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segunda-feira, 1 de abril de 2013

O Segundo Réquiem para Gullar


O poeta de esquerda "arrependido": um prato cheio para o monopólio midiático reacionário de "tempos democráticos"


O último poema de O Vil Metal chama-se Réquiem para Gullar[1]. No ano passado,  após mais de meio século, Ferreira Gullar fez publicar seu segundo réquiem. Enquanto no primeiro exercia o seu ofício, neste último a poesia sai de cena. Aquele que já se definiu “poeta político” (Omissão, B) agora renega a si mesmo, abandona a esperança e a luta, capitula e trai.
Para que não pensem que exageramos, transcrevemos abaixo os principais trechos dessa fúnebre (não) poesia de Gullar. Pretendemos, em seguida, analisar cada um desses pontos à luz, principalmente, da própria poesia de Gullar e, assim, completar seu obituário. Nesses dias de trocas de papas, podemos voltar ao velho latim e dizer: Requiescat in pace!
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Entrevista de Ferreira Gullar nas páginas amarelas da Veja, em 26.09.2012, piores trechos:
O capitalismo é forte porque é instintivo. ... O capitalismo não é uma teoria. Ele nasceu da necessidade real da sociedade e dos instintos do ser humano. Por isso ele é invencível.
A força que torna o capitalismo invencível vem dessa origem natural indiscutível. Agora mesmo, enquanto falamos, há milhões de pessoas inventando maneiras novas de ganhar dinheiro.
O capitalismo é uma fatalidade, não tem saída. Ele produz desigualdade e exploração. A natureza é injusta. A justiça é uma invenção humana. Um nasce inteligente e o outro burro. Um nasce inteligente, o outro aleijado. Quem quer corrigir essa injustiça somos nós. A capacidade criativa do capitalismo é fundamental para a sociedade se desenvolver, para a solução da desigualdade, porque é só a produção da riqueza que resolve isso. A função do estado é impedir que o capitalismo leve a exploração ao nível que ele quer levar.
O que está errado é achar, como Marx diz, que quem produza riqueza é o trabalhador e o capitalista só o explora. É bobagem. Sem a empresa, não existe riqueza. Um depende do outro. O empresário é um intelectual que, em vez de escrever poesias, monta empresas. É um criador, um indivíduo que faz coisas novas.
A visão de que só um lado produz riqueza e o outro só explora é radical, sectária, primária.” (negritos nossos)[2]
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Como pode um antigo militante comunista dizer essas bobagens ridículas, expressões de rendição de classe? Avancemos uma primeira hipótese, que condiz com nossa tese dessa entrevista como um réquiem, a partir da própria poesia do ex-poeta:
Foi-se formando/a meu lado/um outro/que é mais Gullar do que eu/que se apossou do que vi/do que fiz/do que era meu/e pelo país/flutua/livre da morte/e do morto” (O Duplo, PI).
Se descartarmos essa hipótese poética de um duplo, de um impostor que tenha tomado o lugar do velho Gullar (e pilhérias a parte), a explicação mais plausível para sua impostura deve estar baseada no próprio fenômeno que funda uma sociedade dividida em classes antagônicas, que a perpassa de cima a baixo, e define os rumos da prática, da teoria e da ideologia de cada classe nessa sociedade: a luta de classes.
O recuo e a traição de Gullar podem ser explicados (nunca justificados!) como efeitos do próprio recuo da classe operária na luta de classes contra a burguesia nas últimas décadas. Efeitos das ausências de uma firme posição revolucionária entre as massas e do seu partido comunista na sociedade brasileira atual. Efeitos do recuo relativo da teoria marxista no país. Só que esses efeitos, para o segundo réquiem de Gullar,já se mostram um tanto quanto defasados, pois tanto a conjuntura mundial quanto a conjuntura nacional da luta de classes já apontam para uma retomada da luta de massas, o que tende a levar em seu bojo a retomadas tanto da teoria marxista quanto de sua organização revolucionária.
A própria e necessária ligação entre luta de classes e posição política não era desconhecida do antigo poeta:
Meu povo e meu poema crescem juntos” (Meu Povo, Meu Poema, DNV).
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Vamos analisar agora, brevemente, as principais teses do segundo réquiem.
Primeira tese de Ferreira Gullar: o capitalismo como tendo “origem natural”. O capitalismo como fruto “dos instintos do ser humano”. Passagem de “natural” para final, “invencível”. Fim da história.
Ao abandonar a posição proletária e revolucionária, Gullar abandona o materialismo histórico e, com isso, regride às formulações ideológicas das classes dominantes, utilizadas para justificar a dominação de classe da burguesia. Para esta, nada melhor do que apresentar o capitalismo – e assim justificar sua exploração sobre a grande maioria da população – como algo natural e espontâneo, porém de acordo com a natureza, com uma pseudo-essência, do ser humano. Dessa forma, o capitalismo vira o fim da história ou, nas palavras de Gullar, um sistema “invencível”.
Nada mais distante, porém, da realidade do que essa caricatura ideológica.
O capitalismo, ao contrário de ser de “origem natural”, é um modo de produção historicamente determinado com o objetivo de produzir e reproduzir não apenas as condições materiais de existência, mas também as relações de dominação e exploração de classe que lhe são características.
Isso quer dizer que a constituição do modo de produção capitalista, tal qual do feudalismo e do escravismo, dependeu de uma série de fatores concretos, contingentes porém cumulativos (políticos, sociais, tecnológicos, etc.), ocorridos em determinado e longo período histórico. Essa transição do feudalismo ao capitalismo nada teve de necessária, imanente, caracterização típica de quem, à “esquerda” ou à direita, professa diversas “filosofias da história”, com sua sucessão pré-determinada e teleológica de momentos que culminariam com a realização da “essência” do homem.
Da mesma forma, o capitalismo não é a realização dos “instintos do ser humano” – supondo que tais instintos existam além da herança evolucionária que compartilhamos com os demais seres vivos (resumidos de forma geral nas buscas pela sobrevivência e pela reprodução) – sejam eles quais forem. O importante é explicitar que nesta frase de Gullar se resume a impostura ideológica do liberalismo burguês: criar um indivíduo representativo de todos, ignorando as divisões da sociedade em classes, e associar este indivíduo ao burguês. Porém atenção: não se trata aqui do burguês real, egoísta, explorador e sedento de lucro, mas de um burguês ideologicamente idealizado, um poço de virtudes.
Virtudes essas ressaltadas e condensadas nas belas e genéricas declarações de princípios, necessariamente ideológicas, da burguesia, tais como as dos pais do liberalismo inglês, ou dos direitos do homem e do cidadão da grande Revolução Francesa, ou ainda o Bill of rights da Revolução Americana, até os mais recentes estatutos da ONU ou a “constituição cidadã” brasileira. Trata-se, no entanto, de submetê-las ao confronto da realidade concreta. A realidade concreta da opressão do imperialismo inglês sobre os povos coloniais do mundo todo até meados do século passado e dos bairros proletários denunciados por Charles Dickens e Jack London. A realidade concreta da opressão sobre os miseráveis e os mineiros franceses, denunciadas por Victor Hugo e Émile Zola no século XIX, das condições de vida nos banlieues da Paris atual às tropas colonizadoras que oprimem os povos do mundo aos acordes da Marselhesa. A realidade concreta do secular escravismo americano substituído por um apartheid em que se enforcavam negros aos aplausos da multidão branca nas southern trees denunciadas por Billie Holiday, da miséria espalhada pelas depressões do século XX, retratada por John Steinbeck, e do século XXI, ainda à espera de autor, às políticas do big stick que se mantêm de Theodore Roosevelt a Obama. A realidade concreta dos sempre negados direitos à autodeterminação dos povos diante das “intervenções humanitárias” das grandes potências imperialistas. E a realidade concreta do nosso conhecido país da jabuticaba, das Vidas Secas de Graciliano à Cidade de Deus de Paulo Lins e aos Domingos Sem Deus de Luiz Ruffato, e uma das maiores desigualdades sociais do mundo, para usar esse eufemismo estatístico.
Portanto, o capitalismo não só não é algo “natural” sendo, pelo contrário, historicamente determinado, como não realiza “instinto” humano algum, inclusive porque não só não há esse “instinto” humano, como não há, tampouco, esse indivíduo humano representativo de todas as classes no capitalismo.
Mas que o capitalismo não é uma sociedade homogênea, mas dividida em classes, isso o velho poeta já sabia:
a noite ocidental obscenamente acesa/sobre meu país dividido em classes” (Madrugada, DNV).
Tiradas, assim, suas premissas, já cairia por terra a ridícula hipótese de um capitalismo “invencível”. Mas achamos que cabe acrescentar, ainda, dois pontos adicionais. O primeiro é que não é possível a quem quer que seja, nem a este outro Gullar, ignorar a dimensão da atual crise do capitalismo, da crise da economia mundial, do imperialismo. Crises que vem se sucedendo umas as outras de maneira crescente e generalizada. Crise que, ao ampliar desmesuradamente o nível de exploração sobre as classes trabalhadoras, está fazendo crescer a reação dessas mesmas classes dominadas contra o sistema de dominação.
