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terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Eduardo Coutinho: “Tudo o que eu faço é contra o jornalismo”

                                                                         

"Quero saber das pessoas que eu filmo, só"
04/02/2014 
Mariana Simões
Na Pública
Em entrevista inédita concedida em 2011 a Mariana Simões, então estudante de comunicação, o documentarista Eduardo Coutinho não escolhe as palavras para definir o que faz
Eu tinha 22 anos quando comprei uma passagem para o Rio de Janeiro para entrevistar Eduardo Coutinho, que morreu no domingo, dia 2/2, no Rio de Janeiro. Na época eu cursava graduação em Comunicação nos Estados Unidos e estava passando as férias em Brasília. Fiquei um mês trabalhando na tese: metade fazendo pesquisa sobre a obra de Coutinho e a outra metade com o telefone na orelha, tentando agendar uma entrevista com o documentarista.
Quando consegui o número de telefone do escritório dele,  achei que a minha entrevista estava garantida. Mas faltando uma semana para eu voltar para Nova York, ainda não tinha dado em nada. Comecei a entrar em pânico. “Se faça de boba, minha filha,” meus pais me disseram.
Eu segui o conselho: mandei um e-mail para a produtora dele dizendo que já tinha comprado minha passagem para ir ao Rio de Janeiro e que, no dia seguinte, ligaria para confirmar o horário da entrevista. “Você sabe como é, ele já está velho, não gosta mais de dar entrevista,” alguém me disse pelo telefone dias depois. Expliquei que já estava no Rio de Janeiro esperando ele me atender. A passagem custou caro, eu iria voltar logo para o exterior, fui dizendo.
Eu tinha entrevistado o cineasta Vladimir Carvalho na semana anterior. Ele foi simpático ao telefone e, quando nos encontramos, ficamos horas conversando. Um homem sorridente, com boa vontade, cheio de energia.  
Com Coutinho foi praticamente o oposto. Quando entrei na sala para entrevistá-lo, a única que estava sorridente era eu. Coutinho estava atrás de uma mesa, me esperando, um maço de cigarros em mãos. Ele falava baixo, meio rouco. Tossia muito. 
Apertou minha mão. Perguntei se podia filmar a entrevista, ele gesticulou que sim e eu comecei a agradecer como uma tonta. Disse que era uma honra poder entrevistar um homem que mudou a cara do documentário brasileiro. Fui logo acrescentando que achava ele um grande documentarista, alguém que eu admirava, mas percebi que ele não gostou dos meus elogios. Não queria se fazer de herói, nem aceitar o título de grande cineasta; ele era apenas um cara que gostava de documentar o encontro da câmera com o mundo. E, de fato, avisou que não fazia filmes para descobrir a verdade sobre ninguém.
Tudo que eu tinha entendido sobre o trabalho dele até então foi aos poucos desmoronando. “Eu estou interessado que a pessoa fale a partir de sua experiência sabendo que, como é memória, toda memória é mentirosa, e portanto tem verdade e mentira juntos. Isso é inevitável,” ele explicava. De acordo com Coutinho, não era possível fazer um documentário que só contasse a verdade. Para ele, não existia uma verdade única sobre um acontecimento, mas sim várias verdades ou várias experiências vividas que juntas pudessem contar uma história.
Assim como os gestos e o comportamento dele, naquele dia, também contaram uma história.
Quando entrei na sala, vi um homem de 80 anos que já estava cansado, cuja voz às vezes falhava, mas um homem que ao longo da entrevista foi se soltando, começou a mostrar outra cara. Apesar da aversão que sentia em dar entrevistas, eu notava o brilho no olho dele, o orgulho que tinha pelo que fazia, a paixão que sentia pela arte que havia criado. Antes de ir embora, pedi para tirarmos algumas fotos juntos. Na última, ele puxou meu braço  e disse: “Agora chega de fotos genéricas, vamos fazer uma em movimento.” E aí ele acenou para a câmera e por um instante consegui capturar algo: não a verdade sobre Coutinho, mas um retrato dele naquele momento. Que se foi.
Você acha que o documentário é de alguma forma uma extensão do jornalismo?
Questões gerais eu odeio. Se você me pergunta a diferença do documentário pra ficção nós não vamos sair do lugar. Não, eu fiz nove anos de jornalismo para a TV Globo, trabalhei três anos em jornal também, até fui jornalista, dirigi filmes para o Globo Repórter. Mas eu, desde que eu saí do Globo Repórter, tudo que eu faço é contra o jornalismo.
Contra o jornalismo?
Eu odeio o jornalismo. Não estou interessado em jornalismo. Não estou interessado em informações, mapas, em filme militante, em filme político. Deus me livre. Aquecimento global, liberar maconha. Não estou interessado em filmes políticos, sociais, genéricos. Nada que é genérico me interessa. Quero saber das pessoas que eu filmo, só. Então comigo é uma exceção, um tipo de cinema particular que eu faço, do qual é o único que eu sei falar. Não falo sobre o cinema em geral porque, bom, o documentário pode ser tudo, né? Jornalistas podem fazer excelentes documentários jornalísticos, evidente. O Michael Moore é jornalista, no fundo um cineasta, e que é um tipo engraçado e tal, mas que é um populista evidentemente de esquerda e que, enfim, usa metas que eu não usaria. Mas é um cara altamente eficaz, está milionário e tal, mas é jornalismo. E seus filmes são úteis? São, em certa medida são. Tratar dos assuntos que ele trata, agora, as metas que ele usa, não me interessa.
Você acha que o Michael Moore interfere muito no filme?
Michael Moore é um exemplo, tem mil outros. Todo cara que começa a fazer um filme dizendo “eu vou fazer esse filme para obter tal resultado” não me interessa. Vou dar um exemplo: o filme do Al Gore, não vou ver. Não estou interessado! O filme que o cara sabe que ele vai fazer para dizer que a maconha deve ser legalizada, não estou interessado! Que o mundo vai ser aquecido, o cacete a quatro, não estou interessado! Outro pra dizer que não pode comer carne. Outro pra dizer que a miséria é boa. Não quero saber disso, não interessa. Faça um livro, faça isso no jornal. Agora a experiência de fazer cinema, que é tão ingrata, que você não ganha dinheiro, que é chata pra burro, só tem sentido para mim se é uma coisa que você goste, desse tipo de coisa eu não gosto. Tem gente que adora e faz bem. Um filme que é feito sobre o nazismo etc, isso é um filme jornalístico de um certo sentido, mas com alto nível de pesquisa e tal e interessante, mas não é o tipo de filme que me interessa fazer.
Até que ponto você, como diretor, deve interferir, por exemplo, durante uma entrevista?
Eu tento não interferir. Ou melhor, eu tento… Eu não julgo. Eu não julgo se um cara, uma pessoa que é escrava, que gosta de ser escrava, eu não vou perguntar “mas como?!” Se ela quiser ela dá um discurso do porquê ela gostar de ser escrava. Eu não estou lá para mudar as pessoas, eu estou lá para ver o estado do mundo através das pessoas. A partir da relação que eu vou ter com a pessoa, que é o essencial, na qual tudo pode acontecer, pode haver conflitos ou não conflitos etc. Mas que eu não estou lá a fim de dizer para a pessoa que ela mude de opinião, não. Aliás, a opinião não me interessa. Me interessa que as pessoas tratem de sua vida. A partir de suas vidas, as pessoas vão ter opiniões de direita e esquerda, tanto faz, mas que são viscerais. Eu não estou interessado no conteúdo social da vida da pessoa, eu estou interessado no que a pessoa fala a partir de sua experiência sabendo que, como é memória, toda memória é mentirosa, portanto tem verdade e mentira juntas, isso é inevitável. Não há solução. Ninguém consegue desobstruir a memória, então eu aceito aquilo que é exagero. Como sabe se o sentimento é verdadeiro ou não? Sabe, “eu gostei de um cara.” Eu sei lá se gostou ou não, ela conta a história do romance dela, é um segredo. Porque são pessoas comuns. Se eu fosse entrevistar o Napoleão não ia entrevistar sobre a vida dele, o interessante é a política dele. Quer falar sobre um político, faça um livro.
Por que você começou a fazer documentário tão tarde na vida? Acho interessante que não foi na faculdade que você entrou nesse caminho. Você começou fazendo Direito, não foi?
Comecei por Direito porque era o que se fazia. Direito, Engenharia, Medicina. Mas enfim, larguei, fui trabalhar em jornalismo, depois fiz um curso de cinema e passei a fazer cinema. Agora, ninguém podia pensar em fazer documentário no Brasil nos anos 1960. Nem cinema! Quanto mais documentário. Longa metragem? Isso não existia. Som direto ia começar ainda e tal. E daí fui fazer ficção até o final dos anos 70. Fiz um filme interrompido que tinha um lado documental, mas que ao mesmo tempo eram camponeses e atores. E daí eu parei, fui fazer televisão teve o golpe de estado tal, tal, tal. Eu larguei o cinema durante dez anos e voltei para fazer o Cabra [Marcado para Morrer] onde eu fiz um trabalho de História, de jornalismo, de cinema, tudo misturado. Cabra tem tudo isso. Cabra tem tudo, pesquisei como um filho da puta. Trabalhei muito antes de fazer o filme. Sobre a história dos camponeses, pra saber que perguntas que eu devia fazer. Nos filmes que eu fiz nos últimos dez anos e tal, não faço pesquisa, não tem que fazer pesquisa. Eu vou filmar num lixo e simplesmente vou ao lixo conversar com as pessoas. Isso é bom ou ruim? Você tem que perguntar pra uma pessoa que tá lá no lixo, isso é bom ou ruim? Porque eu sei que tem aquilo e tem coisa pior que aquilo.
Em Boca do Lixo, você se surpreendeu com o que as pessoas falaram nos depoimentos?
