurso, segue abaixo desta mensagem um esboço do roteiro do capítulo 01 da HQ, do qual poderá se aproveitar alguma(s) cena(s) para a confecção da arte do desenhista concorrente. O desenhista selecionado terá seu nome constando dos créditos da obra.

O e-mail para o envio dos trabalhos é daniludens@yahoo.com.br Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. , aos cuidados de Daniel Oliveira. Não fique de fora deste momento histórico! PARTICIPE!

Roteiro do capítulo 01

terça-feira, 5 de abril de 2011

BCQP: Carnaval 2009 - Da Anistia ao Direito de Votar


A UJC vem mostrar
Bebendo na história
Pra contar
Democracia esquecida
A anistia que tardia
Dez anos de lutas sem parar!

Da anistia ampla e irrestrita
Que perante tanto asco
Absolveu o carrasco
Dono do medo e da dor

E tanta gente

Tanta gente na rua
Mais de um milhão
Brigando pra poder votar
Tanta gente na rua
Mais de um milhão
Mas as diretas tiveram que esperar


Autores: Camila Mascarenhas,  Gisele Mascarenhas, Heitor Cesar, Marcos Botelho, Mariângela Marques, Yara Arendt

domingo, 3 de abril de 2011

Mãos Erradas

Um grito, um uivo
Um berro lancinante,
Que rasga o silêncio
E causa distúrbios

Vem da margem
Dos cantos escuros, imundos
É mas quer paz, justiça, liberdade
Quer radicalizar e erradicar a dor

É incompreensível
Para os que fazem a lei
Oh lei vil arma, arma poderosa
Em mãos erradas


Ivanil Gomes

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Bertolt Brecht - O PASSAGEIRO

Quando, há alguns anos
Aprendi a dirigir um carro, meu instrutor

Me fazia fumar um charuto; e quando

Na confusão do tráfego ou em curvas difíceis

O charuto apagava, ele me tirava o volante.

Também contava piadas, e se eu não sorria

Muito ocupado com a direção, afastava-me

Do volante. Eu estava inseguro, dizia ele.

Eu, o passageiro, me apavoro quando vejo

O motorista muito ocupado com a direção.

Desde então, ao trabalhar

Cuido para não ficar absorvido demais no trabalho.

Dou atenção a muitas coisas em volta

Às vezes interrompo o trabalho para Ter uma conversa.

Andar mais rápido do que o que me permite fumar

É algo que já não faço. Penso

No passageiro.

Bertolt Brecht

quarta-feira, 30 de março de 2011

Guerra na Líbia - Hallisson Nunes Gomes: Você concorda?

Você concorda
Com a guerra
Na Líbia?
Nós, também
Não!

Você concorda
Com a exploração?
Nós também
Não!

O povo do mundo
Não te quer,
Obama! O povo do mundo
Não suporta mais
Injustiça, fome,
Miséria, opressão,
Sua falsa liberdade!
Obama, o povo do mundo
Não suporta mais
Sua falácea absurda.

Coca-Cola, Nike,
Ford, Monsanto, Bayer,
Souza Cruz, Google,
General Motors, Texaco,
Bank Boston, City Bank,
Ambeve, etc, etc, etc, ...
Como é grande
Teu nome
Obama!

Obama, filho de todas
As bombas – As crianças
Te sentenciarão!

No mundo neoliberal
A liberdade
É um bucho
Mal cozido.


Hallisson Nunes Gomes
Com intervenção de Daniel Oliveira

segunda-feira, 28 de março de 2011

OS TEMPOS MODERNOS DE CHAPLIN: TRABALHO E ALIENAÇÃO NA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL

Sérgio A. M. Prieb*

“Não sois máquina! Homens é que sois!”
(Discurso de Charles Chaplin no final do filme “O grande ditador”)

