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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

ME PERGUNTARAM SE EU ACREDITO EM REENCARNAÇÃO

Ontem me perguntaram se eu acredito em reencarnação
Eu respondi que sim
Por que não...

Se em Roma fui um ex-escravo
E lutei lado a lado com Espartacus
Na China imperial fui um iconoclasta
Nas caravelas, um desterrado por rebelião
Me revoltei contra a chibata
No balaio escondi faca
Me confederei em Equador...

Me neguei a auxiliar as bandeiras
Joguei água na fogueira da inquisição
Quebrei máquinas na Inglaterra
Em Paris delirei em comunhão
Adentrei pelas janelas o Palácio de Inverno
Me apaixonei por Olga antes de Prestes
Fui tenente, expedicionário e estivador...

Fui assassinado em Contagem, Ipatinga e Volta Redonda
Pela PM do capital
Perdi família em Carajás
Na Palestina morri criança
Em Kabul urinaram em mim enquanto gargalhavam
No Afeganistão resisti com o fuzil nas mãos
Em Guantánamo passei a acreditar no inferno...

Em muitas oportunidades fui apenas estatística
Em outras nem isso
Mas sempre, sempre ao lado dos oprimidos...

Ontem me perguntaram se eu acredito em reencarnação
Por que não...
Se não é a alma que viaja
Mas a luta passada
Que na luta contemporânea
Reencarna

Daniel Oliveira
Belo Horizonte

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

A DITADURA DA MEDIOCRIDADE (OU OS IDIOTAS ASSISTEM TV)

por gilson ribeiro

Todo o desenvolvimento humano se deu pela nossa capacidade de abstração, o que significa que a maior parte de nossa realidade está fora do nosso campo de visão ( ao contrário dos outros animais, para o melhor e/ou para o pior, sempre fomos muito além dos dados concretos da nossa realidade imediata), essa capacidade de abstração nos levou à criação da linguagem, através da qual se estrutura nosso pensamento; entre outras coisas, somos seres simbólicos e nos abstraímos, construímos sentidos, fazemos descobertas, absorvemos conhecimento - pensamos, enfim.
A partir do momento que qualquer imagem, esteja onde estiver, adentra nossa casa (tele-visão), deixamos nossa mente ser ocupada por imagens prontas, ou seja, que não são resultado da construção mental de sentido advinda da abstração - deixamos de pensar, enfim.
E de imaginar.

Limitando assim a nossa realidade apenas ao que se encontra circunscrito ao nosso campo de visão, desativamos nossa capacidade de abstração (fator principal na história de todo o desenvolvimento humano). Com isso nos tornamos mais vulneráveis à manipulação midiática, introjetando interesses deliberados externamente e confundindo-os com nosso desejo. Assim nos transformamos em meros consumidores, como que lobotomizados, zumbis.
Já somos sucessivas gerações predominantemente audiovisuais, conferindo conotação negativa ao termo "intelectual" para desqualificar qualquer debate mais aprofundado, reclamando de filmes "lentos", dizendo que preferimos coisas "light" em detrimento de coisas "complicadas", "xingando" de cult quem queira argumentar minimamente e faça menções a referências extra-midiáticas. Cada vez menos contemplativos e mais imediatistas. Adultos infantilizados num violento processo de idiotia que há muito tempo trocaram o pensar e o (tentar) compreender pelo (apenas) ver, assistir.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

VERGONHA


Como é triste e vergonhoso,
Renan Calheiros de volta ao Senado!
Falcatruas, corrupção e hipocrisia,
Foram legadas ao passado.


O povo assiste estarrecido,
Esse mar de desenfreada corrupção.
De onde deveria vir o exemplo para o país!
Causa-nos tristeza, revolta e profunda consternação.


A classe política não gosta e se revolta,
Quando são postos a prova e criticados.
Todavia, ante tanta safadeza e corrupção!
É quase impossível encontrar um político honrado.


Vergonha geral para o país,
Que legado fica para o nosso povo?!...
Passa-nos a impressão de inércia,
E que amanhã acontecerá tudo de novo.


Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá.
Envergonha-nos a classe política,
Em todo lugar que está.


Antônio Francisco Cândido
Funcionário Público do Teatro Municipal de Pouso Alegre - MG
Membro Correspondente da A.C.L.A.C. Arraial do Cabo - RJ.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

A greve do carnaval

Por Heitor Cesar Oliveira
Imagine um dia, talvez um sábado, ou mesmo uma segunda feira de carnaval. As ruas do Rio vazias. Nenhum bloco; nenhum cordão; nenhum baile; nenhum bêbado cantarolando alguma marchinha; nenhum casal brigando por ciúme; nenhum beijo despretensioso. Imaginem um carnaval que os foliões fizessem greve. Não fossem às ruas. Uma greve de carnaval.
As ruas ficariam desertas. Mais desertas que um início de madrugada de segunda feira. Os comerciantes, estes ficariam em pânicos: os donos dos bares ficariam loucos pensando na “fortuna” por eles gasta para encher seus estoques à espera de foliões e bêbados que não mais apareceriam. A polícia - essa coitada! – perderia grande parte de sua renda extra de extorsão dos foliões exagerados – presas fáceis desse tipo de investimento. Mas o que causaria isso? O que causaria uma greve de carnaval, unindo o folião, o bêbado, os comerciantes ambulantes, os diretores de blocos, os compositores de marchinhas, os sambistas com seus violões e pandeiros?
Esse quadro me foi desenhado por um sujeito que se dizia viajante do tempo, vindo de 2014, ano em que tal fato ocorrera. Eu o encontrara numa rua próxima à Praça XV andando perdido em meio aos blocos com suas camisas cheias de patrocínio e com suas letras que não diziam muito mais do que um montante de vogais.
Ao ser perguntado sobre tal fato, ele responderia direto, com uma certeza nítida: — A velha e conhecida de todos nós, a ganância, a ânsia enlouquecida por lucro, a mercantilização das relações humanas e seus derivados.
O carnaval havia se voltado para o turismo, para os de fora. Tudo invertido na cidade, preparada para servir de vitrine para os gringos.
Nada contra. Mas se eles são turistas, que aprendam a conviver com as coisas como estão, e não as modifiquem para melhor atender seus desejos de “caricatura de povo”, de "carnaval", de "mulatas", de "malandro sambista". E a Ordem, essa velha inimiga do povo – essa amante de mentes pequenas e positivistas, que tem medo do povo – impediu a brincadeira de ocorrer fora de seus padrões de “choques", intimidando o povo, acabando com os coretos e com a espontaneidade da brincadeira. Favorece – isso sim! – os donos de comércio e bares, que se fecharam nos seus salões com ar condicionado e com suas músicas ao vivo, com seus preços exagerados que afastam o folião autêntico, o brincalhão, o fanfarrão, o bêbado. Tudo fica perfeito para a “playboyzada” curtir com os cartões de créditos patrocinados pelos pais, os mesmos pais que assumiram a organização da festa, a nossa burra elite.
Foi assim, diante desse quadro que se organizou – ou melhor, que se desorganizou - a greve de sábado foi passando pelo domingo (recorde de presença das missas), pela segunda e, quase terminando na terça feira, foi entrando pela quarta. Logo quando todos achavam que a festa tinha ido para o buraco, quando todos consideravam o fim do carnaval carioca; a morte, tão decretada, do samba... Estourou a festa do povo!
Num passe de mágica, as ruas foram tomadas não para buscar os bares com seus donos falidos, mas para fazer a brincadeira de rua. Desfilar pela Avenida Rio Branco, pela Presidente Vargas, correndo, brincando, com bate-bola, mascarados, foliões, sambistas, diretores de blocos e claro, nosso amigo de sempre, o bêbado, com seu vasto repertório de sátiras, de marchinhas antigas e filosofias de botequim.
Foi o ano em que nenhum dinheiro caiu nos cofres da elite. Foi o ano do choque da desordem urbana, pois afinal quem quer manter essa ordem aí? Eu não...
Assim, meu amigo viajante do tempo entrou numa viela, dessas que tem um monte na cidade, e sumiu gritando: — Viva o povo trabalhador, brincalhão, alegre, folião e claro, combatente, valente e brigão, como deve mesmo ser.


