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sábado, 23 de junho de 2012

Os olhos do continente

Desenho monumental feito por Carlos Latuff
Para o comandante Che Guevara

Nasci num continente
que olhava para o chão.
Pupilas perdidas na terra,
na relva, nas raízes,
nas pedras da humilhação.

Nasci num continente
que olhava para o chão.
Olhava e não via
seu rosto mutilado
no rosto de seu irmão.

Perguntava e não ouvia
seu canto entrecortado.
Numa surdez medonha
o velho chão só respondia:
vergonha.

Si señor, no señor...

Com o perdão da palavra
a palavra era culpada.
Um deus patrão com as mãos recém-lavadas
cortava o ar em cruz, o perdão era dado
ou o infeliz executado.

Gracias señor
pelo pão, pelo castigo
pela morte, pelo destino.

Nasci num continente
que olhava para o chão.
Mas um dia leu ali
entre ossos calcinados
o verbo de sangue seco
pelo povo derramado.

Leu nos olhos simples
nas águas dos regatos.
No suor vertido em braços
pelo povo explorado.

Leu ali o seu espanto
nas pedras reviradas
nas raízes descobertas
pelo povo rebelado.

Guardou, então, no seu caderno de terra
a gramática revelada
e uma semente em seu olho
que chamou dignidade.

O deus-patrão nos alerta:
“Não olhem nestes olhos
de serpente peçonheta,
é praga que se alastra
e destrói tua colheita”.

“Não olhem nestes olhos
que se rebela a harmonia,
é o fim da religião, da casa
e da família.”
Mas são olhos tão simples,
úmidos de dor e esperança.
São olhos tão brilhantes
como olhos de criança.

São os olhos de Martí,
são os olhos de Sandino,
são os olhos das montanhas
que nos mostram o caminho.

São os olhos de Camilo,
são os olhos de Havana,
é meu olho no teu rosto
que outro olho reclama.

O veneno me tomou
e já posso ler no chão,
onde antes era vergonha
leio agora revolução.

Já viram as fotos de Che morto?
Seus olhos permanecem abertos
olhando sereno o céu
do continente onde nasci.

Alturas depois de Che,
meu povo não teme vê-las,
meu continente hoje leva os olhos
até o brilho das estrelas.
Mauro Luis Iasi – Meta Amor Fases

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Canção Oficial da Marcha Patriótica (castelhano) - Yury Buenaventura

Campos Elíseos

Ah se o tempo pairasse
Então eu não deixaria você ir embora
Ficaria há admirar-te
E toda minha existência
Por mais artificial que fosse
Por mais surreal que fosse
Justificar-se-ia
Então saberia
Que não posso viver
Sem tua doce presença na minha vida
Já não te deixaria ir embora
Já não te deixaria sozinha
Jogada a própria sorte...
Tudo isso se o tempo pairasse!
           
Agnes não gostou de ver os dois policiais postados, na porta do quarto fazendo a sentinela, a postura marcial dos militares incomodou Agnes. A vida toda ela fugia dessas figuras, na verdade Agnes fugia de si mesma, a vida desregrada era sua mais profunda e angustiante prisão, pois não conseguia fugir dela em absoluto, Agnes era prisioneira de si mesma. Naquele momento, ela não sabia se deveria passar diretamente pela porta, ou se identificar para os soldados. Parou por uns instantes e decidiu adentrar, passou porta adentro sem pedir licença aos militares parados ali feito estátuas de cera. Agnes em um instante chegou a duvidar se aquelas figuras foram pessoas de verdade. Ela passou pela porta e não foi incomodada pelo militares.
            Agnes foi encontrar Sibelli deitada, na cama debilitada, parecia estar morta. Mas, a mulher de negros cabelos, olhos verdes e pele glacial, estava viva. A Dama da noite, outrora absolta e ‘’dona’’ de muitos admiradores. Jazia solitária deita na cama de um hospital.
            - Trouxe... trouxe o que te pedi menina? – A voz de Sibelli, soou de uma forma que, não condizia com o seu estado de saúde. Era forte e decidida, agora Agnes sabia o porquê de ela ter a fama de sobrepujar a todos.
            - Trouxe! Mas...
             - Anda... me dá logo as pílulas e vá embora menina!
             - Sibelli ...????     
             - ‘’Tás’’ pensando o que menina? A vida é minha, e disponho dela como bem entender! Vivi sozinha, a minha vida intera, e não é agora que vou pedir ajuda. Cai fora daqui... desaparece da minhas vistas logo.
Agnes olhou a amiga, fez como um ato mecânico com as mãos. E passou as cápsulas para a Sibelli.
            - Vá embora quero partir sozinha! – Mais uma vez a voz da Sibelli era forte e cheia de razão. O olhar da mulher ajustou Agnes. Agnes queria correr quando passou pela porta, mas não o fez, saiu do quarto calmante, como se nada acontecera. Ela não mais se importou com a postura marcial dos soldados. Estavam estáticos, quando há jovem passou por ambos. Pareciam feitos de ceras as sentinelas, pareciam alheios a tudo a todos.

