Homenagem a Saramago
(ou de flores, pessoas e palavras)[1]
Mauro Luis Iasi[2]
Joana Carda traçou uma linha no chão com sua vara de negrilho, os cães de Cerbère, que nunca ladram, ladraram ao fundo, enquanto os estorninhos passaram a seguir o pobre José Anaiço, ao mesmo tempo em que Joaquim Sassa lançava uma pedra ao mar e a terra tremia sob os pés incrédulos de Pedro Orce[3]... pronto... a Península Ibérica se soltou do continente europeu e navegou pelo oceano tenebroso da mesma forma que muito tempo antes navegantes portugueses se lançavam com suas naus, sextantes e velas em busca de um novo mundo, ou fugindo do velho mundo que naufragava em terra firme, não se sabe; mas não adiantemos nossa história, pois nada disso seria possível se em outro momento, numa mera quinta feira como qualquer outra, pois um dia nada mais é que um dia, ainda que todos os dias, mesmo os mais corriqueiros, tenham sua história e levaria anos para contá-la, mas no mais das vezes não passam mesmo disso, um dia como outro qualquer, e neste em especial nada aconteceu. Nem terra tremeu, nem penínsulas se divorciaram de seus continentes e não fosse o fato de que cães latiram, aliás, como sempre fazem os cães que não são de Cerbère, nada de especial se veria de neste dia, nesta casa, nesta gente humilde que tem casa, mas não tem terra e ainda assim lavra e planta e colhe naquilo que não tem para produzir aquilo que não terá; nesta casa sem terra, neste dia 16 de novembro de 1922 que calhou ser uma quinta feira, e que não se tire deste fato conclusões, pois poderia ser quarta ou sábado que da mesma maneira o rebento nascia, uma vez que não se vem ao mundo munido de calendários, mas por necessidade de sair do ventre e entrar no mundo, sem pedir licença ou saber aonde, se em Portugal ou Espanha, saberá deus onde acaba um e começa outro. Coube ao destino que fora em Portugal, mais precisamente em Azinhaga, no conselho de Colegã, na província de Ribatego, onde nada há, mas havia uma casa de camponeses que não tinham terra, mas tiveram um filho e o chamaram de José, condenando-o, sem o saber, a trabalhar como trabalhou o pai do nome e a ver obras serem paridas sem saber se foi ele mesmo que as fez. Para não esquecer de onde veio coloram em seu nome outros nomes para que entre tantos josés ele se encontrasse consigo mesmo e não se confundisse com os outros que como ele trabalhariam no que não tinham, produzindo para não ter; e foi assim que José carregou também o Souza de sua mãe e Saramago de seu pai. O Souza seguiu o destino das mulheres de Portugal, de negro e na sombra, lembradas para serem em seguida esquecidas, de forma que o rebento que entrara no mundo naquela quinta feira do mês de novembro do ano de 1922 ficaria conhecido apenas por José Saramago, hoje reconhecido como nome importante de escritor, mas que naquela quinta feira não passava de nome de trabalhadores sem terra e que na verdade dizia no nome fabricado de letras a carne da coisa que representa, não como o nome da rosa, coisa de importância outra que arrebata corações tomados por paixões avassaladoras e enfeita mesas sofisticadas de gente de nossa melhor sociedade, ou coisa ainda mais séria que Umberto Eco nos conta, mas não explica; pelo contrário aquele nome dizia respeito à coisa bem mais simples e corriqueira, nada mais que uma pequena florzinha silvestre que brota de escombros – saramago – em minúsculo mesmo, pois flor não merece distinção de gente, ainda que como gente brote em qualquer parte, até mesmo em escombros.