O segundo ponto é que uma premissa implícita da tese da invencibilidade do capitalismo em Gullar é que ela restaria provada pela queda das tentativas socialistas do século XX. Mais uma vez, o ex-poeta vê tudo ao avesso. As gloriosas e bem sucedidas experiências de derrubada revolucionária do capitalismo, bem como as primeiras tentativas de construção do socialismo na União Soviética, na China, no Vietnã, em Cuba e tantos outros lugares, são lições imprescindíveis, nos seus acertos e nos seus erros, à geração atual de comunistas. Sabemos, agora, quais erros evitar e quais lições desenvolver.
Segunda tese de Ferreira Gullar: o capitalismo como solução para a desigualdade que ele próprio cria, amplia e reproduz. A “capacidade criativa do capitalismo é fundamental para a sociedade se desenvolver, para a solução da desigualdade”. A “produção da riqueza” no capitalismo.
Mais uma vez, defrontamo-nos com a mais simples e caricata ideologia burguesa. O capitalismo é apresentado como o regime de produção de riqueza ao qual bastaria uma melhor regulação, um maior controle estatal, uma legislação mais apropriada ou quem sabe, uma maior consciência dos capitalistas, para que haja uma distribuição menos desigual dessa riqueza. Como criticou Lênin, um capitalismo asseadinho.
E note bem: uma distribuição menos desigual de riqueza seria tudo ao que o proletariado e as demais classes dominadas poderiam almejar. Como diz este Gullar, essas classes são aquelas que nascem “burras”, nascem “aleijadas”. E a riqueza seria criada pelas empresas, da qual dependeriam os operários. Essa matriz ideológica burguesa é compartilhada por todos os matizes de reformismo e revisionismo, tanto em suas infrutíferas tentativas de criar um capitalismo organizado, asseadinho, quanto nas suas ações para paralisar a classe operária e moderar suas reivindicações.
Mas comecemos a desmontar essa ideologia pelo seu começo. Em que base ocorre a produção de riqueza no capitalismo? O materialismo histórico nos apresenta de forma cabal que é o trabalho humano que transforma os valores de uso disponíveis na natureza, tornando-os apropriados às satisfações das necessidades humanas.
No capitalismo, no entanto, este trabalho humano adquire uma característica bastante específica. É o trabalho daquelas classes que não detêm nem os meios de produção nem as condições de garantir sua própria subsistência. Sua única maneira de subsistir é vender sua força de trabalho à classe possuidora dos meios de produção, detentora do capital. E aqui a maravilhosa descoberta científica de Marx, desnudando a raiz da exploração capitalista: ao produzir uma quantidade de riqueza que supera o valor de sua força de trabalho vendida ao capitalista, essa riqueza excedente, a mais-valia, é apropriada integralmente pelo capitalista, sem equivalente. A riqueza capitalista resume-se, toda ela, à apropriação do trabalho não pago das classes trabalhadoras.
E isso pode ser traduzido em termos poéticos. Mais uma vez, nos socorramos do antigo poeta Ferreira Gullar. E não de qualquer poema, mas de seu poema mais famoso, o Poema Sujo, escrito em meados dos anos 1970 na Argentina, onde o então poeta estava exilado.
O que ficam fazendo os proletários, Gullar?
trabalhando para o dono – como disse/Marx” (PS).
E o que é a vida proletária, poeta?
miséria dos homens/escravos de outros” (PS).
Uma década antes, isso já lhe estava suficientemente claro:
Trabalhava noite e dia/nas terras do fazendeiro./Mal dormia, mal comia,/mal recebia dinheiro;/se recebia não dava/pra acender o candeeiro./João não sabia como/fugir desse cativeiro” (João Boa-Morte Cabra Marcado Pra Morrer, RC).
Ao invés das loas atuais ao capitalismo e sua pseudo-capacidade de distribuir riqueza, ao invés de se deixar festejar pela burguesia brasileira, nosso antigo poeta sabia e enfrentava a dura realidade do país com sua poesia:
Façam a festa/cantem e dancem/que eu faço o poema duro/o poema-murro/sujo/como a miséria brasileira
poema/que não toca no rádio/que o povo não cantará/(mas que nasce dele)
Obsceno/como o salário de um trabalhador aposentado/o poema/terá o destino dos que habitam o lado escuro do país/ – e espreitam.” (Poema Obsceno, VD)
Terceira tese de Ferreira Gullar: no capitalismo quem produz as riquezas são os capitalistas e os operários conjuntamente, “um depende do outro”. “O empresário é um intelectual que, em vez de escrever poesias, monta empresas”.
O branco açúcar que adoçará meu café/nesta manhã de Ipanema/não foi produzido por mim/ ... /e tampouco o fez o dono da usina/ ... /Em lugares distantes, onde não há hospital/nem escola,/homens que não sabem ler e morrem/aos vinte e sete anos/plantaram e colheram a cana/que viraria açúcar” (O Açúcar, DNV).
Não é necessário nada além do soco no estômago que é essa poesia para demolir a patética tese da “co-dependência” entre o trabalhador e o “empresário-intelectual-poeta” (sic!).
Mas vejamos esse ponto com um pouco mais de detalhe. Este atual duplo de Gullar, este impostor, afirma que, ao invés do que escrevia antes, a produção de riqueza se dá por “milhões de pessoas inventando maneiras novas de ganhar dinheiro”, pois o burguês “é um intelectual que, em vez de escrever poesias, monta empresas”. Que a burguesia passa todo o seu tempo se beneficiando das maneiras velhas de ganhar dinheiro ou inventando maneiras novas para isso é sua própria definição enquanto classe. O que Gullar não diz (pois a Veja poderia não gostar), mas que é seu sinônimo, é que para isso, a burguesia passa todo o seu tempo se beneficiando das maneiras velhas de explorar os trabalhadores ou inventando maneiras novas de realizar essa exploração. Quem diz capitalismo, diz exploração de classe.
O que o capitalista tem é apenas o dinheiro, o capital. É esse capital que ele põe em funcionamento contratando trabalhadores para gerarem a mais-valia que é por ele apropriada. Ao capitalista, o que interessa é a produção de um valor maior do que o que dispunha inicialmente, tanto faz produzindo açúcar ou cocaína, chips de computador ou armas.
Isso é tão óbvio que até o nosso Zé Molesta já o sabia:
A verdade é muito simples/e eu vou logo lhe contar./Você não quer liberdade,/você deseja é lucrar. Você faz qualquer negócio/desde que possa ganhar:/vende canhões a Somoza,/aviões a Salazar,/arma a Alemanha e Formosa/pro mercado assegurar” (Peleja de Zé Molesta com Tio Sam, RC).
Esquecido de sua vida anterior, o que o novo Gullar parece ainda acreditar é nos velhos mitos das “robinsonadas”, do pequeno capitalista individual movido a uma ideia na cabeça e algum dinheiro no bolso. Algo como um Steve Jobs. O que ele “esqueceu” é que para transformar essas idéias em produtos vendáveis, mercadorias, o capitalista cai fora e o trabalho é feito pelos operários. Esqueceu que o sucesso do Steve Jobs é baseado em milhares de operários chineses presos em fábricas militarizadas, nas quais se faz apenas trabalhar (muito), comer e dormir (pouco) a troco de salários irrisórios. Lá como aqui e em qualquer lugar, no entanto, a exploração capitalista encontra seu limite na reação operária. Lá como aqui e em qualquer lugar, a luta dos operários limita, na medida de sua organização e disposição de luta, um avanço maior da exploração, aumenta os salários (ainda irrisórios) e conquista melhores condições de trabalho.
No tempo em que ele ainda sabia dessas coisas, ele as chamava pelo nome. Não mais um “empresário-intelectual-poeta”, mas os grandes monopólios imperialistas:
Que o tempo é pouco/e ai estão o Chase Bank,/a IT & T, a Bond and Share,/a Wilson, a Hanna, a Anderson Clayton,/e sabe-se lá quantos outros/braços do polvo a nos sugar a vida/e a bolsa” (Homem Comum, DNV).
E também a própria classe dominante brasileira não era poupada:
Latifúndios com nome de gente, famílias/com nome de empresas” (Dois Poemas Chilenos, DNV).
E ainda vem esse ex-poeta criticar suas antigas posições como “radical, sectária, primária”! Primárias são as teses que se derivam do senso comum, que expressam a ideologia dominante. Como vimos, não é outra coisa que Gullar faz durante toda a entrevista-réquiem. Sectário é não se abrir ao debate, à discussão, à crítica. O marxismo sempre foi, desde Marx, o oposto a isso. Não é por outra razão que nosso blog chama-se Cem Flores (http://cemflores.blogspot.com.br/). Por fim, como dizia o jovem Marx, ser radical é tomar as coisas pela raiz, o que no caso se traduz em desvendar e denunciar os mecanismos encobertos da exploração capitalista e desnudar a ideologia burguesa que a justifica[3].
*    *    *
À guisa de conclusão, dois comentários.
Ao contrário do que propõem tanto a entrevista-réquiem de Gullar quanto a ofensiva ideológica da classe dominante na atual crise do imperialismo, o capitalismo não é o fim da civilização, o fim da história. Pelo contrário, na atualidade há crescentes indícios de aumento das lutas de massa (passeatas, greves, manifestações, ocupações, greves gerais, etc.) e de retomada do marxismo. Por certo partindo de patamares recuados, mas iniciando a contra ofensiva das classes dominadas.
E como nosso velho “poeta político” já sabia, quando essa luta avança...
Um grave acontecimento está sendo esperado por todos/Os banqueiros os capitães de indústria os fazendeiros/ricos dormem mal. ... Um grave acontecimento/está sendo esperado/e nem Deus e nem a polícia/poderiam evitá-lo” (A Espera, VD)
A poesia/quando chega/não respeita nada./ ... /E promete incendiar o país” (Subversiva, VD)
Onde está/a poesia? Indaga-se/por toda parte ... /poesia/paixão/revolução” (A Poesia, DNV).
E como último e triste comentário, parece que enfim concretizou-se na vida do poeta a sua própria poesia:
é a morte que te chama/É tua própria história/reduzida ao inventário de escombros/no avesso do dia/e não mais esperança/de uma vida melhor?/que se passa, poeta?/adiaste o futuro? ” (Omissão, B).
O morto está morto” (Glauber Morto, B).