Samuel da Costa é contista em Itajaí

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Na Colômbia cabeças rolam


Na Colômbia cabeças rolam
Em formato de bola de futebol

Crianças e mulheres assistem
A seus pais e maridos e filhos
Macerados em sangue e bosta

Os pássaros se lamentam as mortes
Eles mesmos à surdina morrem
Porque ousaram cantar no azul

Não palavra em língua livre
Para dizer Esta é minha casa

Se alguém dedilha folhas e colhe frutos
Sem senha ou fora do horário
Coturnos marcham fabricando cadáveres

Tratados de paz são assinados a bala
Com choques de tortura pela censura

Um dia uma criança viu seu pai
Cortado por lâmina de motosserra

Colombianos esperam pelo dia quando
Caminharão pelas praças, ruas e campinas
Sem a ameaça de fuzis e canhões

Jamesson Buarque 
Militante do PCB em Goiás e Professor da UFG

 

terça-feira, 19 de junho de 2012

120 ANOS DE GRACILIANO RAMOS


imagem


Neste ano de 2012 comemoram-se 120 anos de Graciliano Ramos. Nascido em 27 de outubro de 1892, na cidade de Quebrangulo, sertão de Alagoas, o grande romancista brasileiro ingressou no PCB no ano de 1945, quando já era um escritor consagrado pela publicação de obras que marcariam para sempre a literatura nacional, como São Bernardo e Vidas Secas, verdadeiros libelos contra a miséria e a opressão humanas. Nesta época também já era conhecido por sua postura política profundamente ética e libertária, destacando-se por sua posição antifascista e contrária ao Estado Novo, assim como pelo uso, em suas crônicas, da ironia corrosiva contra as mazelas sociais e a inépcia do governo Vargas em combatê-las. Afinal, havia passado dez meses preso, sem culpa formada, e ficou fichado na Polícia Política como “suspeito de exercer atividade subversiva”, quando eclodiu a rebelião comunista em 1935.

Participou das lutas contra o nazifascismo e contribuiu, com sua militância junto aos escritores, para a retomada das liberdades democráticas e pelo fim do Estado Novo. No PCB, juntou-se a Jorge Amado, Astrojildo Pereira, Caio Prado Júnior, Cândido Portinari, Di Cavalcanti, Carlos Scliar, Djanira, Moacir Werneck de Castro, Aparício Torelly, Oduvaldo Vianna, Dias Gomes, Oscar Niemeyer, Alberto Passos Guimarães, Mário Lago, entre inúmeros outros artistas e intelectuais que enxergaram no Partido Comunista o espaço político necessário à luta pela paz, pelo avanço democrático e pelo socialismo. 

Discordou da política cultural então formulada pelo PC da URSS, a do “realismo socialista”, afirmando que “a literatura é revolucionária em essência, e não pelo estilo do panfleto”. Faleceu em 20 de março de 1953, aos 60 anos, sem ver publicada outra obra clássica escrita por ele: Memórias do Cárcere, reconstituição dos porões da ditadura varguista e belo exemplar do realismo crítico, a retratar as figuras humanas em toda a sua fragilidade, riqueza e complexidade.