Heitor Cesar Oliveira é historiador, membro do CC do PCB

Hasta Siempre - versão turca



Música Hasta Siempre ("Até Sempre", em português) em homenagem a Che Guevara em versão turca. No vídeo acima o turco Ahmet koç, ao som do baglama.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O "CONTROVERSO" PEDRO BIAL

Por Gilson Ribeiro*

Segundo a grande mídia* muitos críticos de Pedro Bial ficam desconcertados por ele ser um homem que faz filmes “exigentes sobre figuras que pensam o Brasil (Guimarães Rosa e Mautner)” e, ao mesmo tempo, apresentador do BBB. Mas esse suposto e alegado desconcerto não será parte de uma operação midiática para alimentar o mito Bial e lhe conferir a aura controversa de uma personalidade complexa?

Afinal haverá o que legitime intelectualmente o mestre de cerimônia de um espetáculo onde 15 ou 16 pessoas, expondo-se ao ridículo em situações de gosto enormemente duvidoso, trocam sua intimidade por dinheiro e fama?

O filme que ele fez a partir de Guimarães Rosa, por exemplo, é um descalabro de monta (principalmente na abordagem mais que equivocada do conto Famigerado). Só conseguiu fazê-lo porque a família do escritor entrou em raro consenso na liberação de direitos daquela vez. Talvez, por se tratar de uma vedete global, tenham acreditado na possibilidade de lucros vultosos. Quanto aos chamados poemas desse repórter que se tornou showman, eles devem ter uma insignificante fração de risibilidade a menos do que os de José Sarney. Já em seu opus magno literário, sobre Roberto Marinho, ao biografado é conferido a caracterização de  ser "revestido de aura sobre-humana" e ele chega a ser chamado até de "Deus". Ao longo do texto, desfilam ainda adjetivos como notável, sedutor, hipnótico, sábio etc. E, claro, o senhor Pedro Bial trata-o o livro todo como "doutor". E isso é tudo no que diz respeito ao lado "intelectualmente denso" do apresentador do BBB.

Num conto de Kafka chamado RELATÓRIO PARA UMA ACADEMIA, um macaco, que se transformou em humano, relata para uma platéia de acadêmicos e estudio­sos como gradativamente abandonou sua condição animal e passou a imitar os homens. Ao macaco humanizado restavam duas possibilidades: ir para o zoológico ou para o circo de variedades. Optou pela segunda. Hoje isso me lembra o Big Brother, cujo nome foi tirado de uma obra literária de intensa crítica política (1984), o que bem demonstra a capacidade ilimitada, por parte da gigantesca indústria de entretenimento, de engolir qualquer signo cultural e transformá-lo em produto comercial.

Esse contexto, de certa forma, explica um pouco como Pedro Bial pode “transitar” tanto no campo da gravidade dialética como no cenário de futilidades televisivas. Na verdade seu verdadeiro habitat é só esse cenário telemidiático.

A possibilidade de associar Pedro Bial ao universo intelectual, portanto, se dá na mesma ordem com que o programa lastimável da TV por ele apresentado tem por nome um termo retirado de renomada obra literária do século XX.

*http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,a-estrada-de-mautner--entrevista-com-pedro-bial,991176,0.htm#bb-md-noticia-tabs-1

 “Se existe algo que me irrita profundamente é o jeito sem cerimônias com que o mestre-de-cerimônia do Big Brother Brasil saúda aquela penca de jovens (...) confinados na casa montada pela TV Globo no Rio de Janeiro: "Boa noite, meus heróis!" (...) Reconheço, meio a contragosto, que todos os heróis são espelhos do mundo e da sociedade em que vivem. Os heróis do Bial espelham o mundo da futilidade, o hedonismo, o império dos sentidos humanos, a interação quase total entre os espaços público e privado. Meus heróis espelham o mundo dos ideais, dos valores humanos, do desprendimento e do amor à espécie humana. Os heróis de Bial lutam pelo prêmio financeiro e pelas conseqüências advindas de contratos pecuniários no mundo artístico. Meus heróis lutaram por aquilo em que acreditavam e sua recompensa era tão somente o sentimento de possuírem consciências tranqüilas, tanto que o mito do herói não foi por eles desfrutado: morreram em si para darem vida ao herói que neles subsistia.”

Washington Araujo


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Seres e prazeres

A você que acha que estudar é aborrecimento
Prazer eu sou o Conhecimento

A você que se acomoda com alegria
Prazer eu sou a Ousadia

A você que acredita em qualquer conto
Prazer eu sou o Contra-Ponto

A você que é consumista
Prazer eu sou o Ideal Classista

A você que obedece com covardia
Prazer eu sou a Rebeldia

A você que não acredita na mudança
Prazer eu sou a Esperança

Mas a você que acha que tudo tá “bão”
Muito prazer eu sou a Revolução

Patrick Osorio de Melo dos Santos

PCB SABARÁ MG

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

PCB lança concurso cultural para logomarca do Centro de Formação Astrojildo Pereira

O Partido Comunista Brasileiro acaba de lançar concurso cultural que visa escolher a logomarca do Centro de Formação Astrojildo Pereira, cuja sede foi adquirida no final de 2012. A participação é livre e as artes devem ser encaminhadas em formato digital para o e-mail  pcb@pcb.org.br .

"Todos podem participar: desenhistas, artistas plásticos, designers gráficos, militantes e amigos do Partido", afirmou o secretário-geral do PCB, Ivan Pinheiro.