A origem da palavra trabalho tem sido comumente atribuída ao latim tripalium, instrumento de tortura utilizado para empalar prisioneiros de guerra e escravos fugídios. Assim, em sua própria terminologia o trabalho carrega uma carga de esforço e desprazer, o que é extremamente compreensível em sociedades em que predominavam o trabalho forçado em que atividades produtivas eram desprezadas e executadas tão somente por escravos como na Grécia e Roma antigas, cabendo aos homens livres a execução de atividades intelectuais ligadas às ciências e às artes.
Pode-se afirmar que o trabalho é o ato que o homem executa visando transformar conscientemente a natureza, ou para citar Marx (1983, p. 149), é uma ação em que o homem media, regula e controla seu metabolismo com a natureza. A origem do trabalho encontra-se na necessidade de a humanidade satisfazer suas necessidades básicas, evoluindo para outros tipos de necessidades, mesmo supérfluas. Assim, trabalhar é produzir riqueza, o que é necessário em todos os modos de produção, seja no comunal primitivo, no escravista, no feudal, no capitalista, e mesmo nas experiências socialistas. O que muda é a forma de produzir, a tecnologia utilizada, e a relação entre o sujeito que produziu e o que se apropria do que foi produzido, que varia de acordo com a forma de organização da sociedade1.
Uma sociedade não vive sem o trabalho, na verdade, pode-se dizer que o homem evoluiu de sua condição animal até sua condição atual devido ao seu trabalho2. Engels (s/d, p. 270) afirma que o homem modifica sua relação com a natureza devido ao trabalho. Se na condição animal ele tinha de submeter-se às leis da natureza, através do trabalho ele busca dominar a natureza, transforma-a em proveito próprio. Passa de ser dominado a ser dominante devido ao desenvolvimento do trabalho.
O próprio desenvolvimento do seu corpo, do cérebro, da fala, e da relação entre os homens origina-se do trabalho. Desta forma, Engels afirma que o trabalho criou o homem e o homem criou o trabalho, sendo esta uma ação exclusivamente humana, pois assume uma forma consciente, não intuitiva, pois antes de produzir um objeto é necessário ao trabalhador elaborá-lo inicialmente em seu cérebro para só então partir para a execução. Já as atividades que os animais executam (a aranha e sua teia, o joão-de-barro e sua casa) são meramente intuitivas, daí trabalho ser uma atividade exclusiva da espécie humana.
Para Marx, o único bem que o trabalhador possui devido a não ser proprietário de meios de produção é a sua força de trabalho, a sua capacidade de trabalhar, sendo por isso que o trabalhador é obrigado a vender sua força de trabalho ao capital. Ao contrário de sociedades pré-capitalistas como o feudalismo e a escravidão, no capitalismo o trabalhador entrega sua capacidade de trabalhar por um tempo determinado através de um contrato de trabalho.
Além do estabelecimento de um contrato de assalariamento que regula as relações capital-trabalho, algumas diferenças podem ser encontradas no trabalho sob o modo de produção capitalista em comparação com sociedades pré-capitalistas. Como já visto, o trabalho era desprezado na Grécia e Roma antigas, fazendo com que a socialização dos indivíduos ocorresse fora do trabalho, enquanto na sociedade capitalista a socialização dos indivíduos ocorre exatamente nas relações de trabalho. Para esta mudança, a revolução industrial dos séculos XVIII e XIX teve um peso determinante3, com a formação de exércitos de trabalhadores que desprovidos de qualquer propriedade são obrigados a abandonar a vida do campo, sendo jogados nas cidades em busca de empregos assalariados junto às nascentes indústrias.
O trabalho então assumiria um novo caráter, de atividade indigna no passado, passam a ser vistos como indignos aqueles que não trabalham, taxados como vagabundos os que não se submetem a trabalhar para o capital4, mesmo que o próprio capital não tenha interesse em absorver todo o trabalho posto à sua disposição. Assim, os capitalistas sempre encontram um grupo de trabalhadores à margem do processo produtivo, mas sempre ávidos por incorporar-se a ele, a estes trabalhadores Marx denominou de “exército industrial de reserva”.
Em “Tempos modernos” (“Modern times”), filme de Charles Chaplin5 de 1936, o diretor mostra com maestria os efeitos que o desenvolvimento capitalista e seu processo de industrialização trouxeram à classe trabalhadora. Como diz o texto de introdução do filme, “’Tempos modernos’ é uma história sobre a indústria, a iniciativa privada e a humanidade em busca da felicidade”6.
A temática de “Tempos modernos” custou a Chaplin uma série de perseguições por parte da CIA, juntamente com a acusação de simpatias comunistas7. Além disso, havia recusado naturalizar-se norte-americano argumentando ser um “cidadão do mundo” o que agrava ainda mais sua situação. Chaplin passa a constar na “lista negra” de Hollywood durante a perseguição macarthista, o que torna sua situação de trabalho nos EUA insustentável (seus filmes eram proibidos), levando-o a abandonar definitivamente os EUA em 1952.
No filme, o vagabundo Carlitos, ironicamente, encontra-se na condição de operário. É ao auge do predomínio do padrão de acumulação taylorista-fordista, em que os trabalhadores tem suas habilidades substituídas por um trabalho rotineiro e alienado. É o predomínio da esteira rolante de Ford, do cronômetro de Taylor8, do operário-massa.

domingo, 27 de março de 2011

Delenga Pasárgada est

Vim-me embora de Pasárgada.
Declarei-me inimigo do rei.
Já tenho a mulher que amo
na cama que conquistei.