[1] Neste texto, todas as citações da obra poética de Ferreira Gullar foram feitas de acordo com a edição de sua Poesia Completa, Teatro e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2008. Dá-se o nome do poema citado e indica-se o livro no qual foi publicado pelas suas iniciais: VM (O Vil Metal, 1954-60), RC (Romances de Cordel, 1962-67), DNV (Dentro da Noite Veloz, 1962-75), PS (Poema Sujo, 1975), VD (Na Vertigem do Dia, 1975-80), B (Barulhos, 1980-87) e PI (Poemas Inéditos, 1948-2006).
[2]Veja, 26 de setembro de 2012. O texto integral está disponível no sítio do filósofo e poeta Antonio Cícero, que o qualifica de brilhante (sic!): http://antoniocicero.blogspot.com.br/2012/10/ferreira-gullar-entevista-revista-veja.html.
[3] Faltou-nos comentar uma afirmação de Gullar, a de que a “função do estado é impedir que o capitalismo leve a exploração ao nível que ele quer levar”. Para a avaliação marxista sobre o papel do Estado no capitalismo e para uma análise do comportamento recente do Estado brasileiro, remetemos ao nosso artigo “O Estado brasileiro em ação. Como o Comitê Central da Burguesia decide as medidas de política econômica e as determina aos atuais prepostos Dilma e Mantega” (http://cemflores.blogspot.com.br/2012/07/como-o-comite-central-da-burguesia.html).