O Partido Comunista Brasileiro – PCB – através de sua página oficial e da Fundação Dinarco Reis, homenageia um dos seus mais importantes militantes históricos com a Seção “120 anos de Graciliano Ramos”, na qual coloca à disposição textos e materiais diversos sobre a história de vida e a obra de Graciliano. Convidamos os militantes e amigos do PCB a contribuírem ativamente com a manutenção deste espaço virtual e com as comemorações em torno de mais um aniversário de vulto para todos nós, no ano em que nosso Partido completa 90 anos de existência.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Quando tudo terminar


Ah se o tempo pairasse
Então nada seria como antes
Já não te deixaria, jogada entre as feras
Desprotegida & sozinha
Então toda a minha existência
Justificar-se-ia & então eu me perderia
Na imensidão dos teus olhos
De um verde tão intenso
E eu saberia
Com toda a certeza que já não posso viver
Sem você...
Sem tua doce presença na minha vida.

Otto sempre preferiu viver em regiões fronteiriças, vivia como seus antepassados, que sempre viveram assim. O clã’’, a qual Otto pertencia, vivia e morria, entre a legalidade e a ilegalidade, entre uma nação e outra, entre um continente e outro, como em uma marcha sem fim, indo e vindo ao saber das conveniências da ocasião. Viviam e morriam de lealdades e de traições, migrações e imigrações forçadas. E o teuto tomou para si esse legado familiar. Por isso escolheu para viver na cidade portuária e seus inúmeros e infindáveis vai e vem de navios, caminhões, mercadorias e gente de todos os naipes, te todas as matizes, raças e credos. E para morar, aquele bairro que não se decidia se queria ser uma zona rural ou urbana, com aquelas olarias, que importunavam a todos com seus fornos arcaicos enfumaçados, bairro cortado por uma rodovia que ligava o litoral informal e quente com o vale europeu frio e sisudo. Otto foi encontrar trabalho um pouco longe dali, no Bar-café Garibaldi, que se localizava próximo a orla, na via de acesso rápido entre cidades. Otto também dividia a vida em duas partes distintas, uma clandestina de noite, e uma aparentemente normal e de dia. Viver entre os mais variados riscos e desventuras da fronteira da ilegalidade com a legalidade. O ar puro da orla do mar de dia, o clima carregado da noite da beira do cais e por fim entre traições e lealdades. Um equilíbrio que nem sempre repousava nas mãos de Otto. Os choques entre mundos eram inevitáveis, constantes e cada vez mais violentos e cada mundo lhe cobraria, a sua maneira, um preço e uma definição. 

***

O aroma de alfazemas pairava no ar e se misturava com a música romântica francesa antiga. E a luz vermelha, que vinha do abajur ao lado da cama, deixou o quarto à meia luz. As roupas espalhadas por toda a parte compunham o ambiente. Para os dois não havia nada para se dizer, pois o silêncio já dizia tudo, e falava por si. E abraçados na cama, ficaram por mais uns alguns instantes, além do habitual, mas parecia uma eternidade para ambos.  Agnes sabia que aquilo não poderia durar muito tempo. Otto, também, sabia que as coisas não poderiam ficar no pé em que estavam. Ele queria dizer alguma coisa, mas lhe faltavam palavras, elas morriam em sua boca. Agnes nem sequer deixou espaço para tal coisa nos últimos dias. Não poderia, pois como uma boa profissional que era, tinha decidido por fim nessa história de uma vez por todas. Já o conhecia o suficiente para tanto, e daria um golpe baixo da linha da cintura, e a hora tinha que ser naquele momento. Agnes aproveitou do momento em que Otto estava frágil e cheio de culpa.  
- Amanhã, quando raiar o dia, apareço no teu trabalho, e tu vai me preparar um senhor café da manhã, seu canalha, aproveitador, seu desgraçado. Vou querer ser servida por pelo teu amiginho muito especial. Que tal, torradas e chá com conhaque canadense de sete anos? E pra Cigana, pão-de-mel e café morno sem açúcar, um limão cortado no meio e dois saquinhos de adoçante cristalizado importado. - Não era do perfil dela se portar daquela maneira com os clientes. Nem com os habituais, nem tão pouco com os ocasionais, mas aquilo tinha que ter um fim em absoluto. E não poderia ficar de pé uma centelha sequer, da relação que estava construindo com Otto, àquela relação era ruim para ambos, Agnes sabia da realidade em que vivia e não queria aquela ilusão para si. 
- Se tu fizer isto, sua puta desgraçada! Te mato... sabes que minha mulher trabalha comigo? Não sabes? – Esbravejou Otto, sem soltar Agnes dos braços, ainda a abraçava com terno carinho apesar do tom de voz áspero e duras palavras. 
- Não! Não eu sabia! – A voz dela soou com um lamento e como um pedido de desculpas.
- Pois agora tu sabes, te mato, se por os pés por lá te mato, tu e aquela tua amiga ordinária!- Retrucou o teuto, com todo o ódio do mundo, sem olhar nos olhos dela. Enquanto isso, lá fora há noite estava se despedindo, e o dia com as suas múltiplas possibilidades, vinha para expulsar Agnes da vida de Otto. Só que dessa vez era para sempre.