Vim-me embora de Pasárgada
pois lá eu não era feliz.
Quero conceber a vontade,
com a mulher que eu sempre quis.

Não preciso dos favores,
de um rei tirano e mandão
Com o meu trabalho honesto,
eu mesmo produzo meu pão.

Trouxe comigo minha amada.
Hoje já não sou mais triste,
Sou feliz por completo.
Pasárgada não mais existe.

Daniel Braga

sexta-feira, 25 de março de 2011

Indústria Cultura, Ideologia e Alienação

Nestes tempos de carnaval no Brasil, devemos analisar o papel da indústria cultural no modo de produção capitalista, o papel que a indústria do entretenimento desempenha na divulgação da ideologia burguesa, na acomodação cooptação das manifestações artísticas – culturais que acabam se transformando em uma simples mercadoria vendável como qualquer outra mercadoria no sistema capitalista, como vem ocorrendo com o carnaval no Brasil nos últimos anos.

Nos períodos de carnaval devemos fazer uma profunda reflexão sobre o que se transformou o carnaval Brasileiro, antes esta grande manifestação cultural era patrimônio da população, hoje é apenas uma mercadoria. Para entendermos o porquê do carnaval uma grande festa popular ter se transformado tanto, é preciso concentrar nossa analise sobre o avanço tecnológico colocado a serviço da lógica capitalista, onde o consumo e a diversão são utilizados como formas de garantir o apaziguamento e a diluição dos problemas sociais.

Por vivermos no capitalismo tudo se torna mercadoria incluindo a arte e as manifestações artísticas de um povo, a indústria cultural se apropria da cultura popular, o que era espontâneo, o que refletia as particularidades, as tradições, os valores de um povo, de um povoado, de uma região ou de uma nação se torna o contrário, o interesse do capital através da indústria cultural, ou seja, cultura destinada às massas através do mercado gera o desestimulo, o empobrecimento do cenário cultural.

A arte por si só não promove mudanças na sociedade, ela pode contribuir para a conscientização das massas através dos artistas engajados politicamente, porém isto depende das condições objetivas e subjetivas onde ocorre a luta de classes. Isto explica por que em determinadas épocas temos uma maior produção cultural e um maior engajamento por partes dos artistas, e em outros momentos um maior empobrecimento intelectual e alienação dos artistas.

terça-feira, 22 de março de 2011

Carta aberta de Roger Waters (do Pink Floyd) sobre o muro do apartheid israelense


Diário Liberdade - Em 1980, uma canção que escrevi, "Another Brick in the Wall Part 2", foi proibida pelo governo da África do Sul porque estava a ser usada por crianças negras sul-africanas para reivindicar o seu direito a uma educação igual. Esse governo de apartheid impôs um bloqueio cultural, por assim dizer, sobre algumas canções, incluindo a minha.


Vinte e cinco anos mais tarde, em 2005, crianças palestinas que participavam num festival na Cisjordânia usaram a canção para protestar contra o muro do apartheid israelita. Elas cantavam: "Não precisamos da ocupação! Não precisamos do muro racista!" Nessa altura, eu não tinha ainda visto com os meus olhos aquilo sobre o que elas estavam a cantar.


Um ano mais tarde, em 2006, fui contratado para actuar em Telavive.

Palestinos do movimento de boicote académico e cultural a Israel exortaram-me a reconsiderar. Eu já me tinha manifestado contra o muro, mas não tinha a certeza de que um boicote cultural fosse a via certa. Os defensores palestinos de um boicote pediram-me que visitasse o território palestino ocupado para ver o muro com os meus olhos antes de tomar uma decisão. Eu concordei.


Sob a protecção das Nações Unidas, visitei Jerusalém e Belém. Nada podia ter-me preparado para aquilo que vi nesse dia. O muro é um edifício revoltante. Ele é policiado por jovens soldados israelitas que me trataram, observador casual de um outro mundo, com uma agressão cheia de desprezo. Se foi assim comigo, um estrangeiro, imaginem o que deve ser com os palestinos, com os subproletários, com os portadores de autorizações. Soube então que a minha consciência não me permitiria afastar-me desse muro, do destino dos palestinos que conheci, pessoas cujas vidas são esmagadas diariamente de mil e uma maneiras pela ocupação de Israel. Em solidariedade, e de alguma forma por impotência, escrevi no muro, naquele dia: "Não precisamos do controle das ideias".