Não há coisa mais degradante do mundo do que o cara ser filmado catando o lixo. E tive a reação deles e aí eu dizia ‘e por que?’ E depois eles diziam os motivos pelos quais trabalham no lixo. Motivos até econômicos, entende? Enfim, eu tentei ouvir o lado deles. Ninguém diz aqui é bom, mas muitos dizem “não, mas aqui eu alimentei meus filhos, eu conheci amigos”, por exemplo. O cara de esquerda supõe que aquilo dali é horrível, que a culpa é do governo, que a culpa é do capitalismo. Acontece que eu fui lá aberto e ouvi gente dizendo: “Eu prefiro isso do que ser empregada”. Tá aí um troço novo. Porque o cara nas condições terríveis do lixo, pelo menos ele é autônomo, ele não tem patrão. Alienado ou não, o cara julga um triunfo ele não ter um patrão. No Brasil inteiro deve ter um milhão de pessoas que vivem na rua vendendo coisas. E essa noção de liberdade, se é falsa ou não, não importa. O cara no lixo diz: “Olha eu trabalho aqui, agora sábado eu não venho. Sábado eu faço feira, não sei o que.” Não ter um patrão. Para quem tem herança de escravidão é um troço essencial. Tudo no Brasil está ligado ao troço da escravidão. Isso pesa muito, entende? O horror ao trabalho é um troço que vem dos 350 anos de escravidão.
Pulando um pouco, o filme que me introduziu ao seu trabalho, foi o Edifício Master
É onde eu já estou num outro caminho, em que eu não quero dizer que aquilo ali é o inferno ou o paraíso. Eu quero simplesmente tentar ver como as pessoas vivem aquilo. Porque como eu não vivo aquilo, se eu tivesse a minha idade e tivesse morando lá eu dizia ‘pô, fim de linha, que fracasso’. Depende, as pessoas que eu encontrei lá, tem um aposentado que esteve nos Estados Unidos, tem pessoas de classe média que estão lá um período da vida que depois saíram de lá e também foram para Alemanha, o cacete. Tem de tudo lá: classe média baixa, média e meia média. Entende? Então o que me interessava era conhecer isso, o que é viver naquela cidade. Paris, Moscou, Nova York, é tudo igual. Você encontra a mesma solidão. Um cara que mora numa quitinete e que morre, dez dias depois alguém encontra pelo cheiro porque era solitário. Se encontra aqui, se encontra em Nova York, se encontra em todo lugar.
Inclusive a minha tia avô ela mora em um edifício igualzinho a esse...
Em Copacabana?
Em Copacabana!
A maior porcentagem de idosos no Brasil é em Copacabana: tem 15% de idosos. A razão é muito simples. Tem tudo lá: prostituição, crime, tal. Mas é um bairro que tem muita vida, tem comércio, tudo é perto. É muito melhor morar em Copacabana do que no centro da cidade que não tem nada. E a praia está perto então o velhinho vai lá e passeia. Então morar em Copacabana, hoje, para aquelas pessoas foi um ganho. É uma coisa interessante com todos os problemas que tem.
Eu li uma entrevista em que você dizia que, quando você começou a fazer o Edifício Master, sentia medo de não desenvolver uma história boa porque era um bairro de classe média.
Isso aí é porque as pessoas se defendem. Você vai lá na favela e todo mundo está disposto a falar, eles têm eloquência, têm beleza na fala, têm a gíria. Cem anos de cultura em favela. A favela é um troço orgânico e forte em comparação com o asfalto. O exterior/interior não existe, você está andando e da janela alguém te chama pra entrar, entende? Eles têm consciência que tem o ‘nós da favela’ e tem o ‘nós do asfalto’. Isso está ligado, porque eles vivem a vida do asfalto também, vão à praia e tal mas eles tem consciência do ‘nós’ favelados. Num prédio, ninguém fala ‘nós’. A diferença é essa. Como é que eu vou dizer ‘nós do meu prédio’? Eu moro num prédio normal- 30 apartamentos, 35, sei lá. Mas não vou dizer ‘nós’. Nem conheço quem mora lá, nem quero conhecer ninguém. As pessoas na favela se conhecem todas, é um outro tipo de vida. Tem esse lado positivo de formar comunidade, de que é uma vida muito aberta. Então quem se mata é quem mora no Master, em favela ninguém se mata. Já ouviu falar em algum suicídio em favela? Eu nunca vi. É impressionante, não sei se tem estudo sobre isso, mas eu não conheço caso. Um mata o outro, droga é outra coisa porque o cara é viciado, dependente e guerra do tráfico é outra coisa. Mas suicídio mesmo, sem razão ou por depressão, é difícil.
Então por isso eles [os personagens de Master] falavam pouco, eles riam pouco, tinham pouca riqueza vocabular. Em termos de experiência de vida também não era tão forte. É por isso que tem 37 personagens – eu tinha que ter quantidade porque eu sabia que não ia ter personagens maravilhosos como tive em outros filmes que podiam ocupar dez minutos. Tem 37 pessoas no filme e acho que nenhum chega a cinco seis minutos. Pessoas que entram por três, quatro minutos. Mas em compensação é 1 hora e 50 minutos de gente falando.
Quando te veio essa ideia de botar só gente falando?
Isso foi desde que eu voltei a fazer cinema com Santo Forte. Fui fazer um filme sobre religião mas não queria botar culto nenhum, queria botar gente falando sobre religião. Daí eu fiz, acabei filmando também culto, mas acabei tirando e jogando fora. Depois de longas experiências arrumando e montando, tirei praticamente tudo, mas ainda tem imagens. E eu fui reduzindo e atualmente tem um filme que não tem imagem nenhuma. Só tem um preto e tem uma pessoa que fala ou canta. E é chegar no limite. Filme que só tem pessoas falando como Jogo de Cena. O próximo vai ser pior ainda, só tem uma pessoa que fala, um corpo falando. Então atrás você não tem que distrair, mostrar fotografia do filho, do neto. “Meu filho morreu”, pronto, conta a história do filho. A pessoa imagina, não preciso da foto do filho. Se é dito, a imagem é totalmente desnecessária no caso dos filmes que eu faço. Eu trabalho com cinema que se baseia na palavra. Por isso é muito difícil vender pra fora. Nunca vendeu. Quem não entende português é difícil, a legenda passa 60 %. Então é difícil porque meus filmes não vendem.
Você acha que vocês documentaristas são heroicos?
Não, não, não, não. A palavra herói não existe. Vítima e herói: não existe. Não tem coitadinho. Sabe o pobre, o coitadinho, como são feito os filmes. “Ah o coitadinho do pobre!” Eu não fui no lixo para tratar de vítima, senão acaba a relação. Eu vou tratar ele de igual pra igual na medida que é possível. Eu quero conhecer a sua razão. As minhas razões para estar aqui eu sei – eu posso, eu quero. Agora quais são as suas? Cada um tem suas razões para estar em algum lugar para fazer alguma coisa. Isso que eu quero descobrir. Então a razão do outro me interessa. Tentar estar no lugar do outro é a chave da questão. É impossível, mas tem que tentar, e nesse confronto de tentar entender o outro sai um diálogo que é improvisado, que é inventado, porque você inventa também quando fala. E não importa, se inventa bem, é verdade. Se é bem inventado, é verdadeiro e ponto final. “Eu fui feliz”, sei lá se é verdade. Tá dizendo! Pode ser que daqui um ano diga outra coisa. Entendeu? Tem que ser inventado com verdade. Quem inventa mal tá fora!
O documentário já existe à margem do cinema brasileiro. E os filmes estrangeiros dominam o mercado brasileiro então…
Tem o Cinema Novo, tem o cinema brasileiro sério que sempre foi marginal e vai continuar a ser. Tem Globo Filmes e tal, as exceções, mas é 15 % do mercado. O cinema brasileiro em geral é marginal no mercado. Calcule os filmes sérios que tem alguma dimensão estética, o que seja, social, o que seja. São filmes que se tiver 30, 50 mil espectadores já é extraordinário. No mundo todo o documentário é um lixo pequeno. Pensa que na França é diferente? Passou um filme que tem 100 mil espectadores e é extraordinário, é uma festa. Na França! Entende? As pessoas vão ao cinema para ver histórias inventadas com atores. Baseadas em fatos reais ou não, mas simplesmente vão para o cinema sonhar. Sempre foi assim. E agora é sonhar em 3D. E aumentou até o nível de diferença de um cinema para o outro. Não dá pra competir com os filmes 3D americanos. Não tem como o brasileiro fazer isso. Agora daí, de repente, pega essa esquema de novela e tal e faz o filme. São exceções. Mas o conjunto do cinema, o cinema brasileiro foi, é, e será sempre marginal. O próprio cinema vai passar a ocupar um lugar marginal. As pessoas vão ver filme aonde? Até em celular. Entendeu? Então o ato social de ver filme vai ficar menor, vai ficar como teatro. Ou então filmes que exigem telas gigantescas IMAX, sei lá. Os caras vão ver lá, vão ver esse tipo de cinema.
Voltando ao Cabra. Você disse antes que você não tem uma intenção politica com seus filmes. Você diria que nesse filme você teve alguma intenção politica?
Não tem intenção política na medida que a palavra política é equivocada. Todo filme é político. Mas eu estou interessado no social, não no político. Como é que uma sociedade existe? Por que o Brasil é como é? Por que as pessoas são como são? Primeiro, você tem que saber como as coisas são para depois se quiser mudar. No Cabra, eu estava fazendo uma coisa que é diferente porque o Cabra tinha um ato político de fazer o filme, porque tinha história envolvida no filme. Isto é: minha vida parou com o filme. Esse é o fantasma. Como parou a vida dos camponeses. Então apresentou para mim uma dimensão psicológica, é realmente um filme de um caráter politico mas a partir de uma coisa pessoal também. Peões, não. Qualquer cara pode filmar a greve dos operários. Eu fui e fiz um filme lá, mas não tem nada ver com Cabra.
Por isso você quis que o enfoque do peões fossem nos metalúrgicos em vez de políticos?