Samuel da Costa é contista em Itajaí 
 

domingo, 10 de junho de 2012

Dissidência ou a arte de dissidiar

Foto de Sebastião Salgado

Há hora de somar
e hora de dividir.
Há tempo de esperar
e tempo de decidir
                      
Tempos de resistir.
Tempos de explodir.
Tempos de criar asas, romper as cascas
porque é tempo de partir.

Partir partidos,
parir futuros,
partilhar amanheceres
há tanto tempo esquecidos.

Lá no fundo tínhamos um futuro
lá no futuro tem um presente
pronto para nascer
só esperando você se decidir.

Porque são tempos de decidir,
dissidiar, dissuadir,
tempos de dizer
que não são tempos de esperar.

Tempos de dizer:
não mais em nosso nome!
Se não pode se vestir com nossos sonhos
não fale em nosso nome.

Não mais construir casas
para que os ricos morem.
Não mais fazer o pão
que o explorador come.

Não mais em nosso nome!
Não mais nosso suor, o teu descanso.
Não mais nosso sangue, tua vida.
Não mais nossa miséria, tua riqueza.

Tempos de dizer
que não são tempos de calar
diante da injustiça e da mentira.
É tempo de lutar

É tempo de festa, tempo de cantar
as velhas canções e as que vamos inventar.
Tempos de criar, tempos de escolher.
Tempos de plantar os tempos que iremos colher.

É de dar nomes aos bois,
de levantar a cabeça
acima da boiada,
porque é tempo de tudo ou nada.

É tempo de rebeldia.
São tempos de rebelião.
É tempo de dissidência.
Já é tempo dos corações
pularem fora do peito
em passeata, em multidão
porque é tempo de dissidência
é tempo de revolução.

Mauro Luis Iasi Meta amor fases.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Ode a Lênin - Pablo Neruda


A revolução tem 40 anos.
Tem a idade de uma jovem madura.
Tem a idade das mães bonitas.

Quando nasceu,
no mundo
se soube a notícia
de forma diferente.
- Que é isso? – perguntaram-se os bispos –
Moveu-se a terra,
Não podemos continuar vendendo céu.
Os governos da Europa,
da América ultrajada,
os ditadores turvos,
liam em silêncio
os alarmantes comunicados.
Por suaves, por profundas
escadas
subia um telegrama,
como sobre a febre
no termômetro:
já não havia dúvida,
o povo havia vencido,
o mundo se transformava.

I

Lênin, para cantar-te
devo dizer adeus às palavras;
devo escrever com árvores, com rodas,
com arados, com cereais.
És concreto como
os fatos e a terra.
Não existiu nunca
um homem mais terrestre
que V. Uliánov.
Há outros homens elevados
que como as igrejas costumam
conversar com as nuvens,
são altos homens solitários.

Lênin manteve um pacto com a terra.