No registro encontrar-se-á o dia 18, mas uma coisa é o dia em que se nasce e outra aquele em que se registra o que nasceu, ora só o que faltava é não considerar o existente por dois dias, tirar da existência dois dias por coisas burocráticas como registros de nascimento. Nasceu e por dois dias o Estado não o reconheceu, talvez por vingança depois de crescido o nascido também o Estado não reconheceu, mas isso são coisas de comunista que depois veremos como se dão. Naquele momento não era comunista nem cristão, apenas era e assim cresceu e se mudou, porque diferente de flor silvestre que sempre está onde nasce, com gente é diferente, sempre carregando suas raízes fora da terra, levantado do chão, navegam com suas coisas e filhos para cidades grandes e frias que os recebem com indiferença e asco como se o chão que assenta a cidade não fosse também o mesmo chão que abrigava os que antes não tinham terra e na cidade continuam não tendo por profissão. Mas, cidades são escombros de outra natureza feitos dos sonhos daqueles que nelas chegam e o jovem José em Lisboa também sonhava e estudou no Liceu e no Técnico sem, contudo, poder continuar os estudos, pela maldição do nome se colocou a trabalhar desde cedo, aos 12 anos, como serralheiro, depois mecânico, desenhador e funcionário público de vários afazeres na saúde e previdência social e tanto trabalhou que não seguiu estudando como queria. Não podendo desposar os livros em seu templo universitário, os visitava como amante furtivo na Biblioteca Municipal no Palácio Galveias, na freguesia de Nossa Senhora de Fátima bem de frente à Praça de Touros do Campo Pequeno, que fora no século XVII casa de campo, quando ali ainda era campo, da família do ilustre e nobre senhor Marques de Távora que não receberia em sua casa coisa tão pequena como saramago, gente ou flor, mas que em 1759 perdeu a casa por conta de um processo movido pelo Estado envolvendo escândalo de grande monta ligado à tentativa de assassinato de D. José I, o que mostra que nem todo José carrega a maldição do trabalho ocupando-se de coisa mais nobre que é governar reinos, sem contar o próprio José que depois de se tornar santo não mais se ocupou da marcenaria por uma espécie de nepotismo celestial; mas o fato é que Dom Francisco de Távora perdeu sua bela casa que de mão em mão passou até que 1928 por ação da Câmara Municipal de Lisboa foi transformada em biblioteca, que diferente de palácios nobres aceita a qualquer um, seja saído ou não de escombros silvestres. Foi ali que o jovem José navegou novamente para longe só que desta vez sem sair do lugar, nas asas de páginas amareladas, cheirando a ácaro e mofo, se converteu em Ícaro e voou protegendo suas frágeis asas de cera do sol inclemente da realidade no interior das paredes de tal palácio que já foi de Marqueses e agora se diz público, onde se explica abrigar um menino de pais agricultores como os pais deles, que estudou e trabalhou e agora só trabalha de onde foge para amar os livros às escondidas.
E amou e de tanto amar também passou a amar gente que como sabemos difere de flores e da mesma forma dos livros ainda que como eles conte histórias que carregamos não em páginas, mas nos olhos e no corpo e nas palavras que dizemos como nos livros e, da mesma forma que nos livros, às vezes nos vemos melhor que em nós mesmos ou em outro qualquer tipo de espelho, às vezes vemos outras pessoas em que nos vemos e, por um momento, já não sabemos onde acaba ela, onde começa a gente e, em fim, nos apaixonamos. E foi assim com José que encontrou Ilda Reis e com ela se casou no ano que então corria e que era o de 1944. Logo depois a terra tremeria e a culpa não foi ainda de Joana Carda e sua vara, mas de um pintor e seu tambor que varreria o mundo com suas hordas e que, ao contrário de nosso personagem, não amava os livros, mas os queimava. No entanto, mesmo em tempos de barbárie nos quais a humanidade mesma quase vira escombros, nascem flores, ainda mais aquelas que por vocação e nome nascem em escombros, e foi assim que no mesmo ano duas flores nasceram e nenhuma delas era flor: uma na forma de gente, também pequena flor silvestre brotando em ruínas, que recebeu o nome de Violante, sua filha; e outra, um pouco flor, um pouco filha, na forma de livro que batizou (porque livros também têm nomes) como o nome de A viúva (1947). Nomes são coisas interessantes, uns ficam com a gente a vida toda, mas por vezes colam em nós nomes que não são nossos e ficam sendo mais nossos nomes que os nomes que nos deram, como aconteceu com Lênin que era Vladimir, e foi isso que se deu com o primeiro livro de nosso escritor que nasceu com o nome de A viúva, mas o editor achou que assim não venderia e o rebatizou de Terra do pecado e desta forma foi conhecido, menos pelo próprio autor que odeia o nome dado, talvez porque tenha sido a primeira vez que se reencontrou com seu destino e de sua família, aquele de produzir coisas que se vão e não mais ficam nossas.