Tem uma divisão né? Tem a história do Lula e o João [Moreira Salles] estava interessado e eu não, até pelo fato de que é o tipo de filme que tem que negociar cada dia o que filmar etc. Tinha que pedir ajuda ao sindicato foi muito trabalhoso, muito penoso. Cem mil sindicalistas. E eu tinha que achar gente que o sindicato queria e encontrar gente que dissesse coisas que não fossem evidentes. Então teve uma limitação. Não faço mais filme politico, histórico. Em princípio não faço mais.
O Peões deve ter sido difícil porque você estava pegando uma região inteira não era como o Master que você ficou num prédio só…
Esse é o problema, ficou um negócio amplo demais. Só se eu ficasse um ano fazendo pesquisa que era impossível. A prisão espacial é essencial para mim. Eu preciso ter uma prisão espacial e naquela prisão eu sou inteiramente livre. Essa pobreza espacial é essencial pra eu não procurar ideologicamente aquele cara interessante. Não, nesse prédio eu tenho que achar um filme. Todos os filmes que eu filmo a regra é essa: num lugar tem que achar um filme. Até agora pelo menos tenho achado uns filmes que não são iguais. Mas são sempre num lugar só. Tirando Peões, todos os filmes que eu fiz recentemente são num lugar só. Numa vila que tem 80 famílias, num canto de lixo, num teatro de gente que responde a um anúncio. Se eu não pedir nada para a pessoa fazer e conversar meia hora com ela, ninguém mais controla se está filmando ou se não está. Não tem como conversar meia hora e a pessoa ficar engessada. Ou fica e sai do filme.
Igual àquele momento no Peões que o rapaz está falando e a esposa não quer participar, ela fala mas não quer aparecer.
Isso é extraordinário! Justamente houve uma briga porque o fotógrafo queria que minha assistente filmasse ela. Eu não quis e ela teve razão de não ter filmado porque o que me interessava era ela fora [de cena]. Ela sai da filmagem, portanto contra, daí ela às vezes dava palpite. Foi maravilhoso. Quem está no campo, quem está fora do campo isso é essencial. Ao lado estava o filho deles que é débil mental. Então tinha, a meio metro do quadro, no sofá, um filho de vinte anos completamente nervoso que gemia. Eu até perdi uma sequência interessante porque entrava o gemido do cara. Você filmando e tinha o cara aqui, a mulher aqui atrás e aqui do lado do sofá o filho gemendo. Não é que ele está com dor,  o cara tem problemas gravíssimos. E você filma e…pra eles é normal, eles vivem com aquele filho, então é normal pra mim, e vamos filmar.
A sua infância teve alguma coisa a ver com seu envolvimento no cinema mais tarde?
Não, eu era cinéfilo, uma pessoa que via filme. Ser cinéfilo é assistir três filmes por dia, anotar no caderno. Quando eu tinha dez anos eu fazia isso. Agora era impossível pensar no cinema brasileiro. Eu vi nove vezes uma chanchada, Carnaval no fogo. O que eu via de cinema brasileiro era chanchada, carnaval. Isso até 1951, 52. Fora isso eu via cinema americano, depois argentino, mexicano. Depois neorrealismo, até que eu fui estudar cinema e passei a me interessar. Mas isso de fazer cinema foi um passo gigantesco que só foi possível depois que eu voltei da Europa em 1960, 61 quando o Cinema Novo começou a nascer e se tornou possível fazer cinema no Brasil. De uma forma marginal, mas de qualquer maneira uma tentativa de ver o Brasil que não tinha aparecido no cinema brasileiro de antes. E fora da chanchada que realmente já não precisava mais porque com a chegada da televisão a chanchada não tinha mais mercado.
Se o Brasil não fosse não atrasado naquela época teria sido possível você entrar antes no ramo do cinema?
Isso não sei. Antes do Cabra, em que eu já tinha uns 40 anos, tudo que eu fizesse não tinha importância. Só quando eu fui filmar o Cabra que eu me libertei. Tudo que eu fiz antes não importa porque eu não sabia o que eu queria da vida. Quando eu fui fazer o Cabra, eu sabia o que queria fazer. Trabalhei cinco, seis anos, pesquisa, filmagem e fiz um filme à altura do que tinha sido a história. Depois fiquei 15 anos praticamente sem fazer filme até fazer o Santo Forte.
Se o Santo Forte não tivesse tido tanto êxito…
Se não fosse a produção do Santo Forte, eu tava morto. Se a repercussão crítica fosse ruim ou ninguém fosse ver, é possível que eu desistisse. Mas a verdade é que eu confiava, sempre confiei no filme falado que era como era e tal. Meus amigos diziam que era impossível, que ninguém ia aguentar. Todos os meus amigos, todos. Tirando uma pessoa da equipe, todos. “Não, é impossível, é uma tortura etc.” Mas foi gravado, foi aceito e foi maravilhoso. O documentário teve cinco prêmios e o público foi de 18 mil pessoas, o que até hoje é difícil fazer, e a crítica foi maravilhosa. Pensei “ Pô, achei, finalmente achei e eu quero continuar a fazer isso” e fiz e não parei de filmar de lá pra cá.
Tem documentário que mostra um caso isolado, por exemplo, de uma criança  pobre que trabalha nas minas da Bolívia e você como espectador se sente muito deprimido e culpado. Mas quando você sai dali você não sente continuidade…
Tem um monte de filmes que se aproximam do outro. Quem é o outro? O outro é o pobre miserável. O cara com defeito físico, o destituído tal, tal. E quem filma geralmente é uma pessoa de classe média, mesmo que com origem proletária. E tem a mania, americano adora isso, de tratar de forma paternalista. E daí o povo adora e chora e sente culpa. Isso é coisa que eu me recuso a fazer. Isso é uma coisa proibida em meu dicionário. Michael Moore, tem uma hora que ele abraça uma mulher lá que foi vítima, pra que ir lá e abraçar? Você tem que guardar distância da pessoa, não tem que consolar ninguém. Ou se consola, faz isso fora do filme. Então existe o “humanismo” entre aspas, que os americanos adoram, que é filmar o pobre. O cinema humanitário é o pior cinema do mundo. O humanitário ou de mensagem. Al Gore, ou então, mensagem. E a outra coisa de americano é essa: se é um filme sobre negra e lésbica tem que ser filmado por negra e lésbica. Sabe? Iguais filmam iguais. Quando a minha tese é outra: negro tem que filmar branco e camponês tem que filmar negro e tem que trocar. Índio tem que começar a filmar branco e branco…sabe? Nada impede que branco filme índio. Precisa dos dois lados, um do lado de dentro, um de fora. Não tem sentido que um filme sobre metalúrgico só pode ser feito por metalúrgico. Isso é uma tolice. O multiculturalismo que botou isso na cabeça. Então pra filmar uma lésbica eu tenho que ser lésbica? É o mesmo do mesmo, entende? Não há conflito. Não vou ao cinema para ser educado, pra aprender o bem. Odeio esse tipo de coisa tipicamente americana.
Eles colocam aquela narração em off que é uma voz assim divina falando…
Quando tem voz em off é pra tratar da pobre vítima da crueldade, os mineiros da Bolívia. E tratam de um jeito que é pra fazer o cara ter culpa, chorar.  Não estou fazendo filme pra ONG, pra arranjar dinheiro. Eu fiz o filme sobre o lixo, ninguém me deu dinheiro pra terminar. Pra começar sim, pra terminar foi difícil. Por quê? Porque se eu dissesse que era pra promover um sindicato, eu ganhava. Se fosse catador que queria fazer um sindicato. Porque esses são os filmes que são politicamente corretos. Como meu filme não era, era o cotidiano dos catadores só, ninguém deu dinheiro.
De todos os seus filmes, qual abriu mais portas para você?
Eu me identifiquei com o Cabra. Se não fosse pelo Cabra estava na televisão, TV Globo até hoje, eu estava morto. Fora o Cabra, foi o Santo Forte. Agora, prazer tive em quase todos. Se eu não tivesse prazer eu não fazia. Não sou missionário.
Você acha que Cabra não seria um filme tão bom se não tivesse sido retomado anos depois?
Evidente. Teria sido um documento de época importante mas o filme é um filme com 70 camadas de sentido histórico. É uma revisão da história do Cinema Novo, do cinema brasileiro que inclui tudo: jornalismo, história, cinema, linguagem. Exatamente porque é um filme que conta a história do filme, cinema e história todo tempo, lado a lado. É extraordinário que eu consegui, porque eu soube fazer, tive um montador que me ajudou, tive um fotógrafo que me ajudou a fazer. Enfim, é um filme que aguenta até hoje porque ele não é um filme triunfalista. Ele lida com uma verdade do personagem e não com discurso. Os filmes em geral políticos são triunfalistas, tomamos o poder. Mentira. Jamais faria um filme assim. Quando se ganha se perde também porque dura dez anos. E esse é um filme muito chão, muito simples. Cabra tem dispositivos de montagem extraordinários, tem jornal, manchete, o filme antigo, o filme que eu filmei na UNE, filmes de outras pessoas. Tem filme americano que eu roubei pra usar a imagem, que não paguei, graças a Deus. E a aventura foi essa.
Por que você acha que mudou tanto sua visão entre o primeiro e o segundo filme?
Eu comecei a fazer documentário na TV Globo e eu comecei a descobrir que era aquilo que eu queria fazer. Aí foi uma escola pra fazer o Cabra porque a rapidez que se trabalha em televisão me ajudou a fazer isso depois de uma forma muito mais refinada. Então me ajudou, me educando e me deseducando. Cabra é um filme de suspense porque eu também não sabia o que eu ia encontrar. Quando fui filmar [pela segunda vez] eu não via a Elizabeth [personagem de Cabra] há 17 anos, exatamente o tanto de tempo quanto o espectador… Fui encontrar 17 anos depois, conhecer os filhos. Conheci eles quando filmei eles em 1962, 64 e fui lá ver eles 17, 18 anos depois como está no filme. Eu tinha que chegar filmando.(Com o Brasil de Fato)