quarta-feira, 27 de março de 2013

Pablo Hasél - Comunista (videoclip)

La canción pertenece al nuevo trabajo de Pablo Hasél "Sigue desnudándose la dictadura del capital" que en pocos días estará disponible para su libre descarga.
Es la primera parte de una triología de canciones con vídeo sobre el comunismo. Especialmente dedicada a todos aquellos y aquellas que dieron y dan la vida por un mundo más justo que llegará con el socialismo. Hasta la victoria no puede haber tregua. En la producción del track está Marc Hijo de Sam y en la realización audiovisual está Nikone Cons.

Letra aquí: http://www.nikonecons.net/2013/03/08/...

quarta-feira, 20 de março de 2013

Cultura sob fogo cerrado em Sabará/MG

A Secretária de Desenvolvimento Social e primeira-dama de Sabará está "promovendo" o despejo do "POLO CULTURAL", a BORRACHALIOTECA e a sala de Cordel, justamente um dos principais Baluartes da Cultura Sabarense, que eleva, e leva o nome de nossa cidade pelo Brasil afora.
Ficará sem seu espaço na região central da cidade, para que ali seja instalada a secretaria. 
Para quem não conhece, o Instituto Cultural Aníbal Machado mais conhecido como Borrachalioteca, foi criado em 2002, no interior de uma borracharia no bairro Caieira, em Sabará. Desde então, a biblioteca tem como principais objetivos fomentar a prática da leitura e a difusão cultural através dos textos literários. Com um acervo que possui mais de 10.000 obras literárias, a Borrachalioteca conta hoje com outras três unidades além da borracharia: a Casa das Artes, a Sala Son Salvador e o Espaço Libertação pela Leitura.
 
http://borrachalioteca.blogspot.com.br/

terça-feira, 19 de março de 2013

Da Fazenda à Brava


Este desentendimento astral que move a humanidade sob a harmonia cíclica,
Vence-se à luz do sol para se decifrar algo inócuo, um corpo para um sentido,
Uma matéria para aquilo que se conceituará, uma forma ao espírito.