Realizando nesse momento que a minha presença num palco de Telavive iria legitimar involuntariamente a opressão que eu estava a testemunhar, cancelei o meu concerto no estádio de futebol de Telavive e mudei-o para Neve Shalom, uma comunidade agrícola dedicada a criar pintainhos e também, admiravelmente, à cooperação entre pessoas de crenças diferentes, onde muçulmanos, cristãos e judeus vivem e trabalham lado a lado em harmonia.


Contra todas as expectativas, ele tornou-se no maior evento musical da curta história de Israel. 60.000 fãs lutaram contra engarrafamentos de trânsito para assistir. Foi extraordinariamente comovente para mim e para a minha banda e, no fim do concerto, fui levado a exortar os jovens que ali estavam agrupados a exigirem ao seu governo que tentasse chegar à paz com os seus vizinhos e que respeitasse os direitos civis dos palestinos que vivem em Israel.


Infelizmente, nos anos que se seguiram, o governo israelita não fez nenhuma tentativa para implementar legislação que garanta aos árabes israelitas direitos civis iguais aos que têm os judeus israelitas, e o muro cresceu, inexoravelmente, anexando cada vez mais da faixa ocidental.


Aprendi nesse dia de 2006 em Belém alguma coisa do que significa viver sob ocupação, encarcerado por trás de um muro. Significa que um agricultor palestino tem de ver oliveiras centenárias serem arrancadas. Significa que um estudante palestino não pode ir para a escola porque o checkpoint está fechado. Significa que uma mulher pode dar à luz num carro, porque o soldado não a deixará passar até ao hospital que está a dez minutos de estrada. Significa que um artista palestino não pode viajar ao estrangeiro para exibir o seu trabalho ou para mostrar um filme num festival internacional.


Para a população de Gaza, fechada numa prisão virtual por trás do muro do bloqueio ilegal de Israel, significa outra série de injustiças. Significa que as crianças vão para a cama com fome, muitas delas malnutridas cronicamente. Significa que pais e mães, impedidos de trabalhar numa economia dizimada, não têm meios de sustentar as suas famílias. Significa que estudantes universitários com bolsas para estudar no estrangeiro têm de ver uma oportunidade escapar porque não são autorizados a viajar.

domingo, 20 de março de 2011

Minha Obra

''Lágrimas escorrem do meu rosto involutariamente
Es meu coraçao, chora por tua falta. ''


David Sterley

David Sterley <sterley_hoo@hotmail.com>

sábado, 19 de março de 2011

Thiago de Mello - CUBA

O poeta brasileiro Thiago de Mello enviou mensagem (leia abaixo) de solidariedade à Revolução Cubana, na que manifesta sua indignação com a campanha perversa dos Estados Unidos contra a Ilha, que ofende não só o Estado cubano, mas principalmente seu povo que faz meio século enfrenta e supera com sua vida as conseqüências do anacrônico e impiedoso bloqueio econômico imposto por Washington.

A mensagem foi lida pelo cônsul cubano em São Paulo, Lázaro Mendez Cabrera, ontem, no debate realizado na capital paulista sobre o cerco midiático a Cuba.


Queriro Pedro,

Imposibilitado de viajar a São Paulo y participar del debate del proximo 15, te ruego la dirección -e-mail - de alguien a quien pieda enviar un mensaje de mi inabalable solidaridad con la Revolución Cubana . Es mi deber manifestar mi indignación con la campaña perversa y injuriosa que ofende no solamente all Estado cubano pero sobretodo a su pueblo, que hace medio siglo enfrenta y supera con su vida las ingratas consequencias del anacrônico e impiedoso bloqueo econômico impuesto por los Estados Unidos.

Hace poco trasncribi en el principal diario del Amazonas el texto, Cántico para la navidad de Fidel, que he leído en la apertura del simposio que celebró sus 80 años en
La Habana. Acabo de dedicar mi antologia, Poetas da América de Canto Castelhano a la la Casa de las Américas, de Cuba, por su perseverante labor, fructo y flor de la Revoluciuón, en la construcción del abrazo cultural de los puebvlos no solamente de nuestra América sino del mundo.