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

(VIDEO) Lançamento do livro Obamicídio no Programa Kapitan Underground



Kapitän Underground (Nº10) - Banda Native In Black E entrevista Com Daniel Oliveira e Hallisson Nunes Gomes,escritores, poetas. Toda segunda-feira ao vivo,ás 20 horas realizado em Belo Horizonte/MG-Brasil

sábado, 18 de janeiro de 2014

Do Fetiche da Mercadoria ao Fetiche da Tecnologia e das Redes Sociais

Sem dúvida não podemos ser contra o avanço da tecnologia, do avanço da ciência no mundo. Aqui no continente Americano não vai retornar o modo de vida dos povos nativos da época da conquista colonial, não tem volta, a questão é enfrentar o problema hoje.

Sem dúvida a internet, as redes sociais facilitam as comunicações, aproximam as pessoas, encurta a distância e as informações chegam mais rápidas. Porém não vamos acreditar e endeusar que a internet e as redes sociais são a solução para todos os nossos problemas. Para achar que basta um click que basta uma nota no facebook que as pessoas vão se mobilizar para que os problemas sejam resolvidos. Para que a sociedade se movimente é preciso gente (homens e mulheres) de carne e osso para a classe trabalhadora entre em ação, para fazer greves, ocupações, manifestações etc. A vida tem demonstrado isto, foram as ações das massas que tem arrancado algumas vitórias frente ao Estado Burguês.
O crescimento sem planejamento das Cidades no Brasil não é uma novidade das sociedades de classes ela é prática constante do capitalismo. O progresso promovido pelo grande capital trás consigo problemas graves como a desigualdade sócio-econômicas gerando desagregação do tecido social é quando surgem bairros melhor equipado com bons serviços de infra-estrutura voltados para as classes mais abastardas, de outro surgem bairro populares sem um mínimo de dignidade sem um mínimo de assistência ou serviços onde vão morar as classes trabalhadoras, onde a violência é prática rotineira no cotidiano de jovens destas classes onde estes jovens vão ver, sentir como prática comum a violência entre a polícia e grupos marginais gerados por esta mesma sociedade, onde muitos jovens oriundos destas camadas mais pobres enxergam no crime a ilusão da ascensão social e acesso ao consumo alienado promovido pelo bombardeio da mídia burguesa ao serem assassinados no dia seguinte já vai outro para tomar o seu lugar em um eterno ciclo vicioso, onde tantos policiais quanto os soldadinhos do tráfico são apenas a engrenagem de todo um sistema dominante que busca manter os trabalhadores desorganizados e alienados na própria periferia, confirmando na prática o que Engels já falava quando o observa a vida do Operário Inglês: “Só resta algumas coisas ao proletariado, o se organiza para lutar ou então se aliena na exploração aceitando passivamente ser explorados ou então cai no lupenproletariado para ser preso ou assassinado pela Policia”.
Outro problema para os jovens na periferia e nas grandes cidades tem sido o crescimento da frota de automóveis que tem provocado muitas mortes principalmente de jovens. Este crescimento do número de automóveis não tem permitido as crianças brincar nas ruas as pessoas não interage nas ruas ou calçadas obrigando as crianças a crescer como prisioneiras do medo.
O acesso rápido aos bens de consumo nas classes populares cria uma ilusão de ascensão social. Hoje muitos assalariados, autônomos passaram a adquirir os serviços de internet, TV a Cabo, telefones fixos, telefones celulares, tablet e outros objetos. Isto tem facilitado estas pessoas de baixa renda poder ver notícias, poder pesquisar, isto por um lado, por outro pode gerar um novo tipo de alienação que é a distancia entre as pessoas, justamente por vivermos no capitalismo.
Este endeusamento da tecnologia das redes sociais tem tirado das crianças a criatividade, muitas crianças criavam brinquedos como carrinhos de rolimã, riscar uma caixa de sapato ou remédio para fazer ônibus, lata de leite para fazer o pé de cavalo, garrafa de água sanitária para fazer carros, caixas de fósforo para fazer telefone, todos queimavam calorias, pular corda, improvisar um golzinho na rua, visitar um colega, tudo isso fazia parte da integração entre as pessoas, hoje com as redes sociais as crianças ficam horas no computador ou tablet comendo porcarias (besteiras industrializadas) não se queima calorias. Estas crianças crescem sem ler um bom livro, muitos país, tios, avós e primos mais velhos para não ter problemas simplesmente deixa passar para não parecer careta, não ser impopular, chato, simplesmente deixa passar. Se não tem um computar em casa vai a uma lan-house para ver pornografia, jogos violentos com o que há de pior da cultura violenta Estadunidense onde o mote é a violência banal. O resultado já está assistido, jovens que se atrasam nos estudos, dormem durante as aulas e não querem ouvir um NÃO achando que o mundo é perfeito e bonitinho.
Já não bastava a alienação das crianças e dos jovens nas redes sociais, hoje muitos adultos já estão totalmente alienados e dependentes das redes sociais não podemos esquecer que vivemos em uma sociedade capitalista, quem dirige a fábrica dos computadores, quem cria as redes sociais também tem os seus interesses ideológicos na manutenção desta ordem burguesa de que continue as relações de produção capitalista.
Se o século XX foi marcado por conquistas históricas para as classes trabalhadoras, hoje o capitalismo estar vivendo uma de suas maiores crises, ainda não estamos vivendo um Ascenso dos trabalhadores como foi no século passado quando tivemos a Revolução Socialista na Rússia em 1917, a formação do sistema mundial do Socialismo onde as burguesias foram obrigadas a conceder direitos aos trabalhadores em todo o mundo, direitos hoje ameaçados.
Hoje é a grande contradição temos um avanço tecnológico, que poderia ser colocado para reduzir a jornada de trabalho, criar novos empregos, aumento o tempo para o lazer, estudo e a convivência humana substituindo esta correria louca de nossos dias.
Hoje estamos vivendo o contrário, aparelhos eletrônicos são criados não só para facilitar a vida mais também para aprisionar as pessoas ao trabalho. Dependendo da profissão estes aparelhos tornam-se uma escravidão mesmo após o horário de trabalho, nas horas de folga o celular, tablet, laptop fica aporrinhando gerando pressão não relaxando nas horas de folgas. Antes quando você se reunia em família, quando você visitava um tio, um tio avô, um primo de primeiro, segundo, terceiro grau, todos participavam da conversa (do papo), gerando aquela bela convivência que deixa saudade em qualquer um. Hoje em certas famílias cada um vai para um canto no seu mundinho no celular, tablet, computador e em algumas famílias as crianças e jovens não aprendem noções básicas como dar um bom dia, boa tarde ou boa noite, outros entram ou sai de uma casa pior do que um bicho por que o bicho esta mais educado que certas pessoas, isto se reflete nos transportes coletivos com todos usando fone no ouvido para acelerar o processo de surdes para depois no fim da vida se perguntar por que ficou surdo. As novas gerações estão perdendo a tradição de ouvir uma notícia no rádio, muitos não para ler um jornal ou ver um programa de entrevista, prefere ficar nas redes sociais postando um monte de bobeiras e coisas sem sentidos.
Hoje nossas vidas esta sendo tão corrida que não temos tempo para visitar um amigo e parente. Nasce um primo novo de segundo ou terceiro grau, ou filho de um amigo não temos tempo para visitar posta no face, as pessoas não se dar conta disto porque nada melhor do que o contato cara a cara ou como diz um programa de humor o famoso cara crachá, o resultado disto já sabemos surge pessoas egoístas voltadas para seus mundinhos particulares adestradas por jogos eletrônicos, com comportamento anti-social que vão lotar os consultórios de psiquiatras, psicólogos e psicanalistas.
Assim como não devemos cair no fetiche da mercadoria, não devemos cair no vício de ficar horas nas redes sociais, nem ficar enfeitiçado com a tecnologia pois nada pode substituir a criatividade e o contato humano e a solidariedade entre as pessoas.
Precisamos estar atentos a capacidade de manipulação do sistema capitalista, usar as redes sociais a nosso favor com os pés no chão sem a ilusão de que elas por si só vá garantir a contra-hegemonia da classe da trabalhadora, devemos ser firmes para superar os novos desafios e buscar novas formulas de organização e luta do ponto de vista da dialética para apontar os rumos e os caminhos da construção da revolução socialista no Brasil.