A arte vencedora, que será escolhida pelo Secretariado Nacional do PCB, receberá ampla divulgação e seu autor será premiado com uma coleção de todas as publicações já editadas pela Fundação Dinarco Reis.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

“CAETANICES”, NUMA BELA HOMENAGEM



A quem ainda não ouviu, recomendo uma canção incluída no último disco do grande compositor, letrista e intérprete Caetano Veloso, intitulada "Um Comunista", na qual ele presta uma homenagem, tardia mas sincera, a Carlos Marighella. O link para o Youtube é este: 
Como é importante ouvir seguindo a letra, ela está no final deste artigo.
Formalmente, a música é de primeira qualidade. É uma espécie de litania (ladainha) não-religiosa, em que a repetição exaustiva do motivo melódico realça extraordinariamente os versos e sua intenção. Tal técnica já foi usada muitas outras vezes. Por exemplo, em “Pra não Dizer que não Falei de Flores”, de Geraldo Vandré (a conhecidíssima “Caminhando e Cantando ...” http://www.youtube.com/watch?v=onbRuVLPDmI ) e a menos conhecida “Working Class Hero” (Herói da Classe Operária http://www.youtube.com/watch?v=njG7p6CSbCU), do John Lennon pós Beatles.
Caetano, em “Um Comunista”, usa a técnica da ladainha, mas com muito mais riqueza melódica e harmônica.
É surpreendente – num sentido positivo – que Caetano tenha composto uma canção como esta. Porque ele jamais demonstrou simpatia para com os comunistas. No caso, a homenagem é a um revolucionário que admirava provavelmente a partir de uma posição romântica. Mas, de qualquer maneira, há trechos que emocionam a todos nós, pelo reconhecimento que faz de determinadas características nossas.
 Refiro-me aos seguintes trechos da letra: 
"... foi aprendendo a ler / olhando o mundo à volta / e prestando atenção / no que não estava à vista / assim nasce um comunista ..."; 
"... os comunistas guardavam sonhos / os comunistas / os comunistas ..." (trecho repetido várias vezes ao final da gravação);
"... sempre foi perseguido / nas minúcias das pistas / como são os comunistas ..."
"... vida sem utopia / não entendo que exista / assim fala um comunista ..."
Surpreende também que ele cite, como um dos que prenderam Marighella, o Antônio Carlos Magalhães – tendo em vista que sempre que teve oportunidade louvou o falecido senhor feudal da política baiana. Coisa que, por sinal, muitos outros faziam – inclusive o também falecido Jorge Amado. 
Mas como nada é perfeito, Caetano comete dois erros crassos de avaliação – salvo se não se tratar de erros de avaliação, e sim de uma espécie de compensação política pela homenagem a Marighella e pelas frases de reconhecimento aos comunistas. 
Um deles está contido no trecho "... as nações terror / que o comunismo urdia ...". Ora, que nações seriam essas? Não me consta que as nações em que o socialismo chegou a ser implantado exportassem "terrorismo". Com certeza, por sua perspectiva internacionalista e pelo dever de levá-la à prática, apoiavam de diversas maneiras as lutas de libertação de outros povos. Daí a chamá-las de "nações terror" vai a distância exata entre uma afirmação coerente politicamente e uma simples "caetanice" (no pior sentido).
O outro erro aparece em "... o mulato baiano já não obedecia / às ordens de interesse / que vinham de Moscou ...". Claro que ele aqui se refere à ruptura de Marighella com a posição adotada pelo PCB de luta de massas contra a Ditadura, e sua adesão à luta armada. Entretanto, a idéia de que a estratégia àquela altura proposta pelo PCB fosse mero seguidismo das posições de grande potência da URSS (que de fato existiam) é um equívoco grave.
A posição de recusa da luta armada era claramente majoritária no interior do PCB. Não só pela compreensão de que ela não tinha – por todos os motivos – a menor condição de ser vitoriosa, mas também porque fortaleceria indiretamente o regime, que facilmente isolaria e estigmatizaria os grupos armados. O que de fato ocorreu.
O afastamento de inúmeros bravos camaradas para o caminho da luta armada é questão que não está mais em causa, pois a História nos deu razão. Apenas, o Caetano incorreu nos velhos erros de considerar que não tínhamos vontade própria, de que éramos meros “teleguiados” de Moscou. Com o adendo de que nem em todos os casos a URSS foi contra a luta armada. Há vários exemplos de apoio militante dos soviéticos a lutas de libertação nacional e a levantamentos armados contra governos opressores.
Parece que o genial compositor, letrista e intérprete baiano "deu uma no cravo e outra na ferradura". Em sua nova canção, ele elogia os comunistas numa perspectiva idealista, mas os critica no concreto. Totalmente Caetano, afinal.
FELIPE OITICICA (RJ)
A letra da canção:

Um Comunista

(Caetano Veloso)

Um mulato baiano,
muito alto e mulato,
filho de um italiano
e de uma preta huça,
foi aprendendo a ler
olhando mundo à volta
e prestando atenção
no que não estava a vista;
assim nasce um comunista ...

Um mulato baiano
que morreu em São Paulo,
baleado por homens do poder militar,
nas feições que ganhou em solo americano,
a dita guerra fria,
Roma, França e Bahia ...
Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas! Os comunistas!

O mulato baiano, mini e manual
do guerrilheiro urbano que foi preso por Vargas,
depois por Magalhães,
por fim pelos milicos,
sempre foi perseguido nas minúcias das pistas,
como são os comunistas ...

Não que os seus inimigos
estivessem lutando
contra as nações terror
que o comunismo urdia,
mas por vãos interesses
de poder e dinheiro,
quase sempre por menos,
quase nunca por mais ...
Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas! Os comunistas!

O baiano morreu,
eu estava no exílio,
e mandei um recado:
– eu que tinha morrido
e que ele estava vivo,
mas ninguém entendia,
“vida sem utopia
não entendo que exista”:
assim fala um comunista ...

Porém, a raça humana
segue trágica, sempre,
indecodificável,
tédio, horror, maravilha ...
Ó, mulato baiano,
samba o reverencia,
muito embora não creia
em violência e guerrilha
tédio, horror e maravilha ...

Calçadões encardidos,
multidões apodrecem,
há um abismo entre homens
e homens, o horror ...
quem e como fará
com que a terra se acenda?
E desate seus nós,
discutindo-se Clara,
Iemanjá, Maria, Iara,
Iansã, Catijaçara?

O mulato baiano já não obedecia
às ordens de
 interesse  que vinham de Moscou,
era luta romântica
era luz e era treva,
feita de maravilha, de tédio e de horror ...
Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas! Os comunistas!
(várias vezes)





sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Venha participar das reuniões do Núcleo de Cultura Comunista no Brasil. Organização: UJC

Ainda não teve a oportunidade de participar de um núcleo para debater cultura, literatura, teatro, música, cinema...?