Guarda mi abrazo, espero tu respuesta.
A lo mejor, envía tu mismo estas palabras , que envio desde el corazón de la floresta amazónica ,a los compañeros que se van a reunir allá en São Paulo para levantar su voz para servir a la verdad .
.
Thiago de Mello

sexta-feira, 18 de março de 2011

Blognovela revista cidade sol: Reconstrução Revolucionária

Local: castelo latino-americano de El Senor

Companhia: Milkshakespeare

Apoio: cadeia de lanchonetes Hamletdonald´s


Personagens


Horácio: ator burguês devoto do mercado e amigo do falecido rei Fernando II

Marcelo: ator fanfarrão de classe média que diverge de Horácio e apóia Eisenhower da Silva.

Asryka Yourself e Eisenhower da Silva, um casal burguês dono do teatro El Senor e da franquia de lanchonetes Hamletdonald´s.

Francinny, uma gentil mulher e diretora da peça Milkshakespeare

Fantasma do rei Luís Hamlet

Fernando e Sorocaba: atores que estão encenando a peça Milkshakespeare

Petrossaubrás, príncipe da Noruega e dono da empresa Atlantis, associado a Eisenhower da Silva e Asryka Yourself.

Dois embaixadores ingleses indignados com o wikileaks

Dois coveiros sem terra

Um capitão do exército

Cozinheira

(Cenário cafona na companhia Milkshakespeare. O teatro está visivelmente decadente e sujo. Horácio está encenando uma passagem de Hamlet. Na platéia quase vazia, visivelmente estão só uns gatos pingados. Francinny, Einsenhower da Silva e Asryka Yourself estão na plateia).


Horácio: Acabo de escutar o galo cantar...(Ouve-se um celular na platéia. Horácio volta-se para a platéia, enfurecido. A peça para. Acendem-se as luzes na platéia). Ele berra: PUTA QUE PARIU!


Marcelo (saindo da coxia indignado): Nunca antes nesse teatro extraordinário...


Francinny, diretora da peça Milkshakespeare (dirige-se ao palco a partir da plateia): CALMA, CALMA, vamos voltar ao trabalho! Apaguem essas luzes! Ei, vocês! Vamos ter mais educação? Desliguem seus celulares. Ao trabalho, Horácio!

Fernando (ator da peça Milkshakespeare, encara a diretora com ar desafiador): Todo dia seu teatro é exatamente igual.

Sorocaba: Sua psicologia tá um tanto quanto errada.

Francinny (irritadíssima): Enquanto atores, vocês são excelentes cantores sertanejos! Agora voltem ao trabalho e...

Cozinheira (entrando no palco esbaforida): Senhora! Senhora! Parte do elenco fugiu!

Francinny: O quê?

Cozinheira: Estamos só nós, coveiros, cozinheiras...Vamos ter que tomar conta do teatro.

Francinny: Ora, ora. Tomar conta, por que?

(Entram os dois coveiros sem terra. Um deles encara Francinny com seriedade): A crise nos atingiu, senhores! A cadeia Hamletdonald´s retirou seu apoio. O teatro faliu! Hamlet, Ofélia, Laerte, todos fugiram para Londres com o dinheiro da bilheteria, por medo de não serem pagos! Nossa única solução é gerir o teatro nós mesmos!

(Todos falam ao mesmo tempo, entrando em polvorosa. Fim da primeira cena da blognovela).

Autor: Lúcio Jr

Paulama

O Brasil ainda é pau!
É pau-dágua
É pau-de-arara
É o pau do policial

O Brasil ainda é pau!
É casa de pau-a-pique
É a cara- de-pau do político
Paulama

O Brasil ainda é pau!
É de tanto pau
Pau e pedra
Paulificante

O Brasil ainda é pau!
Só já não é pau-brasil.


Hallisson Nunes Gomes
Belo Horizonte/MG

quinta-feira, 17 de março de 2011

Nana Krishna Andrade - Do Corpo à Terra


A manifestação Do Corpo à Terra: a presença da Arte Guerrilha no início no Brasil

A partir dos anos 60, os artistas plásticos brasileiros redirecionaram suas temáticas e discussões de um enfoque estético para um outro politicamente e socialmente engajado, dadas as circunstâncias políticas em que o país se encontrava diante da ditadura militar. Os ideais das esquerdas armadas lideradas pelo PCB e os posicionamentos já tomados por artistas de outras áreas, radicalizaram formalmente os discursos visuais desses artistas plásticos, já há muito influenciados pelos movimentos neovanguardistas internacionais.
Este artigo pretende tratar sucintamente, dessa arte engajada politicamente, intitulada de Arte Guerrilha, assim como da manifestação Do Corpo à Terra, ocorrida em 1970, na cidade de Belo Horizonte. Essa manifestação se constituiu o auge do movimento da Arte Guerrilha e encerrou a importante trajetória das exposições artísticas antes da instauração do AI-nº5.