José Renato André Rodrigues
Professor de Filosofia
Comitê Central do PCB



quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Poesia passada

o passado parece moído
como carne de segunda,
como parte não gostosa,
fragmentos indesejados
pelos comedores de filet mignon.

o pretérito imperfeito
avulta ao que erroneamente chamam de perfeito,
que determina uma ação acabada.
que ação está acabada?
nostálgica sensação do inacabado passado.

quantos outros desvios
tinha o labirinto de Ateneu?
quantos caminhos singulares surgiriam
num passo mal dado?
que caminho esqueceu na infância
o pobre casal cansado do amor?
outras respostas surgiriam
dos desvios não escolhidos.

sinto moído o passado
num engenho desativado.

são os pedaços miúdos
do passado e do presente que passou
ou acaba de passar.

posso sentir o passado diferente em poucas horas
porque o que passou ainda se move
no ritmo do relógio ainda sem corda.

Otávio Dutra

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Na Serra Tem Veneno - [MiniDoc Completo]



Mini-documentário produzido por Miguel Santos e Fábio FG, contando um pouco sobre o movimento de música rap que acontece em uma das cidades da serra carioca: Nova Friburgo.

#AgoraÉSério Provocações&Produções
NaSerraTemVeneno

Sobre o autor

Olá
Me chamo Fábio FG, sou rapper, produtor cultural e produtor musical em minha cidade, Nova Friburgo - RJ.
Trabalho com o rap, promovendo diversas intervenções, rodas culturais, eventos etc.
No dia 12 de Janeiro de 2014 nós lançamos nosso primeiro Mini documentário, o "Na Serra Tem Veneno"
que mostra um pouco do cenário aqui de minha cidade, mostrando depoimento de vários rappers que fazem o movimento hip hop, por aqui, acontecer.
Espero que goste, em baixo está o link do Youtube para assisti-lo na íntegra.
Pode me responder por este mesmo e-mail ou me adicionar no facebook:
Ou acesse o meu site: http://www.fabiofg.com.br

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Revista denuncia abuso de policial contra artista

Figura muito conhecida nas ruas de Belo Horizonte, o artista Celton decidiu fazer uma edição diferente, mas que conta uma história real, na qual ele se sentiu humilhado com a suposta atuação autoritária de um policial militar. Quase três anos após o incidente, Lacarmélio Alfêo de Araújo colocou em circulação a “Edição de Indignação”, contando a história de um PM que o teria intimidado em público e, segundo ele, o prendeu sem nenhum motivo aparente.
Lançada no fim de 2013, a edição número 30 da revista “Celton” custa R$ 2,50 e está sendo vendida pelo quadrinista em vários sinais de trânsito. O fato aconteceu em abril de 2011 e, conforme Araújo, fez com que boatos de que ele teria assaltado uma farmácia começassem a circular na cidade. Isso foi o que o motivou a contar a história. “Foi para limpar o meu nome que decidi fazer essa revista”, revela.

A confusão. Nesta edição, ele conta que estava vendendo suas revistas no cruzamento das avenidas Raja Gabaglia e Barão Homem de Melo, no Bairro Estoril, na região Oeste da capital, quando foi surpreendido por um motorista, gritando para que ele saísse do local. “Já estou acostumado com pessoas nervosas no trânsito e, por isso, o ignorei, até porque não percebi que era militar, pois estava em seu carro pessoal.”

Em seguida, o motorista teria parado o carro em frente a um ponto comercial. E, segundo Araújo, “gritando e muito exaltado”, ordenou que ele fosse até lá. Com a intenção de prender o artista, o militar chamou viaturas e o quadrinista chegou a ser algemado e colocado em um camburão.

Depois de interferência de testemunhas e de muita discussão, a polícia liberou o artista, que chegou a fazer uma denúncia contra o policial para a corregedoria da PM. O tenente-coronel Alberto Luiz, chefe da assessoria de Comunicação da PM, explicou que a corregedoria instaura um inquérito para apurar o caso e tomar as devidas providências, caso seja provado que houve abuso por parte do policial. Além disso, ele disse que é obrigação da polícia entrar em contato com a vítima e dar uma resposta sobre o andamento do processo. Ele não soube precisar qual é o andamento dessa investigação.

Biografia
- Lacarmélio Alfêo de Araújo nasceu em Inhapim, na Zona da Mata. Em 1972, se mudou para a capital.

- Criou o personagem “Celton” em 1975, e vendia a revista enquanto trabalhava como engraxate. Depois de conseguir um empréstimo, “Celton” foi publicada pela 1ª vez em agosto de 1981.

- Em 1990, foi para os Estados Unidos e juntou dinheiro cantando música dos Beatles no metrô. Em 1998, a revista voltou para as ruas e até hoje é vendida em sinais pela capital mineira.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

TSJ ordenó la inmediata libertad de “Julián Conrado”, el “cantante” de las Farc












(Caracas, 9 de enero – Nota de prensa).- La Sala de Casación Penal del Tribunal Supremo de Justicia, en ponencia conjunta, declaró desistida la extradición pasiva en contra del ciudadano de nacionalidad colombiana Guillermo Enrique Torres Cueter -alias Julián Conrado-, en virtud de que Colombia dispuso retirar y cancelar las solicitudes de extradición requeridas a Venezuela.
En vista de lo anterior, la Sala del Alto Juzgado venezolano ordenó el levantamiento de la medida judicial privativa preventiva de libertad dictada contra el mencionado ciudadano por el Juzgado Vigésimo Sexto de Primera Instancia en Funciones de Control del Circuito Judicial Penal del Área Metropolitana de Caracas. Asimismo la Sala del TSJ ordenó su inmediata libertad y se libre la correspondiente boleta de excarcelación.
Este ciudadano se encontraba preventivamente a las órdenes del mencionado tribunal mientras se recibían los argumentos del Gobierno colombiano que avalaban la extradición pasiva requerida, por la comisión de los delitos de desaparición forzada de personas y reclutamiento ilícito. Posteriormente se recibió otra petición de extradición por parte de Colombia por los delitos de secuestro extorsivo agravado, desaparición forzada y tortura en persona protegida.
Sin embargo, el 26 de diciembre de 2013, el Viceministro de Asuntos Multilaterales y Encargado de las Funciones del Despacho de la Ministra de Relaciones Exteriores de la República de Colombia, Carlos Arturo Morales López, mediante Nota Verbal DM.DIAJI N° 2845 comunicó a la cancillería venezolana la decisión de la República colombiana de “retirar y cancelar, con carácter inmediato, las solicitudes de extradición presentadas respecto del señor Guillermo Enrique Torres Cueter, alias Julián Conrado”.
En la misma fecha el canciller venezolano, Elías Jaua Milano, envió una misiva a la presidenta del Tribunal Supremo de Justicia, magistrada Gladys María Gutiérrez Alvarado, en la que informó que el Gobierno de Colombia decidió retirar la solicitud de extradición hecha sobre Guillermo Enrique Torres Cueter, para que en consecuencia se actúe en el ámbito de sus competencias.
Al respecto la Sala de Casación Penal del TSJ precisó en su decisión que “al ser retirada y cancelada la solicitud formal de extradición por parte de la República de Colombia, lo ajustado a Derecho y procedente es declarar desistida la solicitud de extradición pasiva, iniciada con motivo de la petición realizada por la Fiscalía Vigésima del Ministerio Público a Nivel Nacional con Competencia Plena, en contra del ciudadano Guillermo Enrique Torres Cueter”.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

É noite, tudo se sabe! II

À noite é que me dispo
De duras verdades
E de mentiras palatáveis.

À noite, a realidade crua
grita aos meus olhos
E no espaço vazio da minha cama
a solidão é quem arde!

Lençóis, fronhas, coberta e travesseiros
Testemunham que enquanto um ciclo se fecha,
Nem sempre outro se ciclo se abre.

Que a vida individual não faz sentido,
como não faz sentido a dor
que em meu peito individual agora bate!

Por isso que à noite eu não durmo,
eu só me consumo,
e em algum momento
vou desistindo...

Rijo,
Brusco e
Tenso,

Mas mesmo assim, suave!


Wagner Farias 

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Militantes do PCB publicam livro de poesias


Os militantes do PCB em Minas Gerais, Daniel Oliveira e Hallisson Nunes Gomes, acabam de publicar o livro OBAMICIDIO, uma coletânea de poesias.

A obra foi editada pela Editora e Livraria Estudos Vermelhos, de responsabilidade do camarada Alex Lombello, com capa baseada em uma pintura do camarada espanhol/brasileiro Magaiver (Alexandre Magno da Cunha Gomes). 
Aguardem os lançamentos que serão promovidos durante o primeiro semestre, em centros culturais, bares, escolas e sindicatos. 