Venha participar das reuniões do Núcleo de Cultura Comunista no Brasil.

Nele temos debatido sobre a importante contribuição política da intervenção cultural na história de nosso país.

Seja bem vindo a nossas reuniões!


Nossa próxima reunião será:

Debate do texto “A POLÍTICA CULTURAL DOS COMUNISTAS” de CELSO FREDERICO

Parte II


7 DE DEZEMBRO ÀS 17:00

NO AUDITÓRIO DA PRAC (Pró-reitoria de Assuntos Comunitários)*

* Térreo da reitoria da UFPB



NÚCLEO

CULTURA, MEMÓRIA E TRADIÇÃO COMUNISTA NO BRASIL:

Literatura, Teatro, Cinema e Música

Prof. Romero Venâncio (UFS)

*Terceiro encontro: 7 de Dezembro, 17:00h. Auditório da PRAC-UFPB

*A política cultural dos comunistas: Parte II (Celso Frederico)


ESQUEMA:

- Lukács, Gramsci: as novas referências teóricas dos anos 70 entre os comunistas

- Estado, Indústria cultural, ditadura e hegemonia no Brasil: o inicio da derrota de uma politica cultural emancipatória no Brasil

- Cultura, mercado, pós-modernismo no Brasil: a rendição dos "intelectuais"


BIBLIOGRAFIA:

COUTINHO, Carlos Nelson. A recepção de Gramsci no Brasil. In: Gramsci: um estudo sobre seu pensamento político. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999.

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. Literatura. Folclore. Gramática. Vol. 06. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2002.

TERTULIAN, Nicolas. Georg Lukács: etapas de seu pensamento estético. São Paulo: Editora UNESP, 2008.


FILMES:

- O Desafio (Paulo Cesar Sarraceni)

- Cronicamente inviável (Sérgio Bianqui)

- Febre do Rato (Cláudio Assis)

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Comemoração do centenário de Mário Lago na Praça Benedito Calixto

"Eu não sou saudosista. Não fico lamentando: ’ah, o meu tempo’. Meu tempo é hoje. Não fico na calçada vendo o desfile passar. Eu vou junto".

Lendo esta frase podemos perceber a pessoa inquieta que existia em Mário Lago. Ele nasceu no dia 26 de novembro de 1911, em uma casa da Rua do Resende, na Lapa, Rio de Janeiro. A mãe, Francisca Maria Vicência Croccia do Lago, acalentava o sonho de batizá-lo com um nome imponente: Mário de Pádua Jovita Correa do Lago. Mas nasceu tão esmirradinho que o pai, o maestro e violinista Antonio Lago, achou melhor encurtar, pensando que seria muito nome para um bebê tão pequeno; e, quem sabe? O menino, que não parecia ter boa saúde, nem vingasse: - Bota só Mário Lago; e olhe lá! – falou para o tabelião. Com este nome curto e direto, Mário vingou e viveu 90 anos muito bem vividos, influenciando e se deixando influenciar pelo Século XX. Sonhava em chegar aos 100 anos; na memória popular, talvez chegue aos 200, 300, sabe-se lá.

Para comemorar o centenário de Mário Lago, a família e amigos criaram o ano do centenário dele com o título: “100 anos de Mário Lago, o homem do Século XX – Memória em Movimento” que começou em 26 de novembro de 2011 saiba mais: www.mariolago.com.br. Vários eventos estão sendo realizados pela família e amigos, entre eles, lançamento de CD, produção de um documentário, shows, lançamento de selo, livros e medalha comemorativa e outras atividades.

Convidados por seus filhos Mário Lago Filho e Graça Lago, Edson Lima do projeto O Autor na Praça em parceria com Emerson Boy Batista do Estúdio todos os Dias são Bemóis, estão organizando um show dentro das celebrações do centenário de Mário Lago em São Paulo. Será no dia 9 de dezembro, domingo, das 14 às 19h, na Praça Benedito Calixto, no bairro de Pinheiros. Mário Lago Filho destaca que esta comemoração na Praça Benedito Calixto, tem um valor muito especial para a família e será um reencontro na casa onde moraram. O evento faz parte da celebração dos 25 anos da Feira de Arte, Cultura e Lazer da Praça Benedito Calixto.

Homenagem ao centenário do ator, compositor, escritor, poeta, boêmio e ativista político Mário Lago, na Praça Benedito Calixto, local em que ele morou no final na década de 1940, onde hoje se encontra instalado o restaurante Consulado Mineiro.

O evento será realizado na praça, das 14h às 19h do domingo 09/12/2012 e tem a seguinte programação:
  • Abertura com apresentação de novas edições dos livros de memórias “Na Rolança do tempo” e “Bagaço de beira estrada”, relançados pela Editora José Olympio (Grupo Editorial Record), contando com a presença de filhos e netos do homenageado, num almoço comemorativo no Restaurante Consulado Mineiro - casa onde moraram em 1949 - onde será inaugurada uma placa com o nome "Sala Mário Lago”.
  • Show de lançamento dos CDs “Folias do Lago” (contendo marchinhas de Mário Lago) e canções inéditas e poemas musicados (com músicas inéditas e novas parcerias com Lenine, Isabela Taviani, Frejat, Joyce Moreno, Arlindo Cruz, Pedro Luiz, Arnaldo Antunes, Dori Caymmi e Geraldo Azevedo, entre outros), com a participação do cantor Chamon  e a cantora Jordana, acompanhados dos músicos Esteban Pascual (Sax), Marquinho Mendonça (Cordas), Gerson Conceição (Baixo), Fabiano de castro (Teclados) e Dudu Marques (Bateria). O Show tem a Direção Geral de Mário Lago Filho e Produção musical Emerson Boy.
  • Entrega de uma placa para a família de Mário Lago com o texto: “Num momento em que as tradições estão sendo postas de lado, é compensador que haja pessoas que se preocupem com a preservação de uma praça. A praça é do povo, já dizia Castro Alves. E a razão está sempre com o povo. Eu morei aqui em 1949, em frente havia um Parque Infantil. Minha paixão pela Benedito Calixto vem desse tempo. Obrigado pelo cuidado com a praça”, escrito por ele em 1998, quando visitava a praça e a casa onde morou em 1949. A placa será entregue pela Associação dos Amigos da Praça Benedito Calixto, que mantém o manuscrito num quadro em sua sede.
  • Durante o evento o artista do graffiti e muralista Eduardo Kobra, vai produzir uma imagem do Mário Lago, no muro da sede da Associação dos Amigos da Praça Benedito Calixto.
  • Também contaremos com a participação especial do ator e produtor do “Letras em CenaClovys Torres e do jornalista e escritor Assis Ângelo que participou do programa Roda Viva com Mário Lago e fez uma das últimas entrevistas com o Mário Lago, em seu programa “São Paulo Capital Nordeste”, na Rádio Capital, o programa comemorava os 90 anos do grande mestre e foi ao ar em 24/11/2001.
  • Encerramento com a Escola de Samba Mancha Verde, que em 2013 desfilará no carnaval paulista com o enredo “Mário Lago, um homem do século XX”. Vejam informações sobre a escola e ouçam o samba enredo: www.manchaverde.com.br/site.htm.
SERVIÇO:

Festa/show pelo centenário de nascimento de Mário Lago na Praça Benedito Calixto

Dia 9 de dezembro de 2012, domingo, das 14 às 19h. Grátis
Praça Benedito Calixto – Pinheiros

Informações: 11 3739 0208 / 95030 5577 (Edson Lima) e 99126 5188 (Emerson Boy).