Enxergou mais longe que ninguém.
Os homens,
os rios, as colinas,
as estepes,
eram um livro aberto
e ele lia,
lia mais longe que todos,
mais claro que ninguém.
Ele olhava profundamente
O povo, o homem,
olhava o homem como um poço,
o examinava como
se fosse um mineral desconhecido
que tivesse descoberto.
Era preciso tirar as águas do poço.
era preciso levar a luz dinâmica,
o tesouro secreto
dos povos,
para que tudo germinasse e nascesse,
para ser dignos do tempo e da terra.

II

Cuida de não confundi-lo com um frio engenheiro,
cuida de não confundi-lo com um místico ardente.
Sua inteligência ardeu sem ser cinzas jamais,
a morte não gelou ainda seu coração de fogo.

III

Gosto de ver Lênin pescando na transparência
do lago Razliv, e aquelas águas são
como um pequeno espelho perdido entre a relva
do vasto norte e frio prateado:
solidões aquelas, esquivas solidões,
plantas martirizadas pela noite e pela neve,
o ártico silvo do vento em sua cabana.
Gosto de vê-lo ali solitário escutando
o aguaceiro, o voo trêmulo
das rolinhas,
a intensa pulsação do bosque puro.
Lênin atento ao bosque e à vida,
escutando os passos do vento e da história
na solenidade da natureza.

IV

Alguns homens foram só estudo,
livro profundo, apaixonada ciência,
e outros homens tiveram
como virtude da alma o movimento.
Lênin teve das asas:
o movimento e a sabedoria.
Criou no pensamento,
decifrou os enigmas,
foi rompendo as máscaras
da verdade e do homem
e estava em toda parte,
estava em toda parte,
estava ao mesmo tempo em toda parte.

V

Assim, Lênin, tuas mãos trabalharam
e tua razão não conheceu descanso
até que em todo o horizonte
se divisou uma nova forma:
era uma estátua ensanguentada,
era vitoriosa com farrapos,
era uma menina bela como a luz,
cheia de cicatrizes, manchada pela fumaça.
Desde terras remotas os povos a viram:
era ela, não havia dúvida,
era a Revolução.
O velho coração do mundo latejou de outro jeito.

VI

Lênin, homem terrestre,
tua filha chegou ao céu.
Tua mão
movimenta agora
claras constelações.
A mesma mão
que assinou decretos
sobre pão e a terra
para o povo,
a mesma mão
se converteu em planeta:
o homem que fizeste me construiu uma estrela.

VII

Tudo mudou, mas
foi duro o tempo
e áspero os dias.
Durante quarenta anos uivaram
Os lobos junto às fronteiras:
quiseram derrubar a estátua vida,
quiseram calcinar seus olhos verdes,
por fome e fogo
e gás e morte
quiseram que morresse
tua filha, Lênin,
a vitória,
a extensa, firme, doce, forte e alta
União Soviética.

Não conseguiram.
Faltou o pão, o carvão,
faltou a vida,
do céu caiu a chuva, neve, sangue,
sobre as pobres casas incendiadas,
mas entre a fumaça
e a luz do fogo
os povoados mais remotos viram a estátua viva
defender-se e crescer crescer crescer
até que seu valente coração
se transformou em metal invulnerável.

VIII

Lênin, gratos lhe somos os distantes.
Desde então, desde tuas decisões,
desde seus passos rápidos e seus rápidos olhos
não estão sozinhos os povos
na luta pela alegria.
A imensa luz pátria dura,
a que suportou o assédio,
a guerra, a ameaça,
é torre inquebrantável.
Não podem mais mata-la.
E assim vivem os homens
outra vida,
e comem outro pão
com esperança,
porque no centro da terra existe
a filha de Lênin, clara e decisiva.

IX
Grato, Lênin,
pela energia e pelo ensinamento,
grato pela firmeza,
grato por Leningrado e as estepes,
grato pela batalha e pela paz,
grato pelo trigo infinito,
grato pelas escolas,
grato por teus pequenos
titânicos soldados,
grato por este ar que respiro em tua terra
que não se parece com nenhum outro ar:
o espaço é fragrante,
é eletricidade de enérgicas montanhas.

Grato, Lênin,
pelo ar, pelo pão, pela esperança.