Uma explicação necessária



Diante das atrocidades cometidas pelos Estados Unidos em todo o mundo, o poeta Pablo Neruda não viu outra saída a não ser deitar suas armas contra aquele que encarnou em sua época o manto de Senhor da Guerra: Nixon.
Hoje, nos vemos diante de uma outra conjuntura. O extraordinário desenvolvimento tecnológico, o perene xadrez geopolítico, a destruição dos direitos sociais através da criminalização, e a ameaça às soberanias dos povos através da tática de Guerra Imperialista Estadunidense colocou o mundo em um grau de acirramento elevadíssimo. Nunca o fosso que separa pobres e ricos, trabalhadores e capitalistas, foi tão grande. O pensamento único busca a todo momento não deixar espaço para questionamentos. Seja através de dólares, ou pela sua gigantesca máquina de guerra hi-tech, o capitalismo se impõe atacando o que teme, o que não considera “legítimo”.
Neruda concluiu que apenas com um Nixonicídio poderia por fim a matança e a destruição. Um assassinato, mas não com fósforo branco e agentes laranja. O arsenal do poeta trazia outras cores, vivas, vibrantes, libertas. Cores do Caribe e da Ásia.
O saudoso poeta passou. Sua obra cravada no mundo é um epitáfio em vida para Nixon, que caiu não por ter arquitetado a destruição das luzidias flores que se abriam em todo o mundo, mas por ter prevaricado em casa, espionando a oposição, assim como Obama faz hoje com seu próprio povo.
Obamicídio é uma necessidade histórica. Não se trata de lançar um chamado ao homicídio do patife da Casa Branca, mas explodir em poesia e denúncia o genocídio que eles promovem mundo afora.
Certa vez um nazista, apontando para o quadro Guernica, perguntou a Picasso com ar de desdém se ele realmente tinha feito “aquilo”. Com toda a calma que poderia ter no momento, Picasso respondeu, “eu não, vocês fizeram isso”.
Assim, expomos nosso quadro, Obamicídio. Se perguntarem quem é o autor, basta apenas apontar para a Casa Branca.
Mãos à obra!




Daniel Oliveira & Hallisson N. Gomes
Belo Horizonte, Dezembro de 2013


domingo, 5 de janeiro de 2014

LEVANTE

A chuva cai
A folha
Se levanta

O tempo vai
O homem
Se levanta

Daniel Oliveira e Hallisson Nunes Gomes

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Martelo Palestino

O mundo perplexo assiste
Cenas na televisão
Da mais sangrenta invasão
Contra um povo que resiste
E incansável insiste
Nesta luta de rotina
Contra essa agressão cretina
De hordas imperialistas,
Caiam fora sionistas
Tirem as mãos da Palestina.


Fora os Estados Unidos
Fora os tanques de Israel,
Contra essa agressão cruel
Estaremos prevenidos,
Nessa inseridos,
Lutando como felinos
Cantaremos os seus hinos
Contra opressão do sistema,
Esse agora é nosso tema,
Somos todos palestinos.


Paiva Neves
Fortaleza, 05 de dezembro de 2012.





terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Veja o filme O Capital (Le Capital)






Filme francês dirigido por Costa Gravas.
Drama - 2012
Legenda Português-PT

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Estátuas



Abaixo o mastodonte de granito!
Força, todos juntos,
que as cordas já uivam
asfixiando como um urso
o pedestal.

Pronto! O homem de pedra
estrondeia e se estatela
no meio da praça.

Empunhemos as marretas e os
martelos!
(Foices não! Ainda uma vez não:
enfeites e armadilhas.)

Vamos, espatifem o seu olhar sereno
espicacem o seu vulto solene
sua testa larga, suas orelhas.
Desmoronem e esfrangalhem todos os
dinossauros
e suas cabeças de esclerose.

Dilacerem todas as múmias
e seus catecismos simplórios.
Profanem os altares do socialismo
científico
e todos seus lugares sagrados
pois é a hora dos iconoclastas
e o crepúsculo dos deuses.

Nos pedestais vazios
se quiserem
soergam a altiva Liberdade
com seu facho novaiorquino
e seus raios democráticos.

Sim. Façam tudo isso
mas, ao final, sepultadas as
caricaturas
ao menos por curiosidade,
abram seus livros.

Desvencilhados de monumentos
e fetiches
desacorrentem seu pensamento crítico
derrubem também as comportas
com que cercam em pântano
o fluir de sua dialética,
e a louca paixão pela humanidade.

Então outra vez
companheiro Carlos e Frederico
companheira Rosa e companheiro
Ilitch
serão vocês
perigosos
outra vez.

Humberto Bodra

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Dissidência ou a arte de dissidiar


“Há hora de somar
E hora de dividir.
Há tempo de esperar
E tempo de decidir.
Tempos de resistir.
Tempos de explodir.
Tempo de criar asas, romper as cascas
Porque é tempo de partir.
Partir partido,
Parir futuros,
Partilhar amanheceres
Há tanto tempo esquecidos.
Lá no passado tínhamos um futuro
Lá no futuro tem um presente
Pronto pra nascer
Só esperando você se decidir.
Porque são tempos de decidir,
Dissidiar, dissuadir,
Tempos de dizer
Que não são tempos de esperar
Tempos de dizer:
Não mais em nosso nome!
Se não pode se vestir com nossos sonhos
Não fale em nosso nome.
Não mais construir casas
Para que os ricos morem.
Não mais fazer o pão
Que o explorador come.
Não mais em nosso nome!
Não mais nosso suor, o teu descanso.
Não mais nosso sangue, tua vida.
Não mais nossa miséria, tua riqueza.
Tempos de dizer
Que não são tempos de calar
Diante da injustiça e da mentira.
É tempo de lutar
É tempo de festa, tempo de cantar
As velhas canções e as que ainda vamos inventar.
Tempos de criar, tempos de escolher.
Tempos de plantar os tempos que iremos colher.
É tempo de dar nome aos bois,
De levantar a cabeça
Acima da boiada,
Porque é tempo de tudo ou nada.
É tempo de rebeldia.
São tempos de rebelião.
É tempo de dissidência.
Já é tempo dos corações pularem fora do peito
Em passeata, em multidão
Porque é tempo de dissidência
É tempo de revolução”

Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, presidente da ADUFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor dos livros O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002) e da coletânea de poemas Meta amor fases (Editora Expressão Popular, 2008).

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Palestina


Quero o sorriso que falta no rosto do pequenino
Quero a bola que não rola nos pés desse menino
Eu sou a criança morta na luta
pelo direito à sua terra
Eu sou a mãe que ninguém escuta
que clama e a arma berra
Sou o homem bomba e o recruta
que querem findar a guerra
Sou o grito de todos e de cada um que cala
com mais um dos muitos barulhos de bala
Que entra no peito da palestina
coberta de sangue dor e neblina
Mas ah, quando formos todos palestinos
Africano, Grego e latino
Não haverá bala que cale o hino
O nosso hino
A Internacional
DE PÉ Ó VÍTIMAS DA FOME...

JESSICA NICOLAI

Retrato estilhaçado de um guerrilheiro

Em entrevista ao Correio, o jornalista Mário Magalhães, autor de biografia vencedora do Prêmio Jabuti 2013, fala sobre a grandeza, as contradições e a contribuição de Carlos Marighella para a conquista de direitos no Brasil
Severino Francisco

Durante muitas décadas, o guerrilheiro Carlos Marighella foi um personagem em busca de um autor. Não é mais. O repórter Mário Magalhães, 49, dedicou 9 anos de sua vida (sendo cinco anos e nove meses de trabalho exclusivo) para reconstituir a trajetória aventurosa, apaixonada, acidentada e quixotesca de Marighella. A varredura da pesquisa incluiu entrevistas com 256 pessoas que passaram pela vida do mulato baiano e alcançou arquivos públicos e acervos pessoais. O resultado é um retrato estilhaçado, contraditório, dramático e vivo, registrado em Marighella — O guerrilheiro que incendiou o mundo (Ed. Cia das Letras), livro vencedor do Prêmio Jabuti de 2013 no gênero biografia.

Filho de um italiano e de uma mulata baiana, passional e estrategista, destemido e sentimental, disciplinado e anárquico, cultivador da poesia e autor de manuais sobre a luta armada,  supostamente ateu e consagrado filho de Oxóssi em um terreiro de candomblé, Marighella foi deputado do Partido Comunista Brasileiro e líder da resistência clandestina ao longo de duas ditaduras.  Permaneceu preso durante sete anos e meio dos 57 anos e 11 meses em que viveu.

Mesmo depois da redemocratização do país,  Marighella permanece um personagem maldito e proscrito da história brasileira. Essa imagem sai abalada com esse livro, que restaura a dignidade humana e política do líder comunista. Magalhães mostra o enlace indivisível entre a vida do mulato baiano e as transformações vertiginosas pelas quais o Brasil e o mundo passaram  durante o período de 1930 a 1960. Marighella é um dos protagonistas de lutas que levariam a conquistas essenciais dos cidadãos brasileiros: o 13º salário, o combate à mortalidade infantil, o direito de organização partidária e o direito ao divórcio. A farsa montada pelo regime militar para simular uma reação  armada do guerrilheiro durante tocaia é desconstruída. Ele foi assassinado quando estava desarmado. Nesta entrevista, Mário Magalhães fala sobre as lutas, as contradições e o lugar de  Marighella na história brasileira: "É legítimo amar ou odiar Marighella, mas é impossível ficar indiferente à sua vida fascinante", sustenta Mário.