Produção e realização: Família de Mario Lago, O Autor na Praça (Edson Lima), Emerson Boy e Henrique Barros.

Assessoria de Comunicação e imprensa: Edson Lima – 3739 0208 – oanp@uol.com.br.

Apoios: Espaço Plínio Marcos, Estúdio Todos os Dias são Bemóis, Associação dos Amigos da Praça Benedito Calixto, Liga dos Raros, Vereador Goulart, “O Samba pede passagem” (Programa apresentado por Moisés da Rocha na Rádio USP e Rádio Capital), Restaurante Consulado Mineiro, Restaurante São Benedito, Consulado Mineiro da Cônego, Bar e Restaurante Genial, Genésio Pastas e Chopp, Bar e Restaurante Bambu, Planeta’s, Luna de Capri, Pirajá – A esquina Carioca em São Paulo e AEUSP - Associação dos Educadores da USP.


Mário Lago - Ator, produtor, diretor, compositor, radialista, escritor, poeta, autor de teatro, cinema, rádio e TV, frasista, militante sindical, ativista do PCB e boêmio, Mário Lago foi muitos. Resumia assim sua história: "Eu não sou saudosista. Não fico lamentando: ’ah, o meu tempo’. Meu tempo é hoje." Nasceu na histórica Rua do Resende, no Rio de Janeiro, em 26 de novembro de 1911, filho único de Antônio Lago, um jovem compositor, maestro e violinista de sucesso, de uma família de músicos; e de Francisca Maria Vicência Croccia Lago, jovem descendente de calabreses, oriunda também de família de músicos. Foi criado no bairro da Lapa, no Rio. Formou-se em Direito, mas jamais exerceu a profissão. Chegou a trabalhar como jornalista e estatístico, mas por pouco tempo. Desde criança, a arte exerceu absoluto fascínio sobre ele; uma atração igualada apenas pela política, pela boemia e pela família. A todas elas se dedicou com igual empenho e paixão. Falecido em 30 de maio de 2002, Mario Lago foi casado por quase 50 anos com Zeli Cordeiro Lago. O ator deixou cinco filhos (Vanda, Antonio Henrique, Graça, Luiz Carlos – falecido em 2010 – e Mário).

O Autor - A estréia de Mário Lago aconteceu em março de 33, como autor teatral. A maior parte de suas peças foi escrita nas décadas de 40 e de 50, para o chamado Teatro de Revista e para atores como Araci Côrtes, Elza Gomes, André Villon, Oscarito e Armando Nascimento. No início dos anos 1970, escreveu a sua última peça teatral: "Foru Quatro Tiradentes na Conjuração Baiana", sobre a Revolução dos Alfaiates, na Bahia. Proibida pela Censura, teve uma única leitura pública, com participação do próprio Mário, ao lado dos atores Oswaldo Loureiro, Wanda Lacerda, Francisco Milani e Milton Gonçalves, entre outros. Também escreveu roteiros e argumentos para o cinema, entre eles, o do filme Banana da Terra (1939), em parceria com João de Barro, o Braguinha.
O Compositor - Na música, estreou em 1936, com a marchinha Menina, eu sei de uma coisa, primeira parceria com Custódio Mesquita. O sucesso viria dois anos depois, com Nada além, da mesma dupla, na gravação de Orlando Silva. Sozinho, ou em parceria com nomes como Ataulfo Alves, Chocolate, Roberto Roberti, Roberto Martins, Benedito Lacerda, Elton Medeiros e João Nogueira, Mário compôs sucessos como Amélia, Atire a primeira pedra, Aurora, Dá-me tuas mãos, Enquanto houver saudade, Fracasso, Será e Número um.
O Ator - Em 1942, estreou como ator de teatro, onde criou personagens de grande repercussão, como o Aprígio, no clássico O Beijo no asfalto, de Nélson Rodrigues. No cinema, atuou em alguns dos principais filmes brasileiros, como O Padre e a Moça, de Joaquim Pedro de Andrade, Os Herdeiros, de Cacá Diegues, O Bravo guerreiro, de Gustavo Dahl, e Terra em transe, de Glauber Rocha. A popularização do ator veio com as novelas, a partir de 1966, destacando-se suas atuações em O Casarão, de Lauro César Muniz, Nina, de Walter George Durst, e Dancing Days, de Gilberto Braga, trabalhos que lhe renderam dois prêmios de Melhor Ator da Associação Paulista de Críticos de Artes e um Golfinho de Ouro. Seus últimos papéis na TV foram a minissérie Hilda Furacão (1998), de Glória Perez, interpretando o velho boêmio Olavo; o especial Enquanto a Noite não Chega, em dezembro de 2000, e uma participação especial na novela O Clone, de Glória Perez, revivendo o personagem Dr. Molina, de Barriga de Aluguel, da mesma autora. Mário Lago gravou a novela no final de 2001, seis meses antes de falecer.
O Radialista - No rádio, foi ator, autor de novelas, produtor e diretor. Seu trabalho mais conhecido foi a série Presídio de Mulheres, que escreveu para a Rádio Nacional e que liderou a audiência da emissora durante cinco anos seguidos. Em 1964, com o golpe militar, Mário Lago foi demitido da Nacional.
O Escritor – Autor de onze livros, Mário estreou com a coletânea de poemas políticos “O Povo Escreve a História nas Paredes”. Poeta e escritor - Sua produção literária inclui os títulos “Chico Nunes das Alagoas”, “Na Rolança do Tempo”, “Bagaço de Beira Estrada”, “Rabo da Noite”, “Meia Porção de Sarapatel”, “Manuscrito do Heróico Empregadinho de Bordel”, “Segredos de Família” e o infantil “Monstrinho Medonhento”, seu maior sucesso editorial. Deixou um livro inconcluso, dedicado às memórias das boas “molecagens” que praticou ao longo da vida. Leia trechos de livro inédito de Mário Lago: www.mariolago.com.br/livro.php.
O Militante - Desde jovem, Mário se dividiria entre o trabalho artístico, uma intensa atividade política e a boemia. A participação política lhe rendeu seis prisões, a primeira em janeiro de 1932, e a demissão da Rádio Nacional, em 1964, o que resultou em quase um ano de desemprego. Na época do golpe militar, era procurador do Sindicato dos Radialistas do Rio de Janeiro, um dos mais combativos do país. Mário participou de várias campanhas em defesa dos direitos humanos e do patrimônio do país, como O Petróleo é Nosso, Contra as Armas Nucleares, Campanha da Paz (durante a II Guerra), Anistia (décadas de 40 e 70), Contra a Censura, Diretas Já, Pela Condenação dos Assassinos de Chico Mendes etc. No século XX, não há registro de movimento político do gênero que não tenha tido o apoio e a participação direta de Mário Lago. Curiosamente, jamais foi filiado a qualquer partido. A partir de 1989, passou a dar apoio e militância ao PT, mas sem vínculo de filiação.
Para outras informações sobre Mário Lago, recomendamos uma visita ao site: www.mariolago.com.br.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