A proposta da Arte Guerrilha e seus principais expoentes

Arte Guerrilha foi o nome dado, pelo crítico de arte Frederico Morais, a uma atuação mais radical em termos de postura política, dos artistas plásticos brasileiros em meados da década de 1960.
Os artistas adeptos dessa forma mais efetiva de produção estética estavam fortemente influenciados pela Pop Art, pela Arte Conceitual e pelas tendências de desmaterialização na arte. Unem-se a essas influências das neovanguardas, os idéais revolucionários das guerrilhas armadas da Esquerda, tanto brasileira, quanto as de outros países latino-americanos.
A produção das obras e a divulgação das propostas da Arte Guerrilha se davam de maneira a aproximar o grande publico, por isso, para as ações dessa arte eram utilizados os Happenings, as performances, as grandes instalações, o farto uso dos objetos do universo do cotidiano popular e do material de publicidade e propaganda.
Cildo Meireles, um dos artistas desse grupo, montou, por exemplo, em 1968 a instalação Desvio para o vermelho, que consistia em um ambiente onde todos os móveis e adornos eram vermelhos e em um canto escuro um líquido, da mesma cor dos objetos da sala, cai sobre uma pia inclinada. O efeito perturbador desse cômodo deixou claro o caráter alegórico da obra, que se referia à ditadura militar e à violência no país. “No caso de Desvio para o vermelho, a metáfora política da violência armada foi uma abordagem possível a partir da envolvente impressão cromática instaurada pelo artista. A cor toma conta do olhar e se transforma em símbolo, notadamente de uma violência relacionada ao desejo revolucionário.”1
O artista pop Antonio Manuel também participou ativamente desse período de convulsão social. Suas obras passaram a retratar de forma corajosa o momento político do país e as grandes manifestações nas ruas. Para conseguir tal resultado artístico, Manuel se utilizava de colagens de jornais e imagens serigrafadas. Por algumas vezes, suas obras foram consideradas subversivas, e proibidas de serem expostas como no Salão de Brasília em 1967, ou na Bienal baiana de 1968. 2
Outros artistas igualmente importantes da Arte Guerrilha, foram Artur Barrio, Thereza Simões, Guilherme Vaz, Raimundo Colares, Odila Ferraz, Luis Alphonsus, entre outros. Frederico Morais, entusiasmado com o ideário revolucionário da contracultura do filósofo Marcuse, publica o artigo Contra a Arte.
E foram com esses ideais que Frederico Morais escreveu o Manifesto Do corpo à Terra e realizou a exposição de mesmo nome, em 1970 no Palácio das Artes em Belo Horizonte.

A manifestação Do Corpo à Terra

quarta-feira, 16 de março de 2011

Pastores da Morte

Dedicado a Jeferson da Silva, Renilson da Silva e Victor Jara

Chegaram gritando
Espalhando o terror
Buscando o arrego
Impondo o estado da dor

Soldados-tenentes
Senhores da guerra
Implacáveis, inclementes
Capitães-das-vielas

Selvagens, indecentes
Cabeças de repolho e pica-paus
Armados até os dentes
com seus narizes de cristal

Mantidos com nossos impostos
Impõe o horror cotidiano
Desfazem planos
Assassinam sonhos

Cospem em nossas caras
Matam nossos filhos e irmãos
Mentem despudoradamente
Fazem da injustiça seu pavilhão

Cães raivosos
Ceifam vidas inocentes
Com seus fuzis e uniformes
Pisoteiam as flores indulgentes

Mataram um jovem-menino
Que com as mãos moldava o pão
Que a noite estava sorrindo
E de manhã jazia em um caixão

Mataram também o seu tio
Cujo crime era morar na favela
Piedoso enfermeiro-negro
Nunca passou pelas celas

Foram executados pelo Estado
Que financia, treina e arma
Psicopatas de boina e farda
Corsários de insígnias cruzadas

Neo-capitães-do-mato
Jagunços e mercenários
Traficantes e viciados
Milicianos estatizados

E eles sorriem e se protegem
Zombam da dor do trabalhador
Mas o sangue que roubaram
Este sim tem valor

Favela agora é quilombo
O povo não esquece tão rápido
Polícia e bandido se equivalem
O ódio agora é dobrado

Mataram um jovem padeiro
(podia ser seu filho)
Mataram um jovem enfermeiro
(podia ser seu irmão)

Mas o canto que da garganta explode
Esse não podem matar
Nem com a justiça-fuzil
Nem com inquérito militar