Pablo Neruda, 1959, Navegações e Regressos

Prefeitura Municipal de Ipatinga (PMI) não comparece a audiência e frustra classe artística Audiência pública para debater problemas do setor na cidade é realizada sem representantes do Governo Robson Gomes


Debate na Câmara foi acompanhado por vários setores da sociedade, à exceção do Governo Municipal
 IPATINGA – Profissionais da área cultural de Ipatinga se reuniram anteontem (31) em audiência pública para definir a melhor estratégia para resolver os impasses enfrentados pelo setor e sair da estagnação em que se encontra atualmente. A presença mais esperada para o encontro era a do secretário municipal de Cultura, Esportes e Lazer, Luís Henrique Alves, mas ele não compareceu, frustrando as expectativas de diálogo.
A presidente do Conselho Municipal de Cultura, Leila Cunha, lamentou a ausência de representantes do Executivo na audiência. “Infelizmente, mais uma vez nem o prefeito e nem o secretário de Cultura estiveram presentes. Um fato muito curioso é que o secretário de Cultura esteve em Governador Valadares, em um encontro que se discutia o Sistema Municipal de Cultura, e não veio a uma audiência pública para debater o mesmo assunto na sua própria cidade”, declarou.
OBJETIVO
A audiência pública, que teve como objetivo debater questões estruturais da cultura no município, com foco no Sistema Municipal de Cultura, foi convocada pela Comissão Permanente de Educação, Cultura, Turismo, Esporte e Lazer do Legislativo, presidida pelo vereador César Custódio (PT). Participaram do debate a pesquisadora de políticas públicas e diversidade cultural, Giselle Lucena, o consultor da UNESCO/Ministério da Cultura, Naudiney de Castro e a presidente do Conselho Municipal de Cultura, Leila Cunha.
Na abertura, o presidente do Legislativo de Ipatinga, vereador Nardyello Rocha (PSD), deixou como sugestão a criação da Secretaria Municipal de Cultura. Hoje, o Departamento de Cultura está subordinado à Secretaria de Esporte, não tem dotação orçamentária própria e nem condições de buscar os recursos que poderia conseguir. “É preciso criar meios e dar a estrutura necessária para fazer a Cultura acontecer da forma como merece, e como os munícipes merecem”, justificou Nardyello.
Ele destacou ainda o grande número de profissionais da arte encontrados no município. “Material humano para o trabalho nós já temos. Existem excelentes projetos e profissionais em nossa região, o que falta é o suporte necessário para seguir em frente. Mas vamos brigar para que este suporte seja criado”, garantiu.

PRINCIPAL
O principal tema discutido na audiência foi a criação do Sistema Municipal de Cultura, que deve ser integrado aos sistemas Estadual e Nacional de Cultura. O primeiro passo para isso é a assinatura pelo município do Acordo de Cooperação Federativa com o Ministério de Cultura. Na última entrevista concedida ao DIÁRIO POPULAR, Leila Cunha informou que faltava o prefeito Robson Gomes (PPS) enviar um documento manifesta ndo o interesse de participar do Sistema, para que a cidade pudesse participar efetivamente.
A pesquisadora de políticas públicas e diversidade cultural, Giselle Lucena, falou da sua experiência de implantação do Sistema de Cultura no Acre, sua cidade de origem. “Venho trazer uma experiência geograficamente distante, que é da implantação do Sistema no Acre e de construção de um Conselho que tenta se adequar da melhor forma possível à realidade da cidade. E tentar mobilizar tanto o poder público quanto a sociedade civil na construção de políticas públicas para a cultura local”, afirmou Giselle.

PRAZO
Para Leila Cunha, a principal preocupação no momento é que o município perca o prazo para aderir ao Sistema Municipal de Cultura. “Na verdade, quando a gente não faz essa adesão, perdemos o recurso. E estamos falando de uma cidade que está em crise. Então n ão acho que é hora de perder isso, pois significa uma má gestão. Já são 75 cidades mineiras que aderiram ao Sistema então se não fosse uma boa oportunidade, não teriam tantas adesões”, considerou Leila.
Ainda segundo ela, o cuidado deve ser maior em relação à aprovação dos projetos culturais em Ipatinga. “Sobre a lei de incentivo à cultura, nós estamos com 87 projetos que artistas locais inscreveram. E a análise ainda não foi feita, não divulgaram os resultados. Infelizmente, se até o final de julho eles não soltarem quais os projetos aprovados, a classe artística vai ficar sem receber esse recurso municipal”, lamentou a presidente do Conselho Municipal de Cultura de Ipatinga, por se tratar de ano eleitoral.