UJC/CEARÁ: ZINES SOBRE VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER

Camaradas, socializando com vcs um dos zines que fizemos aqui no Ceará com a temática do enfrentamento à violencia contra a mulher, abraços!
Natan Junior

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Reféns

G erando
E nsino
O peracional
G lobal.
R adical ou
A lienador.
F azendo
I ntrodução a

A rte da vida.

E nsinar...

H óspede
I nspirador e
S upremo da
T utoria
O rganizacional
R ealizada pela escola
I dealizadora de ideias
A queima roupa capitalista.
 
Ana Carolina Ferreira
Belo Horizonte/MG
 

terça-feira, 20 de novembro de 2012

SOU NEGRO

SOU NEGRO 

A Dione Silva 

Sou Negro
meus avós foram queimados
pelo sol da África
minh'alma recebeu o batismo dos tambores atabaques, gonguês e agogôs

Contaram-me que meus avós
vieram de Loanda
como mercadoria de baixo preço plantaram cana pro senhor do engenho novo
e fundaram o primeiro Maracatu.

Depois meu avô brigou como um danado nas terras de Zumbi
Era valente como quê
Na capoeira ou na faca
escreveu não leu
o pau comeu
Não foi um pai João
humilde e manso

Mesmo vovó não foi de brincadeira
Na guerra dos Malês
ela se destacou

Na minh'alma ficou
o samba
o batuque
o bamboleio
e o desejo de libertação...


SOLANO TRINDADE

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O fuá no forró

Eu vou contar pra você
Uma estória não bonita
Feita com muita escrita
Num papel bem branquinho,
Talvez não diga tudinho,
Talvez tudinho eu lhe diga,
Sem lhe dizer muita intriga
Vou dizer devagarzinho.

Fui pro um forró da bexiga,
Com dois cornos e uma bicha
Não sabia que ela tinha rixa
Com a Déa de Mané Vitor
Fui chegando ouvi o grito
Da tal Déa boca surja
Eita olho de coruja!
Nada nela era bonito.

De feiura de lambuja
Parecendo o próprio cão.
Veio de tamanco na mão
Tascar na bicha Mere Blus,
Uma “mulher” que faz jus
Ao prêmio da baixaria,
Puxou a navalha fria,
Na cara dela fez cruz.

O sangue fino desceu
Daquele corpo de creia,
Daquela cara plebeia,
Naquele ser tão malfeito
Que se achava no direito
De maltratar uma “mulher”
Mesmo ela sendo o que é,
Mulher de pouco conceito.

A turma se aproximou
Das tas mal-afeiçoadas
Separando tas danadas
Que queria confusão
No finzinho um três oitão
Surgiu naquele fuá
Foi gente a pinotar
Dando aquele carreirão.

O tiro era sim, de agá
Veio da boca de um bebinho
Que tava no bar sozinho
Se chegando como encosto,
Bebendo com tanto gosto
Uma cachaça da Pitú
Juntinho de um imbu
Que ele fez de tira-gosto.

Foi nego feito aratu
Andando pra trás, pra frente
Com um bafo de aguardente,
Correndo com todo gás.
Foi mulher assim fugaz
E sem saber o que foi
Exibindo cada oi,
Gritando xô satanás!

Pareciam lobisomens,
Os cornos que foi comigo
Na igrejinha pediu abrigo,
O pastor não deu de graça
Para espantar a desgraça
Juntou nossas carteiras
E nem por brincadeira
De honesto se desfaça.

Ninguém a localizou
Naquele simples recinto,
A culpada por extinto
Daquele fuá todinho.
Quando os tiras ligeirinhos
Chegaram naquele forró
Pra desatar aquele nó
Com cassetetes novinhos.

Fizeram abaixar o pó
Baixando a lenha no povo
Sem perguntar de novo
Quem era mesmo o culpado.
Foi nego pra todo lado
De novo correndo veloz,
Foi nego perdendo a voz
Gritando eu tô lascado.

Menino puxando o cós
Da mãe carente de tino,
Nem o bêbado Rufino
Parou os endiabrados
Aquele do oitão danado,
Da primeira confusão
Que disparou de bocão
As balas por todo lado.

Um cara sem anelão,
De bigode de vassoura
Disse assim a cantora,
Que cantava do outro lado:
- Quem foi esse condenado,
Esse triste matador?
- Foi um bebinho seu doutor,
O tiro foi inventado!

Essa bagaceira de briga,
Do forró que fui curtir
Poucos viram o seu fim
Entre eles eu, confesso.
Fiquei assim meio disperso
Procurando a alma no corpo
Levado assim pelo o povo,
Que por Deus, não é perverso.

Salvou-me, por Deus, de novo,
Da bofetada de um tira
Que debulhava mentira
Da verdade tão plangente
Que ardia aqui na gente
No toitice aperreado,
Naquele dia desgraçado,
De condenado e indigente.

O forrozeiro e o seu amor
Saíram bem de fininho
Pra não espantar tudinho
Que estava na sua frente,
O triangueiro que era crente
Danou-se a orar sem parar,
O zabumbeiro Itamar
Fugiu também com a gente.

No caminho encheu de ar
O peito e com olho roxo;
Disse assim: eu não sou frouxo
Vou voltar pra confusão
Lá deixei o meu irmão,
Dois primos e uma tia.
Eu não sou de valentia,
Mas covarde não sou não!

Foi ligeiro a delegacia,
Pedir ajuda ao delegado
E o tira tão acanhado
Disse assim: o que é amigo?
O que tu queres comigo?
- Nada que não possas fazer
Disse o zabumbeiro Quilê
Um afro-descendente antigo.