O que o fascinou em Carlos Mariguella para dedicar nove anos de sua vida em pesquisas e escrever um livro de mais de 700 páginas. Ele permanece um personagem maldito?
Marighella continua sendo um personagem maldito. Enquanto seu nome estiver barrado dos livros de história, essa condição persistirá. Não proponho que os manuais escolares o promovam ou condenem, mas que contem sua história. Omiti-la é crime de lesa-história e de desonestidade intelectual. Como costumo enfatizar, é legítimo amar ou odiar Marighella, mas é impossível ficar indiferente à sua vida fascinante. Foi ela que me seduziu a mergulhar na biografia, com dois motivos relevantes. A trajetória de Carlos Marighella (1911-69) me permitiu narrar quatro décadas frenéticas do Brasil e do mundo, dos anos 1930 aos 1960. E perfilar outros personagens espetaculares. No livro que escrevi, há dezenas de coadjuvantes e figurantes que merecem biografias específicas sobre eles.

Logo na capa, você faz uma aposta alta, chamando Marighella de "guerrilheiro que incendiou o mundo". Até que ponto Marighella foi tão importante no imaginário da guerrilha em um plano internacional?  Seria algo comparável ao impacto de Che Guevara?
Não é possível comparar, porque Che Guevara foi comandante guerrilheiro de uma revolução vitoriosa e ministro de Estado. Mas, com sua morte, em 1967, a CIA norte-americana apontou Marighella como seu sucessor na inspiração de movimentos rebeldes na América Latina. Em todo o mundo, Marighella inspirou e ainda inspira movimentos contestatórios. Ele e sua organização armada foram ajudados por personalidades como o cineasta francês Jean-Luc Godard, seu colega italiano Luchino Visconti, o filósofo francês Jean-Paul Sartre e o pintor catalão Joan Miró. O jornal parisiense Le Monde chamava Marighella de "mulato hercúleo". A revista Time, dos Estados Unidos, de "mulato de olhos verdes", quando eram castanhos. Quando a Ação Libertadora Nacional, grupo guerrilheiro de Marighella, transmitiu mensagens pela Rádio Nacional paulista, em 1969, o New York Times dedicou enorme espaço ao fato. Até hoje os documentos escritos por Marighella são estudados nas academias militares da China e nas escolas de espiões nos EUA. Nas manifestações de junho, cartazes com o rosto e proclamações de Marighella apareceram por todo o Brasil. Excluindo artistas e desportistas, ele é um dos 10 brasileiros de maior projeção internacional do século 20. O silêncio sobre seu nome foi uma longeva herança da ditadura.

Um dos méritos do seu livro é mostrar que Marighella participou ativamente dos movimentos de reivindicação de direitos sociais e mudanças em quatro décadas cruciais para a história do Brasil do século 20. Que mudanças considera cruciais no país e qual o papel de Marighella nas conquistas de direitos sociais?
Na Constituinte de 1946, ele defendeu o divórcio e perdeu, mas no futuro esse direito seria conquistado. Batalhou pelo 13º salário e o derrotaram, porém mais tarde o benefício se tornou lei. Idem o direito de organização partidária. A luta contra a existência de ditaduras — ele viveu sob duas, o Estado Novo (1937-45) e o regime instaurado em 1964 — não foi em vão. Quando Marighella foi eleito deputado federal constituinte, em 1946, a mortalidade infantil em Salvador era de 250/1.000. Hoje deve estar em torno de 20/1.000.

Marighella, que se empenhou contra a miséria, é um perdedor?
Divirjo da ideia de que Marighella foi um perdedor. Embora o Brasil tenha melhorado desde o assassinato de Marighella, em 1969, eterniza-se nossa maior tragédia: a pornográfica desigualdade social. O meu livro mostra como Marighella e seus companheiros foram decisivos em muitos movimentos nos quais se mantiveram discretos. Foi ele quem pessoalmente orientou a célebre Greve dos 300 Mil, em São Paulo, em 1953. Partidários seus lideraram a maior greve operária de 1968, em Contagem (MG).

Que bandeiras do Partido Comunista Brasileiro, demonizado há 50 anos, foram incorporadas ao discurso político atual? Qual a contribuição do PCB para construção do Brasil moderno?
A principal foi a ideia de que os trabalhadores não são cidadãos de segunda classe, embora ainda sejam tratados como tal.

O Marighella que você revela no livro rompe com o figurino do comunista dogmático. Parece ser firme, mas com traços pouco ortodoxos, de espírito meio anárquico e hedonista baiano, durão e feminista. É o fato de ser baiano que explicaria essas nuances?
A Bahia foi fundamental em sua formação. Marighella se definia, em síntese, como "um mulato baiano". É curioso que, embora à frente do seu tempo, dividindo o trabalho doméstico com a mulher, ele não se considerava feminista e condenava o feminismo como compreendido na década de 1940. Conto em detalhes no livro. Próximo da morte, Marighella entrou em colisão com governo cubano. Um dos motivos foi a recusa dos caribenhos em treinar mulheres brasileiras em guerrilha rural, distinção de gênero inaceitável para Marighella.

"Responda sempre com poesia", diz Marighella para uma amiga. Desde os tempos de estudos secundários ele sempre exercitou a poesia. Qual a importância da poesia na vida de Marighella? Era só um versejar ou significava também uma visão de mundo?
Significava uma maneira de encarar a vida. Às vésperas da morte, Marighella se dedicava a compor paródias de sucessos de Roberto Carlos. Ele ficou famoso na Bahia não pela política, mas ao responder em versos rimados, aos 17 anos, uma prova de física, que eu publiquei na íntegra. Marighella foi profundamente influenciado por dois poetas da Bahia, Gregório de Matos e Castro Alves. Em 1965, lançou clandestinamente um livro de poesias. A maior parte era de versos eróticos, e não políticos. Aos 19 anos, concluiu assim um poema: "Andei como o diabo! Enfim... eis-me de novo aqui:/ quero ver se descubro se já me descobri". Está tudo no livro.

Como disse o Renato Russo: a violência é fascinante. A partir de certo momento, Marighella tomou o caminho da violência como opção de transformação social. É algo que mancha a biografia dele e o coloca na condição de bandido? O que considera os altos e os baixos na trajetória de Marighella?
Não escrevi nem uma hagiografia, exaltando o protagonista do livro, nem um libelo contra ele. Também não tenho veleidades de juiz. Cumpro a missão do biógrafo: contei o que Marighella fez, disse e, na medida do possível, pensou. Ele tem grandes e pequenos momentos, como qualquer ser humano. Não exponho minha opinião sobre a luta armada contra a ditadura. Apenas registro que havia muitas formas legítimas de enfrentar o regime pós-1964, e a guerrilha era uma delas. Teólogos clássicos da Igreja já aceitavam, séculos atrás, o recurso à violência como instrumento para combater tiranias. Mas não julgo Marighella, não escrevo que ele foi herói ou bandido. Conto sua história, para que cada leitor a avalie conforme seus próprios valores. Papel de biógrafo não é fazer cabeça de leitor, mas contar histórias. Reconstituo a tortura pela qual o jovem Marighella passou por 21 dias em 1936. Não duvido que haja quem se identifique com os torturadores...

Há, no momento, uma discussão sobre a inviolabilidade da vida privada de pessoas públicas. No caso de Marighella, a vida privada e a vida pública se entrelaçam de maneira indivisível. Que prejuízos para a compreensão de Marighella e da história a que ele está ligado se houvesse cerceamento de pesquisa a aspectos da vida íntima do personagem?
O livro que eu escrevi não existiria. Marighella lutou apaixonadamente pela revolução social e amou e foi amado com igual intensidade. Como separar o revolucionário valente do homem passional?

O grupo Procure Saber afirmou que os biógrafos ganham rios de dinheiro com os livros que escrevem no Brasil. É verdade que vocês, biógrafos, são milionários? No seu caso específico, você ficou muito rico com o livro sobre Marighella?
Trabalhei nove anos na biografia. Nesse período, cinco anos e nove meses em regime de dedicação exclusiva. Somando tudo o que ganhei com a venda de exemplares e o que vou ganhar com os direitos de adaptação para o cinema, só receberei 15% dos salários de que abri mão por 69 meses, ao largar um ótimo emprego para cuidar do livro. Ou seja, de cada R$ 100, só vi a cor de R$ 15. Trocando em miúdos, escrever biografia é um suicídio financeiro.

O que diria aos ministros do STF que vão julgar o mérito da ação que pede a revisão do artigo do Código Civil que tem possibilitado a censura às biografias e a outras obras documentais envolvendo personagens da história brasileira? O direito à inviolabilidade da vida íntima deve se sobrepor ao direito da informação ou essa é uma falsa questão?
Todos os direitos, de privacidade e liberdade de expressão, estão garantidos pela Constituição Cidadã de 1988. Mas o que o direito à privacidade tem a ver com censura prévia? O Brasil é hoje a única grande democracia do planeta a censurar livros que ainda nem foram lançados. A lei é de 2002, mas ela expressa a sobrevivência da cultura obscurantista. Quem gosta de censura é ditadura. Espero que os ministros do STF e os congressistas consagrem a democracia, a liberdade de expressão e o direito à informação, abolindo a censura.