D
O
R
S
O

à luz do sol, no costão, o lagarto lagarteia, sob a serenidade de ter na sua cabecinha as coisas em ordem, desfrutando da paz naquilo que sempre existiu.
Sabedoria, plena e exposta, anunciando o fácil exemplo a ser seguido.

A
  N
    D
      A
        R

sob às ondas encostadas num molhe muito louco,
que se arrastam pelo muro e pés de galinhas gigantes que dividem o rio do mar,
que oficialmente permite a entrada e saída de mercadorias, e
num detalhe, numa distração, num aproveitamento,
diverte-se a tribo regionalista sob a condução da planta emacumbada,
a prancha desenhada e a gargalhada, como a de um lagarto que lagarteia, à luz do sol.

        O
      U
    V
  I
R

e temer o silêncio que atrai ao ventre da caverna, o úmido do seu ar,
como se estivesse fecundando um monstro, um mamífero de asas,
que tanto assombrou as noites dos anjos do augusto,
e viverá nas custas de nossos medos, renascendo aos nossos sustos.

G
  A
L
  A
N
  T
E
  I
A

lua cheia e tremenda, sob a estática e morta água do saco da fazenda.
Giordano Zaguini Furtado é poeta a advogado em Itajaí contato: giordanozf@hotmail.com


segunda-feira, 18 de março de 2013

Romance juvenil Certa Manhã

O militante do PCB Daniel Oliveira acaba de lançar o livro juvenil "Certa manhã". Os pedidos podem ser feitos pelo e-mail editorabaoba@editorabaoba.com.br ou pelos telefones (31)3653-5216 / 8467-2886.
 
 

sexta-feira, 15 de março de 2013

A esperança quem vem braços!*

Ele tinha, como quase todos, os dois braços. Bom, a estatística é uma coisa que me intriga, será que muitas pessoas não tem braços? Quantas não o tem desde que nasceram? Quantas o perderam?
Este aqui lembra de alguém que tinha ambos, que carregava coisas, que provavelmente escrevia cartas, ou emails na modernidade, que andava em bicicleta, que abraçava! Desde uma vez em que li um livro falando sobre o poder do abraço, fiquei notando a palavra: a-bra-ço. No meio dela o nome do membro e ela toda algo tão bom e tão importante para o ser humano, que me deixa mortificada a possibilidade da falta dele de forma acidental ou possivelmente "criminosa". As pessoas que me conhecem, sabem que eu poderia aqui falar um pouco dessa temática, mesmo sem especialidade nela, o crime. Mas não será o caso, quem sabe noutros no futuro? 
Mas falemos dos dois braços que ele tinha, dos abraços que deu e como dará agora? A lembrança do braço! "Era linda, mas era coxa!" diria Machado. Eu não sei se lindo, mas sem braço. E o mais louco é a tragédia, a perda, a dor física e da falta. Esse último conceito ficaria para a psicanálise, algo que nem de longe me aproprio e deixo para quem o entende! Mas falta um braço, sem ele muita perda, faltaria o abraço, o aperto de mão?(não pois se pode desviar ao outro braço), e a bicicleta? Ah! Dessa eu sou suspeita de falar, como eu gosto! Desde pequena! A bicicleta era o sonho das crianças da minha infância! E como sofri para aprender a equilibrar sobre ela! E como dou risada quando pergunto ao meu pai(um  apaixonado por bicicleta!): " por que cê não tenta andar com uma mão só?" E ele me responde:" eu já sou feliz demais conseguindo me equilibrar com as duas!"
Então pensaria, como agora ele andará em bicicleta? Será que pretende? É possível? Acho que sim, já vi muitos, dotados das duas mão claro, fazerem malabarismos com um braço só em bicicletas! Palhaços em apresentações, por exemplo, sem as duas mãos ou em monociclos(assim?) fazerem estripulias! Imagino que numa perda como essa a esperança tem que ser muito grande e os a(braços) muito fortes!
O que fica de tudo isso acho que seria a vida! A esperança que vem dos braços, afinal as mãos que são o final dos braços representam muito essa vontade, esse desejo de ser, uma mão erguida em punho, uma mão dada, uma mão que sinaliza...
Acredito firmemente que o mundo ficará melhor! Acredito nas pessoas. Eu ainda sou dos que sonham e não só sonham, mas muito(no meu possível) fazem para ver o mundo mais abraçado e mais cheio de outra vida que não a da falta. 
O mundo é um lugar possível e vale a pena lutar por ele! 


Laila Vieira de Oliveira
Belo Horizonte/MG
* para o ciclista que perdeu um braço, nunca saberei a dor dessa perda, não tratei da questão no viés da responsabilização do que tirou o seu membro da esperança(o que é preciso falar e tratar), falei da esperança...

quinta-feira, 14 de março de 2013

Do branco oco na janela vazia

Do branco oco na janela vazia
Cinzas do dia iluminadas em asas de metal
Hipocrisia! Pura hipocrisia!
Dor azul que nunca principia
Vai! Rasga a carne! Atropela!
Entorta, revira, entorpece.
Torpe sol de outrora
Torpe desejo de aurora
Lançado aos céus, aos seus
Cai...
Vai!Feito chuva de navalha
Decepa! Decapta!
Hipocrisia! Hipocrisia!
Queima a garganta como vômito azedo
Desprezo! Desapego!
Desejo!
Hipocrisia, hipocrisia...