E estes dois mártires
Que faziam da alegria sua bandeira
Não serão nome de praça
Pois não têm eira nem beira

Porém na longa estrada
Que no peito é o coração
Nomearão um sentimento amigo
Muita saudade e inspiração


Daniel Oliveira
Belo Horizonte/Minas Gerais
25 de Fevereiro de 2011


terça-feira, 15 de março de 2011

Continente

(ao Che)
Na Quebrada do Yuro,
Do lado austro do Bravo,
As lágrimas vertidas
Salgam o fino sangue
De nosso continente.
A lança do inimigo,
este monstro potente,
Cega, corrói, encerra.
Prostra o resistente,
em seu delírio vil.
Porém, aos braços dados
Soma-se mais de mil,
Que ouvem das montanhas,
O ressoar de um grito
Livre e combatente.

E o tiro queda contrito
E já não mata aquele
Que espalha e apanha
Em uma nova campanha
A luz sobreeminente.

Robson Ceron
Floripa/SC

segunda-feira, 14 de março de 2011

MOTE

MOTE
Vida longa pra Fidel

GLOSAS

As minhas glosas tão simples
Feitas com palavras forjadas
Neste clarão da alvorada
Que é o meu saber de poeta
Deste de mente inquieta
Que pelas beiras faz cordel
E pelos meios tira o fel
Pondo a timidez pro lado
Clamando emocionado:
Vida longa pra Fidel.

Este cidadão do mundo,
Orgulho dos comunistas,
Faz encher as minhas vistas
De lagrimas de emoção
Ao falar: revolução,
Desta feita em Cuba
Tal uma maçaranduba,
Uma fortaleza ao leu.
A ela tiro o meu chapéu
E que Che diz nas alturas:
Vida longa pra Fidel.

Este esteio de honradez
Estimula-me a criar
Um poema a beira mar
Feito com muito carinho,
Com versos bem novinhos,
Feitos assim a granel,
Embrulhado com papel
Do meu saber de poeta
Dizendo assim na estética:
Vida longa pra Fidel.

Foi na sexta-feira treze
Este dia de plena sorte,
Foi dia de um homem forte
Que venceu o Tio Sam,
Este tio que não sou fã
Que é uma nação cruel
De gente pra lá de Nobel
Nas ciências da maldade
Por isso digo com vontade:
Vida longa pra Fidel.


Ele voltou pra dizer
Ao imperador da maldade
Que finde, bem de verdade.
A guerra que destrói tudo
E isto é um basta absurdo
Que só agrada um infiel
Igualzinho a este Israel.
Que adora guerra de estouro
Por isso diremos em coro:
Vida longa pra Fidel.

Ah! Como é tão bom ver-lo
Na tribuna discursando
Pelas beirinhas sangrando
O império do terror
Com sua voz de doutor
Nesse planeta cruel
Onde tudo cheira fel
Entregue a própria sorte
Por isso eu grito bem forte:
Vida longa pra Fidel.

São 84 aninhos
Deste jovem ancião,
Um homem de coração,
Um comandante porreta.
Dominador da caneta,
De vitima passou pra réu
Escrito sobre um papel
Pelas mãos da burguesia
E grito sem mais-valia:
Vida longa pra Fidel.

Este bom homem fez história,
Poucos seguiram sua trilha.
Este filho da bela ilha
Mostrou muita competência,
Na arte da indulgência
Nessa torre de babel
Onde beira a Maquiavel.
Idéias aburguesadas
Por isso digo à amada:
Vida longa pra Fidel.
Gilson Silva – gilson2121@gmail.com
http://blocodasrosas.blogspot.com/

sexta-feira, 11 de março de 2011

Manifesto de fundação do "Comuna que Pariu!"

Fundação do Bloco "Comuna que Pariu!"

A UJC - RJ lançou seu bloco de Carnaval, não apenas para o carnaval, não apenas para brincar politizando e politizar brincando, mas para organizar.



Manifesto de fundação do "Comuna que Pariu!"

Nosso bloco pretende ser não o maior bloco do carnaval carioca, nem se tornar uma escola de samba, nosso bloco não pretende competir com os grandes blocos do carnaval do Rio, mas pretende mostrar que ainda é possível, e além, que é necessário fazer um apelo a juventude carioca e a demais seguimentos que brincam no carnaval.
Muitos falam do carnaval como a festa democrática, onde o “pobre” vira rei e o “rei” virá pobre, onde todos brincam na rua independente time de futebol, etnia, nacionalidade ou outros falsos antagonismo, dizem até mesmo que não importa nem as classes sociais, todos são iguais. Outros mais realistas dizem do carnaval como a doce ilusão, como algo que se desmancha ao longo de quatro dias trazendo de volta a realidade, mostrando que todo carnaval tem seu fim.