Talvez por isso mesmo, ou porque nasceu com nome de flor silvestre que nasce em escombros, ou por serem seus pais camponeses que não tinham terra como seus avós, ou por trazer marcado no corpo a sina daqueles que trabalham para ver seu produto fugir de suas mãos, ou porque se chamava José e tinha que trabalhar e trabalhar, ou porque se parecia a Blimunda[4] que quando não comia seu pão pela manhã podia ver dentro das pessoas, ou porque amava as palavras e os livros, e por isso as pessoas, ou porque podia construir na sua cabeça outro mundo que não este no qual flores, pessoas e livros são queimados, ou talvez por tudo isso, se tornou comunista: em 1969 entrou no Partido Comunista Português.
Assim como ninguém nasce cristão ou comunista, um escritor não nasce quando escreve seu primeiro livro. José foi se procurando naquele mar de palavras, mas não se via bem naquilo que escrevia. Seu segundo livro foi rejeitado pelas editoras, chamava-se Clarabóia e permaneceu inédito para sempre; só voltaria a publicar dezenove anos depois, mas agora bravo com a prosa resolveu se procurar na poesia e os chamou de Os poemas possíveis (1966). É mais fácil da gente se ver na poesia, ainda que seja mais difícil fazê-la, porque ela se mostra assim inacabada de maneira que uma pessoa olha o que é mostrado e se encontra naquilo que não é revelado, então, ela inventa o resto imaginando que o poeta escreveu para ela. Outros dois livros de poemas viriam, Provavelmente alegria (1970) e O ano de 1993 (escrito em 1975, porque os poemas também não nascem com calendários e às vezes se confundem); tímidos como seu pai/flor silvestre, não se mostraram facilmente a todos que o procuraram e também neles José não se encontrou verdadeiramente. Tinha, pela maldição do nome, que continuar trabalhando, mas foi assim procurando um jeito de ficar perto das amadas palavras e pouco a pouco foi trabalhar em editoras e jornais[5] e percebeu que as palavras, assim como as flores mudam, ainda que sejam sempre as mesmas flores, não são sempre as mesmas palavras, que plantadas em prosa soam solenes, em poesia se tornam leves como plumas e no jornal se apresentam duras. Como ele amava as palavras incondicionalmente, as amava como elas eram, leves ou densas, alegres ou cínicas, poéticas, sublimes ou duras, como amava as pessoas que da mesma forma assim se apresentam, como flores e palavras, às vezes meigas, às vezes cruéis, portanto, não poderia amá-las menos pela crueza do dia a dia contando-nos coisas prosaicas e corriqueiras, sobres coisas que marcam tão fortemente um dia, mas que raramente são lembradas na semana, nas cinzas do mês ou no túmulo dos anos. Desta forma, pois a vida encontra formas muito várias para promover encontros, uma flor silvestre sem terra, nascida de escombros, que havia encontrado e amado os livros, que por amar palavras, pessoas e flores se tornou comunista, que por querer ser escritor pariu dois romances nos quais não se viu, que na poesia se procurou sem se achar, encontrou-se com a crônica. Deste encontro foram seus filhos: Deste mundo e do outro (1971), A bagagem do viajante (1973), As opiniões que o DL (Diário de Lisboa) teve (1974), Os apontamentos (1977).