Gabi Santos
Movimento Fora Lacerda
Belo Horizonte/MG

terça-feira, 12 de março de 2013

SONHAMANDO


No osso das palavras
tem loucos
multiplicando as janelas
E eu engoli um piano
E dentro de mim cantam lírios
E a aurora borbulha violenta
E espalha-se pelos meus nervos
Ai que sabor doce amargo
tão estranho,
Ahyoeh!
***
Digito inteiro o som das rosas
e onde sou vermelha
uma asa cede-me a loucura
e a noite me engole nesse desespero alucinante
amplio-me
sou última gota no teu corpo de vinho
Ahyoeh!
***
E quantas bocas me pertencem?
Quantos rios me atravessam? Quantos olhos navego?
E onde estou eu, nas partes todas de mim?
E com qual delas te amo?
No revérbero da guitarra de Baden Powel?
E quantas vezes te amo na metade de mim?
E quantas vezes te bebi
neste poema que ainda não escrevi?
Ahyoeh!
***
Oh amor engoli-te um piano
e nasceu-me uma aurora
bem na rosácea deste poema
Exactamente aqui, nesta sílaba,
agorinha mesmo, onde suo enluarada
um saxofone prende-se à minha garganta
Ahyoeh!
***
Respiro Coltrane na minha cama
Nua e sem pétalas, nua
de mim, ou de nós, amor,
diz-me onde cabem os ossos das palavras que te dou?
Onde cabem as duas corcundas de mel
que me descubro
nos teus olhos,
nas tuas mãos que me embriagam
do cóccix ao céu?
Onde cabem amor?
Onde cabem?
Onde?
Ahyoeh!

BIOGRAFIA
Tânia Tomé  é de Moçambique é cantora, compositora, poetisa ,declamadora e apresentadora de espectáculos e televisão. Licenciada em Economia, e Pos-graduada em Auditoria e Controlo Gestão. É membro da Associação dos escritores Moçambicanos, da Associação dos músicos moçambicanos, da Associação dos Poetas del mundo e membro correspondente da Academia Rio-Grandina de Letras do Brasil.
Contato: info@taniatome.com
www.taniatome.com
www.showesia.com

terça-feira, 5 de março de 2013

"Grandola, Vila Morena" no Terreiro do Paço






Manifestantes portugueses cantam a música de Zeca Afonso, um símbolo do 25 de Abril (Revolução dos Cravos), em manifestação nas galerias do parlamento português.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Carnaval do Rio mostra que crítica social pode ser feita com diversão


Como muitos críticos têm alertado, nos últimos anos a espetacularização e a lógica de mercado vêm dando o tom do desfile das escolas de samba no rio. Salta aos olhos o luxo dos carros alegóricos e das fantasias que desfilaram pela Sapucaí. Longe das lentes da Rede Globo, no entanto, foliões do Rio tomaram as ruas da cidade para mostrar que a diversão do carnaval pode ter tudo a ver com as lutas do povo e com a construção de um mundo justo.
Liberdade de expressão, união dos povos latino-americanos, homenagens a lutadores do povo brasileiro e do mundo e a defesa dos direitos humanos foram cantados e dançados por milhares de foliões. Estes foram alguns dos temas abordados por blocos que na periferia, no centro e na zona sul mostraram que a política também dá samba.

Amigos de 68
   
   
Comunicadores populares se divertem no bloco Fala Puto
Foto: Samuel Tosta/Sindipetro-RJ
No início da tarde do dia 12, a rua Dias Ferreira, no Leblon, foi tomada por placas que estampavam imagens de Che e Fidel, bandeira da Venezuela e até um boneco do presidente Chávez. Foi dia do bloco Inimigos do Império, que ocupou o coração da zona sul. O samba de 2013 cantou e homenageou os presidentes Morales, da Bolívia; Cristina, da Argentina; Correa, do Equador; Mujica, do Uruguai; e, por fi m, grita “Viva Chávez, nosso bolivariano!”. Todas personalidades diariamente atacadas pelos meios de comunicação comerciais. Além dos foliões, a festa reuniu representantes da Casa da América Latina, Associação Cultural José Martí-RJ, Comitê Estadual do Rio pela Libertação dos Cinco Cubanos, Instituto João Goulart e outras. Para cobrir o evento esteve presente uma equipe da Telesur, canal de TV multiestatal com sede na Venezuela.
O bloco Inimigos do Império foi criado pelos Amigos de 68, grupo de remanescentes da luta contra a ditadura civil-militar. Há cinco anos a folia dos militantes é realizada em frente ao Bar Tio Sam, “território inimigo” ocupado por quem deseja se contrapor à soberania ideológica dos Estados Unidos. Cid Nelson, um dos fundadores do grupo, explica que a ideia veio do entendimento de que a luta contra a hegemonia estadunidense pode e deve ser feita em todos os meios, inclusive no carnaval. “Somos um grupo de resistência. Nosso estatuto diz que o propósito explícito desta intervenção cultural é denunciar, ridicularizar e se contrapor ao Império do Norte, ao neoliberalismo e todos seus defensores. Tudo isso de forma lúdica e prazerosa”, afirma.
Eliete Ferrer, também fundadora do bloco, conta que o objetivo do grupo sempre foi defender os povos oprimidos. “Já apoiamos a Palestina, hoje estamos fortalecendo nosso continente. Chega de os EUA acharem que podem, impunes, matar quem eles querem. Agora já até inventaram os drones [aviões sem piloto para matar civis no Oriente Médio em uma suposta ‘guerra ao terror]”, explica a militante. “Estamos aqui para lutar contra a opressão e para cantar a humanidade e a solidariedade entre os povos”, ressalta Eliete.
Autor de vários livros e membro do Conselho do Brasil de Fato, o jornalista Mario Augusto Jakobskind é um dos organizadores do bloco e um dos compositores do samba deste ano. “Apoiar a República Bolivariana da Venezuela e Chávez está na ordem do dia. Decidimos enfrentar o Império por meio de uma manifestação popular, mostrando que a politização e a alegria podem caminhar juntas.”, conclui.

