Humberto Carvalho
Peço perdão aos poetas do passado e aos do presente, peço perdão aos poetas maiores, como também aos menores, pois vou falar de um poeta, com “P” maiúsculo, estrela de primeira grandeza, que veio, nas asas da Poesia, pousar no Rio Grande, espargindo a pura luminosidade do seu lirismo.
Trata-se de uma mulher/poeta e uso o verbo no presente, porque, parafraseando Guimarães Rosa, devo dizer que “os poetas não morrem, ficam encantados”.
Refiro-me à Lila Ripoll. Já em seu nome há sonoridade e ritmo típicos de um verso; diria que seu nome é como “um suspiro ritmado”.
Essa mulher pequena, aparentava, fisicamente, a fragilidade das açucenas. Por trás das lentes grossas dos óculos, seus grandes olhos escuros, de pupilas incendiadas, miravam horizontes intactos do sonho. Eram “olhos de olhar estrelas”. A testa alta, marcante em seu rosto, como que anunciava sua inteligência, sua capacidade de pensar, sonhar e lutar pelo sonho. De quando em vez, suas mãos esvoaçavam, denunciando sua feminilidade e essa graciosidade inata das mulheres nos gestos que, em Lila, eram, quase sempre, contidos.
Lila nasceu em 12 de agosto de 1905, na cidade de Quarai, na Região da Campanha. É uma característica geográfica daquela região, poder-se visualizar os campos, sem obstáculos à visão, até os limites das linhas do horizonte, criando uma sensação viva de liberdade, mas também de solidão.
Se forem verdadeiras as teorias da influência do meio ambiente sobre os seres humanos, estará explicado o porquê das pessoas daquela região terem a atitude mental de serem abertas à aragem das idéias, como o campo o é em relação aos ventos.
Por tais razões Lila diz em seu poema “No casarão...”, do livro “De mãos postas” (ed. Globo, 1938):
“Nasci num casarão velho, de esquina,
Escondido entre salsos pensativos.
E foi lá que a minha alma, ainda menina,
Olhando dia e noite os poentes vivos,
Aprendeu a viajar no pensamento. (...)”
Aprender a “viajar no pensamento” é abrir-se às idéias, é aprender a sonhar, é predispor-se a conhecer sem preconceitos, sem apriorismos. E a capacidade de sonhar será uma constante nos poemas de Lila como em “Tecedeira” do livro “Poemas e Canções” (ed. Cadernos da Horizonte, 1957):
“(...)
Sou tecedeira de um sonho,
puro, claro, inacabado.
Fia, fia, a tecedeira.
Chega o outono e a primavera.
Dos frutos caem sementes,
das sementes brotam flores.
E o fio interminável,
tece o sonho de uma espera.
(...)
Fia, fia, a tecedeira,
sem saber para quem tece,
com o fio interminável,
uma teia de ternuras.”
O sonho, a capacidade de sonhar, assume importância trancedental, especialmente para o poeta, sendo essa, talvez, a sua missão - espargir sonhos, como quem espalha sementes. É o que Lila canta em “Cantiga”, do livro “Poemas e Canções” (op. cit.):
“(...)
Que pode sonhar um poeta,
senão repartir venturas?
Poeta, irmão, sonhemos juntos
um mundo sem amarguras.
Sonhemos juntos, plantemos.
A terra está como um fruto
em pleno amadurecer.
Espalhemos nossos versos,
como quem joga sementes,
para a terra devolver.”
A solidão como decorrência daquela visão telúrica, se manifesta em seus poemas como em “Canção de Esconde, Esconde”, do livro “O Coração Descoberto”(Editorial Vitória Ltda., 1961):
“Solidão brinca comigo
um jogo de esconde, esconde.
Desaparece um momento
e surge não sei de onde.
(...)
Solidão se esconde e volta,
moe a vida, o sonho, o amor.
Ai! jogo de esconde, esconde,
esconde também a dor.”
Por estes versos, vê-se também que nossa poeta (ela não aceitava a denominação de poetisa, pois a considerava discriminatória) construía seus poemas de forma direta e simples, sem perda do lirismo, do ritmo e da sonoridade.
Quando a Poesia começou a caracterizar-se por ser uma espécie de extenuante laboratório de enigmas, envoltos em densa nebulosidade de mistérios dirigidos a iniciados em charadas, Lila fazia uma profissão de fé na universalidade da temática poética, podendo, a compreensão dos versos, ser atingida por todos.
Dessa maneira e por outro ângulo, Lila se expunha, o coração palpitante, como num ofertório, buscando a comunhão das emoções entre os leitores e a poeta, como o faz em “Aqui estou venturosa” do livro “Poemas e Canções” (op. cit.):
“Aqui está o meu corpo,
pleno de vida e de sonho,
apesar da solidão.
Aqui tens a minha alma,
que sofreu mortes e mortes,
mas não perdeu a ilusão.
Aqui está a minha vida,
partida e reconstruída,
sobre pedaços de amor.
Aqui tens o meu suspiro,
leve sopro perfumado,
feito de aroma e de dor.
Aqui tens as minhas palavras,
revestidas de poesia,
de verdade e sentimento.
Aqui estão minhas mãos,
que permaneceram puras,
em meio a todo tormento.
Aqui estão os meus anos,
multiplicados por quatro,
pelas dores que passaram.
Aqui tens tudo o que sou:
um pouco de céu e terra,
pelas leis que me geraram.
Aqui tens tudo o que sou:
espinho e flor, urze e rosa,
noite, dia e madrugada.
Aqui estou venturosa,
por ter sido como sou,
sem mentir pra ser amada!”