E eu assim sem vontade alguma
Fui com ele em passos longos
Parecendo um camundongo,
De medo, mas decidido
Rever aqueles bandidos
De fardas e três oitão
Nas sintas e outros na mão
E na mente nada contido.

Chegando no carreirão,
Naquele forró bendito,
Palco daquele conflito
De onde só tem errados
Tais brabos inveterados,
Todos na mesma panela
Fazedores desta trela
Que por alguém foi inventado.

Pus os olhos na janela
Pra ver se via algo macabro
Quase de choro me acabo
Ao ver a meiga Mere Blus
Deitada com os seios nus
Pra me, numa morte profunda
Ainda mostrado a bunda
Tão seminua, a meia luz.

Eu tive a sorte invertida
Naquela cena de horror
O delegado assim notou
Que eu estava sentindo
Deixou-me no canto curtindo
A dor, mas dor que sentir
Ao ver Mere Blus no fim
Como quem está dormindo.

Perguntei ao povo dali:
Quem fez tal bagaceira?
Um mendigo sem asneira
Me disse: foi ninguém não,
Foi ela que deu com a mão
Na ponta de um chifre brabo
De um homem, pobre-diabo
Que vazou pelo o oitão.

Ela que é metida a braba,
Uma mulher meia Sansão,
Mas fraquejou o coração
Quando viu o sangue no pique.
Ela deu um estrimilique
E caiu aí no solo frio
E aí mesmo ela dormiu
Parecendo piquenique.

Disse eu: puta-que-pariu!
Que mico paguei agora
Por causa dessa caipora
Que agora não tenho dó.
Eu disse assim tão só:
Acorda frango maluco
Antes que pegue o trabuco
E enfie no teu fiofó!

Eu sou de Pernambuco
E disso não me envergonho,
Fazedor de um bom sonho
Pra todos tirar o chapéu
Pra a arte que pus no papel
Feito só para alegrar
A quem gosta de viajar
Nas estórias de cordel.
 
Gilson Silva (15/03/2011)
 

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

GIRO IMÓVEL



I

Girando no teto
sem jamais romper o tédio.

Girando no teto
hélices de gumes cegos.

A reunião prossegue.

II

A mão do relator
busca, fiel, retratar
infinda valsa verbal.
O tédio, no entanto,
não entra na ata.

No teto os gumes prosseguem.

III

De dentro duma agenda
quase me sorri
dos relógios flácidos de Dali
a figura reduzida.

Gilson Ribeiro

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Nossa causa.

Não se trata de brados
ou sonhos dourados.
É frio como um logro
e quente como fogo.

É um faça, uma constatação.
É a mão estendida na escuridão,
em uma floresta de facas afiadas.

Alimenta-se de raiz
e rega a flor mais vermelha,
destruindo o nada dado por escravos
e devolvendo tudo para o trabalho.

Robson Luiz Ceron (2012).

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

"O Rato"

E aí Dr. Ratazana! Lembra de Mim? Eu fui o seu aluno na historia... Aquele que sacava muito de arqueologia, mas que não era bom o suficiente para ser historiador...Me formei...E você? Como vai?

Oi Dr. ratazana, sou eu! Aqui nova
mente... Aquele que saca muito de história, mas que não é bom o suficiente para ser filósofo –mesmo, já o sendo...

Oi Dr. ratazana, sinto muito pelo tiro que levou, sinto realmente, mas não pelo único tiro...E sim, por ter sido só um! Pois deveria ter sido 17!

Mandarei o seu assecla, ou o seu correligionário como falso leviano à espera de uma vaga, levar uma flor...Mas é a minha e não a dele!

A flor, ela será de Lótus! Aquela que abrolha em meio aos cadáveres, carniças, corcovas e moribundos!

Mandarei colocá-la em meio ao seu ser jazido! Na sua sepultura daninha! Repleta de intrigas, de sonhos quebrados e de desesperança.

Pois eu -e os outros do mundo em chamas-, somos a nova Ordem-Mundial e não o que você disse ser, ou o The Economist e a TV...

Você é o que ficou para trás: está enterrado, sepultado, chafurdou na própria bile e foi digerido por ela, é gordura pra queimar.

Tu foi o que há mais de pútrido, mais deletério (em vida), hoje é só o miasma do cadáver, semi-morto, na mente de outro, o abandono! Que mereceu apodrecer vivo e felizmente morreu! Tragicamente, hilariamente, patéticamente!

Você foi o suplantado, o suprimido , eu limpei (e limpo eternalmente ) a minha bunda com o seu curriculum Lattes, quando cago na Avenida Brasil. Seu filho da puta!...Você é um execrável, Dr.

Mereceu o paredão, sem perdão! Sem reflexão, sem episteme, sem formalidades, sem cerimônias, sem humanismo. Ué, você não é o inumano?

Você é o encosto do espírito, aquele que inexiste!...Pois aqui na imanência, não há espíritos! Agora, na hora da débâcle, na hora da morte, seu filho da puta...Você crê em espíritos?...Não é o que seus livros dizem, Dr!

- (Felipe Lustosa)

Manoel Preto

Manoel Preto

Dedicado a Washington Luis Barcelos, que me soprou essa história

Na última noite, apenas estremecia de leve e,
aos poucos, se aquietou. Cansado pela longa
vigília,cerrei os olhos e adormeci. Ao acordar,
percebi que uma coisa se transformara no meus
braços. No meu colo estava uma criança encardida,
sem dentes. Morta.

 
Teleco, o coelhinho
Murilo Rubião

 
 
No caminho de Curral del Rey para Sabará, havia uma mata, e nesta mata, uma pequena estrada, calçada em alguns pontos íngremes, que era para estabilizar as carruagens para não fazer chacoalhar as damas da corte. Neste ponto, onde o caminho se curvava, os escravos velhos e doentes eram abandonados a própria sorte. Foi esse o caso de Manoel Preto, ex-príncipe de um reino africano, encarregado de encher as moringas da casa grande, e que completará 60 anos, idade bastante avançada entre os escravos.
Na ida da comitiva, Manoel Preto foi abandonado, deixado em uma pedra, sentado, esperando a morte. Na volta do comboio, outros escravos se encarregariam de enterrar o seu defunto corpo.
Mas Manoel Preto não quis assim. Sentar? Esperar a morte chegar? Não, definitivamente não! Havia cruzado todo um oceano. Seus companheiros de exílio, jogados ao mar um a um, formavam um colar de pérolas negras. Viu mulheres parirem novos lucros, e crianças crescerem nos convés. Em terra, trabalhou em lavoura, engenho, esqueceu sua língua, aprendeu outra. Teve febre, pensou na mãe, no pai, no reino que não chegou a herdar, e que provavelmente nem existia mais. Morrer assim? Mas que não! Se a morte lhe quer, que se ponha a caminhar.
E Manoel Preto caminhou. Entrou trilha, deitou mato, pendurou em pedra. Sentia-se mais forte. Ninguém a lhe dizer “faça isso, pegue aquilo, carregue tudo para acolá”. Era apenas ele e o verde a lhe abraçar.
Foi quando se deparou com uma cobra: “o pai quer que eu o ajude, lhe devorando?”. Com a cabeça fez que não. E continuou a andar.
Desta vez um carcará, pousando ao seu lado, lhe cochichou: “se o pai quer, eu lhe como. Ajudo pai, e pai me ajuda”. Mas Manoel Preto fez que não, e soprou pra longe o bico da insidiosa.
E então uma paca, não uma simples paca, mas a rainha de tudo que respira, e é bom, confeitou no seu ouvido: “pai não morre, pai é pedaço de nós. Se pai quiser, comigo tem morada”. Manoel Preto sorriu, como nunca o fazia. Se curvou. Seus pés trincaram. Seus olhos se puseram negros como a noite. E se foi em cavalgada.