Monopólio da mídia
O direito à comunicação é bandeira do bloco Fala Puto, que há quatro anos desfila na Cinelândia, no centro do Rio, e conta com a participação do bloco Lira de Ouro, de Duque de Caxias. O bloco foi criado por comunicadores populares com o objetivo abrir espaço no carnaval carioca para a luta pela democratização da mídia. “Com diversão também é possível tratar desse tema tão importante. Em quatro anos já falamos sobre a Conferência Nacional de Comunicação, denunciamos o monopólio da mídia, criticamos a imagem da mulher na TV, defendemos o marco regulatório”, conta Edson Munhoz, do Sindicato dos Petroleiros do Rio, entidade que patrocina o Fala Puto.
“O nome do bloco é irônico, já que nossa ideia é criticar a realidade da mídia no Brasil de maneira alegre, divertida. Esse puto tem várias interpretações. Nós, que estamos insatisfeitos com a concentração dos meios no país, temos que ficar putos, temos que reivindicar a garantia do direito à comunicação”, diz a jornalista Gilka Resende.
O também jornalista Arthur William, cantor do bloco e um dos compositores, explica que o fato de o grupo sair há quatro anos sem autorização da Prefeitura materializa a defesa do direito à comunicação e à folia por meio da ocupação do espaço público para expressar ideias contra-hegemônicas. “Blocos de rua como este são um contraponto ao carnaval comercial realizado pela maioria das escolas de samba e por alguns blocos patrocinados. Em nossa festa, cantamos a sociedade com a qual sonhamos, ajudando a construí-la na prática”, afirma.

   
   Bloco Comuna que pariu - Foto: Adriano Alves
Homenagem à Niemeyer
Há quatro anos estreava nas ruas da Cinelândia o bloco Comuna que pariu, criado por militantes da União da Juventude Comunista (UJC), do PCB. Ele ocorre neste local devido à história de resistência política e cultural da área, além de ser onde está localizada a Ocupação Manoel Congo, símbolo da luta pela moradia na cidade.
“A cultura pode servir de arma na luta de classes. Somos todos fi lhos da Comuna de Paris”, explica o professor de história Heitor Cesar Oliveira, um dos fundadores do grupo. Ele conta que o Comuna surgiu da ideia de que é possível usar elementos culturais para incentivar e ampliar a luta social. “Criamos o bloco para unir a alegria do carnaval à mensagem social. Já falamos sobre a Anistia, a campanha O petróleo tem que ser nosso e ano passado denunciamos as remoções ocorridas no Rio por causa da especulação imobiliária. Também fizemos, em 2010, uma homenagem ao MST”, enumera.
Neste ano, no domingo, dia 10, a rua ficou lotada para ouvir o samba em tributo a Niemeyer, falecido recentemente. Victor Neves, um dos compositores do samba deste ano, disse que a escolha do tema foi “quase natural”, devido ao falecimento deste grande arquiteto. “Ele sempre assumiu publicamente sua posição de comunista fervoroso. Foi presidente de honra de nosso partido. Além disso, foi um dos maiores arquitetos do século 20”, explica.
Para Neves, o Comuna ajuda a refletir sobre que carnaval de rua os militantes querem e até que ponto aceitam a interferência do Estado que aí está. “Acredito que seria bom ampliar a participação de outros grupos de esquerda e movimentos sociais, que podem e devem se integrar à organização do bloco”, convida.

Sheila Jacob,
do Rio de Janeiro (RJ)
Fonte: http://www.brasildefato.com.br/node/12024

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

ME PERGUNTARAM SE EU ACREDITO EM REENCARNAÇÃO

Ontem me perguntaram se eu acredito em reencarnação
Eu respondi que sim
Por que não...

Se em Roma fui um ex-escravo
E lutei lado a lado com Espartacus
Na China imperial fui um iconoclasta
Nas caravelas, um desterrado por rebelião
Me revoltei contra a chibata
No balaio escondi faca
Me confederei em Equador...

Me neguei a auxiliar as bandeiras
Joguei água na fogueira da inquisição
Quebrei máquinas na Inglaterra
Em Paris delirei em comunhão
Adentrei pelas janelas o Palácio de Inverno
Me apaixonei por Olga antes de Prestes
Fui tenente, expedicionário e estivador...

Fui assassinado em Contagem, Ipatinga e Volta Redonda
Pela PM do capital
Perdi família em Carajás
Na Palestina morri criança
Em Kabul urinaram em mim enquanto gargalhavam
No Afeganistão resisti com o fuzil nas mãos
Em Guantánamo passei a acreditar no inferno...

Em muitas oportunidades fui apenas estatística
Em outras nem isso
Mas sempre, sempre ao lado dos oprimidos...

Ontem me perguntaram se eu acredito em reencarnação
Por que não...
Se não é a alma que viaja
Mas a luta passada
Que na luta contemporânea
Reencarna

Daniel Oliveira
Belo Horizonte

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

A DITADURA DA MEDIOCRIDADE (OU OS IDIOTAS ASSISTEM TV)

por gilson ribeiro

Todo o desenvolvimento humano se deu pela nossa capacidade de abstração, o que significa que a maior parte de nossa realidade está fora do nosso campo de visão ( ao contrário dos outros animais, para o melhor e/ou para o pior, sempre fomos muito além dos dados concretos da nossa realidade imediata), essa capacidade de abstração nos levou à criação da linguagem, através da qual se estrutura nosso pensamento; entre outras coisas, somos seres simbólicos e nos abstraímos, construímos sentidos, fazemos descobertas, absorvemos conhecimento - pensamos, enfim.
A partir do momento que qualquer imagem, esteja onde estiver, adentra nossa casa (tele-visão), deixamos nossa mente ser ocupada por imagens prontas, ou seja, que não são resultado da construção mental de sentido advinda da abstração - deixamos de pensar, enfim.
E de imaginar.