CONCLUSÃOO vereador César Custódio encerrou a audiência relatando as principais ações que precisam ser feitas para buscar uma solução para a crise da cultura na cidade. “A primeira medida é tentar reunir os chefes dos poderes municipais da região no próximo dia 18, para que possam conhecer melhor as vantagens de aderir ao Sistema Nacional de Cultura. Outra questão é a criação de uma secretaria exclusiva de Cultura, que precisa ser discutida junto ao Conselho Municipal de Cultura. Também temos a sugestão do padre Daniel, da Diocesse de Itabira e Coronel Fabriciano, de realização de uma Semana de Cultura da Paz. Tudo isso será levado para a Comissão Permanente de Cultura da Câmara e discutido com o Conselho Municipal”, concluiu César Custódio.

“Um fato muito curioso é que o secretário de Cultura
esteve em Governador Valadares, em um encontro que
se discutia o Sistema Municipal de Cultura, e não veio a
uma audiência pública para debater o mesmo assunto
na sua própria cidade”, declarou

Leila Cunha, presidente do Conselho Municipal de Cultura

Novo encontro está agendado para dia 18
Ipatinga
– Sem respostas da PMI, a classe artística agendou um novo encontro para o dia 18 de junho. A presidente do Conselho Municipal de Cultura, Leila Aparecida da Cunha, informou que o consultor da UNESCO/Ministério da Cultura, Naudiney de Castro se comprometeu em retornar à cidade para a próxima reunião.
Para Leila, o primeiro encontro representou um saldo positivo para o Conselho. “Saímos muito fortalecidos dessa audiência, pois saímos com o apoio da Câmara Municipal de Ipatinga. E também com sugestão do Naudiney, vamos ampliar a discussão para os outros municípios. A ideia é que no próximo encontro ele volte e explique a importância do Sistema na tentativa de sensibilizar não só o município de Ipatinga, mas os outros ao redor também”, disse Leila.

Etapas
O objetivo do próximo encontro s erá divulgar a importância da adesão ao Sistema Nacional e implantar o Sistema Municipal de Cultura para todos os municípios do Colar Metropolitano do Vale do Aço. A partir da adesão, os municípios terão que cumprir algumas etapas.
A última etapa é a criação do Plano Municipal de Cultura, com ações previstas para os próximos 10 anos. Para chegar ao PMC, deverá ser realizada a Conferência Municipal de Cultura, com ampla participação popular. A partir das suas deliberações serão elaboradas as ações do Plano, que deve ser revisto a cada dois anos.

Resposta
No dia seguinte à audiência (ontem), o secretário de Cultura, Esporte e Lazer, Luís Henrique Alves, se reuniu com a presidente do Conselho Municipal de Cultura, Leila Aparecida da Cunha. Na ocasião, ela questionou o secretário quanto à demora na implantação do Sistema Municipal de Cultura e da libera� �ão da verba destinada aos projetos culturais da cidade.
Segundo Leila, Luís Henrique garantiu que na próxima segunda-feira (11) irá se pronunciar quanto aos questionamentos do Conselho. “Ele me disse que vai analisar a situação e se comprometeu a nos dar uma resposta na segunda-feira, depois do feriado”, relatou.

Fonte: Diário Popular, sábado 02/06/2012

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Em nossa casa inventaram à força


Em nossa casa inventaram à força
Que os sonhos não cantam

Aqui onde é o sul da América
Emperram-nos com impostos e armas

Até aos pássaros, dizem os acirrados
Cantem mas aí nas gaiolas

E se eles se banqueteiam, fazem festa
E nós, bagunça e bebedeira

Mas à noite o sono chega de graça
E o sangue é vermelho em todas as casas

Jamesson Buarque 
Militante do PCB em Goiás e Professor da UFG