Nós discordamos da visão de festa democrática, discordamos da falácia da volta do carnaval de rua como uma democratização da festa. Discordamos e resolvemos agir.

Onde esta democracia em blocos cercados por corda onde somente entram quem possui a abada do bloco, festas particulares no meio da publicas ruas, excluindo para fora do espaço demarcado àqueles que não compraram a cara camisa.

Nosso bloco tem camisa também, e também a vendemos, mas não para excluir, quem não tem camisa é bem vindo. Nossa camisa é para contribuir com a organização, e pelo orgulho de ser comunista, de brincar sem esquecer a nossa causa, a nossa identidade, a nossa luta. Sem esquecer que não temos um patrocinador - e que não o queremos - que nosso patrocínio é o nosso militante, nosso amigo, nosso colaborador.

A UJC apresente assim seu bloco, na tradição de quem sempre utilizou a cultura na luta de classes, nas tradições de artistas comprometidos com a causa do socialismo, nas tradições de Mario Lago, Candido Portinari, Gianfrancesco Guarnieri, Dias Gomes, Vianinha, do CPC da UNE, da luta pela democratização da cultura, nessas tradições a UJC traz o “Comuna que Pariu!” mais uma arma da crítica.



Heitor Cesar (Historiador, poeta, comunista e membro do Bloco "Comuna que Pariu!")

OBS: Ao longo das publicações apresentaremos os enredos do Comuna que Pariu! deste ano e dos carnavais posteriores.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Um lindo poema

Pediram-me pra escrever um poema,
Eu vomitei e do vômito,
Vi dançarem versos nauseantes,
Da torpêz de meus sentidos, de ébrio.

Identifiquei mãe e pai, filho e filha,
Então chorei desesperadamente,
E de minhas lágrimas salgadas e acres,
Vi brotarem espinhos e flores.

Chicoteei-me, maltratei-me, feri-me,
E do sangue que escorreu abundante,
Vi pecados, quase cagados,
Quase gozados.

E deste gozo, profundo e dolorido,
Jorrou algo? Não! Jorrou sêmen,
E meu sêmen fecundou a terra,
Brotando: flores, frutos e um lindo poema!


Ivanil Gomes
BH/MG

sexta-feira, 4 de março de 2011

Maiakóvski - FRAGMENTOS

1

Me quer ? Não me quer ? As mãos torcidas
os dedos
despedaçados um a um extraio
assim tira a sorte enquanto
no ar de maio
caem as pétalas das margaridas
Que a tesoura e a navalha revelem as cãs e
que a prata dos anos tinja seu perdão
penso
e espero que eu jamais alcance
a impudente idade do bom senso

2

Passa da uma
você deve estar na cama
Você talvez
sinta o mesmo no seu quarto
Não tenho pressa
Para que acordar-te
com o
relâmpago
de mais um telegrama

3

O mar se vai
o mar de sono se esvai
Como se diz: o caso está enterrado
a canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites
Inútil o apanhado
da mútua dor mútua quota de dano


4

Passa de uma você deve estar na cama
À noite a Via Láctea é um Oka de prata
Não tenho pressa para que acordar-te
com relâmpago de mais um telegrama
como se diz o caso está enterrado
a canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites inútil o apanhado
da mútua do mútua quota de dano
Vê como tudo agora emudeceu
Que tributo de estrelas a noite impôs ao céu
em horas como esta eu me ergo e converso
com os séculos a história do universo

5

Sei o puldo das palavras a sirene das palavras
Não as que se aplaudem do alto dos teatros
Mas as que arrancam caixões da treva
e os põem a caminhar quadrúpedes de cedro
Às vezes as relegam inauditas inéditas
Mas a palavra galopa com a cilha tensa
ressoa os séculos e os trens rastejam
para lamber as mãos calosas da poesia
Sei o pulso das palavras parecem fumaça
Pétalas caídas sob o calcanhar da dança
Mas o homem com lábios alma carcaça.


(tradução: Augusto de Campos) 
http://www.culturapara.art.br/opoema/maiakovski/maiakovski.htm

quinta-feira, 3 de março de 2011

Espírito

Enquanto o inseto clama
Aos céus, contra a
Injustiça da teia,
a fragata reza o peixe
Roubado do atobá.

O pranto e a culpa
Recolhem-se no
Mesmo manto azul.

Robson Ceron
Florianópolis/SC