Limitando assim a nossa realidade apenas ao que se encontra circunscrito ao nosso campo de visão, desativamos nossa capacidade de abstração (fator principal na história de todo o desenvolvimento humano). Com isso nos tornamos mais vulneráveis à manipulação midiática, introjetando interesses deliberados externamente e confundindo-os com nosso desejo. Assim nos transformamos em meros consumidores, como que lobotomizados, zumbis.
Já somos sucessivas gerações predominantemente audiovisuais, conferindo conotação negativa ao termo "intelectual" para desqualificar qualquer debate mais aprofundado, reclamando de filmes "lentos", dizendo que preferimos coisas "light" em detrimento de coisas "complicadas", "xingando" de cult quem queira argumentar minimamente e faça menções a referências extra-midiáticas. Cada vez menos contemplativos e mais imediatistas. Adultos infantilizados num violento processo de idiotia que há muito tempo trocaram o pensar e o (tentar) compreender pelo (apenas) ver, assistir.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

VERGONHA


Como é triste e vergonhoso,
Renan Calheiros de volta ao Senado!
Falcatruas, corrupção e hipocrisia,
Foram legadas ao passado.


O povo assiste estarrecido,
Esse mar de desenfreada corrupção.
De onde deveria vir o exemplo para o país!
Causa-nos tristeza, revolta e profunda consternação.


A classe política não gosta e se revolta,
Quando são postos a prova e criticados.
Todavia, ante tanta safadeza e corrupção!
É quase impossível encontrar um político honrado.


Vergonha geral para o país,
Que legado fica para o nosso povo?!...
Passa-nos a impressão de inércia,
E que amanhã acontecerá tudo de novo.


Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá.
Envergonha-nos a classe política,
Em todo lugar que está.


Antônio Francisco Cândido
Funcionário Público do Teatro Municipal de Pouso Alegre - MG
Membro Correspondente da A.C.L.A.C. Arraial do Cabo - RJ.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

A greve do carnaval

Por Heitor Cesar Oliveira
Imagine um dia, talvez um sábado, ou mesmo uma segunda feira de carnaval. As ruas do Rio vazias. Nenhum bloco; nenhum cordão; nenhum baile; nenhum bêbado cantarolando alguma marchinha; nenhum casal brigando por ciúme; nenhum beijo despretensioso. Imaginem um carnaval que os foliões fizessem greve. Não fossem às ruas. Uma greve de carnaval.
As ruas ficariam desertas. Mais desertas que um início de madrugada de segunda feira. Os comerciantes, estes ficariam em pânicos: os donos dos bares ficariam loucos pensando na “fortuna” por eles gasta para encher seus estoques à espera de foliões e bêbados que não mais apareceriam. A polícia - essa coitada! – perderia grande parte de sua renda extra de extorsão dos foliões exagerados – presas fáceis desse tipo de investimento. Mas o que causaria isso? O que causaria uma greve de carnaval, unindo o folião, o bêbado, os comerciantes ambulantes, os diretores de blocos, os compositores de marchinhas, os sambistas com seus violões e pandeiros?
Esse quadro me foi desenhado por um sujeito que se dizia viajante do tempo, vindo de 2014, ano em que tal fato ocorrera. Eu o encontrara numa rua próxima à Praça XV andando perdido em meio aos blocos com suas camisas cheias de patrocínio e com suas letras que não diziam muito mais do que um montante de vogais.
Ao ser perguntado sobre tal fato, ele responderia direto, com uma certeza nítida: — A velha e conhecida de todos nós, a ganância, a ânsia enlouquecida por lucro, a mercantilização das relações humanas e seus derivados.
O carnaval havia se voltado para o turismo, para os de fora. Tudo invertido na cidade, preparada para servir de vitrine para os gringos.
Nada contra. Mas se eles são turistas, que aprendam a conviver com as coisas como estão, e não as modifiquem para melhor atender seus desejos de “caricatura de povo”, de "carnaval", de "mulatas", de "malandro sambista". E a Ordem, essa velha inimiga do povo – essa amante de mentes pequenas e positivistas, que tem medo do povo – impediu a brincadeira de ocorrer fora de seus padrões de “choques", intimidando o povo, acabando com os coretos e com a espontaneidade da brincadeira. Favorece – isso sim! – os donos de comércio e bares, que se fecharam nos seus salões com ar condicionado e com suas músicas ao vivo, com seus preços exagerados que afastam o folião autêntico, o brincalhão, o fanfarrão, o bêbado. Tudo fica perfeito para a “playboyzada” curtir com os cartões de créditos patrocinados pelos pais, os mesmos pais que assumiram a organização da festa, a nossa burra elite.
Foi assim, diante desse quadro que se organizou – ou melhor, que se desorganizou - a greve de sábado foi passando pelo domingo (recorde de presença das missas), pela segunda e, quase terminando na terça feira, foi entrando pela quarta. Logo quando todos achavam que a festa tinha ido para o buraco, quando todos consideravam o fim do carnaval carioca; a morte, tão decretada, do samba... Estourou a festa do povo!
Num passe de mágica, as ruas foram tomadas não para buscar os bares com seus donos falidos, mas para fazer a brincadeira de rua. Desfilar pela Avenida Rio Branco, pela Presidente Vargas, correndo, brincando, com bate-bola, mascarados, foliões, sambistas, diretores de blocos e claro, nosso amigo de sempre, o bêbado, com seu vasto repertório de sátiras, de marchinhas antigas e filosofias de botequim.
Foi o ano em que nenhum dinheiro caiu nos cofres da elite. Foi o ano do choque da desordem urbana, pois afinal quem quer manter essa ordem aí? Eu não...
Assim, meu amigo viajante do tempo entrou numa viela, dessas que tem um monte na cidade, e sumiu gritando: — Viva o povo trabalhador, brincalhão, alegre, folião e claro, combatente, valente e brigão, como deve mesmo ser.


Heitor Cesar Oliveira é historiador, membro do CC do PCB