Daniel Oliveira
Sabará/MG
07 de Novembro de 2012

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

NEGRA! - NEGRA! - NEGRA!

Sou negra e você não vê!
Sabe por quê? Porque você é racista!
...
Está procurando na cor da minha pele
a cor que está na minha cultura,
na minha história, nas minhas raízes.

...

Os meus deuses são negros
são forças da natureza
seres paradoxais

Sou do samba,
sou do rap,
sou do soul,
sou negra!

Sou negra e você não vê!
E assim você permite que eu estude
em lugares onde não encontro os meus,
que eu consiga empregos diferentes
dos que conseguem os meus...

Mas você não sabe...Eu sou neguinha! E você, não vê!

Carolina Lopes

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Sangue


Meu sangue é o sangue dos homens
Dos trabalhadores
Dos operários
Do proletariado

Meu sangue é o sangue dos explorados
Daqueles que nunca abaixam a cabeça
Dos que vivem cativos e espoliados
Dos honestos, dos revoltados

Meu sangue é o sangue que quer justiça
Dos que não aguentam a injustiça e a opressão
Dos seres de bem
De todos os do BEM

Meu sangue enche os rios
As matas
Os mares
As montanhas
As ruas
As lojas
As fábricas

Mas um dia será um turbilhão
Um tsunami de justiça
De igualdade
Da verdade
Um sangue
Só um sangue
O sangue dos homens
O sangue da terra.


AC 31/03/2011
Afonso Costa é da direção estadual do PCB no Rio de Janeiro e jornalista com quase 35 anos de profissão. Além de matérias e artigos também escreve contos, crônicas e poesias, algo para aliviar a mente, para fazer a luta política no campo das letras.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

NÚCLEO DE CULTURA E MEMÓRIA COMUNISTA NO BRASIL

Temos nos reunido com o intuito de resgatar o potencial transformador da intervenção cultural.
Como disse o camarada Paulo Leminski “Na luta de classes todas as armas são boas: pedras, noites e Poemas”.
Nesse sentido nos colocamos o desafio de estudar, compreender e por em prática a importante contribuição teórico-prática nesse campo dos comunistas
no Brasil, marcadamente durante as décadas de 20 e 80.
Ao nos debruçarmos sobre essas experiências na literatura, teatro, cinema e música, pretendemos potencializar nossas intervenções na realidade sempre no intuito de alcançar a emancipação humana através da transformação radical da sociedade em que vivemos!
Nosso próximo encontro será:

A POLITICA CULTURAL DOS COMUNISTAS – PARTE I
Texto de Celso Frederico – em anexo

DIA 16 DE NOVEMBRO
ÀS 17:00
AUDITORIO DA PRO-REITORIA DE ASSUNTOS COMUNITÁRIOS (PRAC) – UFPB (Entrando no subsolo da reitoria pelo estacionamento)
Para isso contaremos com a riquíssima contribuição do camarada Romero Venâncio, professor de filosofia da Universidade Federal de Sergipe (UFS)!


Quer receber por e-mail as informações, atividades, programação do Núcleo de cultura? CADASTRE-SE NO LINK: https://docs.google.com/spreadsheet/viewform?formkey=dE1PZVo0WXpVU183bVYxZlNQQ3Bra2c6MQ
(se quiser participar dos espaços é muito importante o cadastro para facilitar a nossa comunicação)

PROGRAMAÇÃO COMPLETA NO LINK: https://docs.google.com/document/d/1IYgJFJqf1eEq7aCiTkVOx5TVqgvkkONZ2sh19bj1jAs/edit

Contatos:
ujcparaiba@gmail.com
http://www.facebook.com/ujc.pb
www.ujc.org.br
Pablo - (83) 9973.1027 (TIM) / 8809.0422 (OI)
Patrícia - (83) 9645.1957 (TIM) / 8847.3457 (OI)
Romero - (83) 99501473 (TIM)

Para Neide Alves Santos, única mulher do PCB, morta pela ditadura militar

Só vos peço uma coisa: se sobreviverdes a esta época, não vos esqueçais!

Não vos esqueçais nem dos bons, nem dos maus.

Juntai com paciência as testemunhas daqueles que tombaram por eles e por vós.

Um belo dia, hoje será o passado, e falarão numa grande época
e nos heróis anônimos que criaram a história.

Gostaria que todo mundo soubesse que não há heróis anônimos.


Eles eram pessoas, e tinham nomes, tinham rostos, desejos e esperanças,
e a dor do último entre os últimos não era menor do que a dor do primeiro,
cujo nome há de ficar.

Queria que todos esses vos fossem tão próximos como pessoas que tivésseis

Conhecido como membros da sua família, como vós mesmos.

Julius Fuchik

Para Neide Alves Santos, única mulher do PCB, morta pela ditadura militar

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

SAMBA DA NOVA CLASSE MÉDIA

SAMBA DA NOVA CLASSE MÉDIA
dedicado a Bezerra da Silva

Disseram que eu virei classe média
Que muitos degraus da pirâmide galguei
E que agora eu subi de vida
Que eu tenho casa e carro
E ganho mais de mil por mês

Mas veja o senhor a contradição
Se esqueceram de avisar o patrão
Porque o salário é o mesmo miserê
Nunca tive dinheiro que dê
Pra terminar o mês sem pedir
Fiado, emprestado ou retribuição
Carro eu só vejo quando desvio
Ou de dentro de uma lotação
A casa é minha mesmo
Mas em cada quarto mora um irmão

Não vi melhoria de vida
Vi maquiada a situação
E o fosso que nos separa
Parece que mora mais de mil “dragão”
Mas a vida é assim mesmo
Tá tudo certo, tem problema não
Quando chego em casa cansado
E ligo a televisão
O bacana com cara de doutor
Me deixa a par da situação

Disseram que eu virei classe média...

DANIEL OLIVEIRA
BELO HORIZONTE/MG
25 DE OUT 2012