"Marighella continua sendo um personagem maldito. Enquanto seu nome estiver barrado dos livros de história, essa condição persistirá. Não proponho que os manuais escolares o promovam ou condenem, mas que contem sua história"

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Facção Central: "Sem união é impossível a Revolução"

NOTA DE FALECIMENTO da ativista Gleise Nana, 33 anos, que havia denunciado o sargento Emerson Veiga, do 15 BPM de Duque de Caxias


NOTA DE FALECIMENTO 
A ativista Gleise Nana, 33 anos, que havia denunciado o sargento Emerson Veiga, do 15 BPM de Duque de Caxias, faleceu na madrugada dessa segunda-feira, 20 de novembro, após um incêndio suspeito no apartamento da ativista.




A poetisa e diretora teatral havia denunciado o sargento após ele ter postado insultos no inbox da ativista. Em um deles o PM a chamava de "maconheira,vagabunda e anarquista de merda, responsável pela desordem no Rio de Janeiro." Com medo, Nana repassou as mensagens para os amigos. Passou, desde então, a receber telefonemas estranhos.




Com a ativista também havia muitas filmagens dos conflitos desde o começo, em junho. Nana tinha um vasto material com denuncia sobre abuso de PMs. Em um deles, o tenente-coronel Mauro Andrade admite que a PMERJ se excedeu.




Em um incêndio suspeito, no dia 18 de outubro, a ativista teve 35% do seu corpo queimado. O misterioso incêndio em seu apartamento também afetou os órgãos internos de Nana. Após quase 40 dias de coma, a ativista não resistiu e faleceu. Cabe frisar que, num primeiro instante, a Polícia Civil trabalhou apenas com a hipótese de incêndio acidental. Mas após insistência de amigos e o trabalho dos advogados da Comissão dos Direitos Humanos da OAB, a própria Polícia Civil admitiu que o incêndio pode ter sido criminoso. 
Texto: Israel Montezano 
Foto: O dia

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Chávez “encendió la mecha” de la unidad latinoamericana presente en este tiempo (+Video)




El artista manifestó que él, como ciudadano, está dispuesto a asumir hasta las máximas consecuencias -de manera pacífica- para que Puerto Rico logre su independencia

 
René Pérez, cantante de la agrupación puertorriqueña Calle 13, al referirse al Comandante Hugo Chávez y su legado, indicó que fue éste quien “encendió la mecha” de la unidad latinoamericana que existe en estos momentos, que inclusive sirve de ejemplo al mundo entero.
“Ese legado (de Chávez), de unidad, de unificar países, esta unidad que se siente latinoamericana tiene que ver mucho con su trabajo, con lo que hizo. Se siente. Eso yo no lo sentí nunca antes y la fuerza que hay y esas gana de colaborar entre países que puede existir -que antes eran menos-, es gracias al trabajo que él hizo, fue fundamental, importante (…) creo que él fue el que encendió la mecha de que esté pasando lo que pasa ahora y que Ecuador se atreva decir de momento: -Mira (Julian) Assange puede entrar a la embajada. Eso tiene que ver con esa mecha que encendió Chávez”.
Esas fueron sus palabras hacia el líder socialista en una entrevista exclusiva a Actualidad RT, concedida al programa “Detrás de la Noticia” moderado por Eva Golinger, donde conversaron temas de la realidad del continente, de los abusos del gobierno estadounidense sobre Puerto Rico y del lanzamiento de su más reciente tema “Multiviral”, junto a Julian Assange.

PUERTO RICO INDEPENDIENTE

Al consultarle sobre la independencia de su natal Puerto Rico, “Residente” manifestó que él como ciudadano está dispuesto a asumir hasta las máximas consecuencias -de manera pacífica- para que la isla caribeña sea soberana.
El artista abogó por que no existan más colonias en el mundo, al tiempo que calificó de anacrónica la existencia de éstas. “Hay que trabajar con al educación (en Puerto Rico), hay mucha gente que está desconectada con lo que ocurre en Latinoamérica y más conectados con lo que pasa en Estados Unidos”.
“Es imposible que Estados Unidos esté ‘ayudando’ sin sacar nada a cambio, (…), es obvio esta gente no esta haciendo obras caridad con los puertorriqueños, nos hubiesen dado una patada hace rato, es porque le están sacando dinero y en algo contribuye a su economía. Hay dinero de por medio. Siendo independientes ganaríamos más”.
Continuó: “(Barck) Obama es nuestro presidente, pero nosotros no votamos por Obama. Eso es un abuso, somos esclavos prácticamente de Estados Unidos (…) yo no odio a este país, es una molestia con el gobierno y todas las movidas maquiavélicas que han realizado históricamente, cien años de mal educarnos para hacernos dependientes”.
En cuanto al futuro de América Latina, el músico aseguró que viene algo nunca antes visto. “Latinoamérica está siendo ejemplo al mundo entero. Se está dando cátedra de humanidad y valentía. Se está demostrando una unidad y una fuerza que no se había visto, no solo en lo económico, sino en lo social.
René Pérez, reiteró su petición para que en la Comunidad de Estados Latinoamericanos y Caribeños (Celac), exista presencia de Puerto Rico con un delegado o un representante elegido por los propios borinqueños para generar el acercamiento necesario para generar los cambios necesarios en la llamada “isla del encanto”.

MULTIVIRAL

El líder de la agrupación Calle 13 aseguró que el nuevo tema Multiviral, realizado junto al creador de WikiLeaks, no será sonado en las radios, por ello fue lanzado por las redes sociales de manera gratuita.
Detalló que esta canción forma parte del nuevo disco que están preparando, y que funciona como un adelanto. Agregó, que se realizará un video que será lanzado “por todos lados”.
“La intención de este tema es llegarle a la masa, bien sea a través de conciertos y del video”, dijo.
El nuevo disco se está terminando y viene incluido un documental que contendrá artes plásticas. Adelantó que el proyecto contará con la participación de muchos artistas que a través de la pintura y la escultura realizarán trabajos inspirados en la canción Multiviral.
Asimismo, refirió que ya están trabajando en lo que será su próxima gira, la cual será de manera simultánea con el lanzamiento de su nuevo trabajo discográfico.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

E AGORA, JOAQUIM?

E agora, Joaquim?
Vamos anular a Reforma da Previdência?
O mensalão não acabou?
E a corrupção sumiu

E agora, Joaquim?
A Copa chegou,
o povo protestou,
e você quase se candidatou.

E agora, Joaquim?
O pré-sal foi a leilão.
Mas, como disse o Lobão:
isto não é mais privatização.

E agora, Joaquim?
"O Brasil ainda é pau...
É pau a pique, pau de arara, é o pau do policial!
O Brasil, só não é pau Brasil!"

Professor Túlio Lopes - 15 de novembro de 2013

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Adiós a Teresita Fernández, la voz que dibujó nuestra infancia


Por Michel Hernández
   Ha muerto a los 82 años la niña eterna de ojos de luna. La trovadora irreverente y sabia que realmente hizo honor a ese título viviendo con una extraordinaria honestidad.
   La valiente y verdadera martiana que afirmaba que la vida no vale nada si no se es bueno, si no somos coherentes en nuestros hechos, con lo que decimos a diario, si no tratamos a nuestros coterráneos con profunda humildad, sinceridad y cariño.
   La artista de espíritu libre y nómada que siempre tuvo la certeza de que esta vida material solamente es pasajera, para enseñarnos desde la infancia que para ser grandes teníamos que descubrir hasta el más oculto vericueto de la sensibilidad de las pequeñas cosas; y encontrar la felicidad en la realización de alguna buena acción en nuestra existencia diaria, sin engañar nunca a otros en busca del beneficio propio.
   Ha muerto Teresita Fernández cuando más la necesitábamos, cuando a los que tuvimos la fortuna de crecer con sus canciones nos embarga la enorme preocupación de que las nuevas generaciones —sobre todos los adolescentes— no tienen una auténtica Teresita que los ayude a levantar los cimientos de su educación espiritual.

   Un vacío que se notará realmente cuando los más jóvenes de hoy crezcan y miren hacia atrás (si lo hacen), y descubran que no tienen mucho que les recuerde que un día también fueron niños.
   A pesar de que los medios no aportan demasiado a que se conozca su obra, compuesta por más de 500 canciones para niños y adultos y 28 rondas musicalizadas de Gabriela Mistral, hay cantautores que, por suerte, mantienen vivo su legado como Kiki Corona y especialmente Liuba María Hevia, una destacada discípula de Teresita que en cada concierto le habla a los niños de esa extraordinaria mujer de pelo como la espuma y mirada sabia que convirtió la humildad en orgullo y vivió con el regocijo de haber sostenido su creación sobre las buenas acciones; de haber sido fiel a su filosofía de vida; de haber creado una obra que se hizo grande gracias a la sinceridad y la coherencia con que fue esculpida, una obra que hoy iluminará el andar de los gatos en los tejados, de los perros callejeros, de las luciérnagas en las noches de luna, de los seres que se pierden por ahí en silencio buscando la belleza de las pequeñas cosas.
   Hay pocos recuerdos que atesoro en mis lances por estos mundos del polémico y difícil oficio periodístico como la ocasión en que conocí personalmente a Teresita. Era una tarde de junio del 2010 cuando una tropa de la Asociación Hermanos Saíz llegaba a su pequeño y humilde apartamento en el piso 12 del edificio de Infanta y Manglar, para entregarle el premio Maestro de Juventudes.
   Ahí estaba ella dando vueltas, inquieta por la sala, adornada solamente con los diplomas regalados por los niños de los barrios del Cerro y de la ciudad de Santa Clara, los retratos de la poeta Ada Elba Pérez, las imágenes de Cristo, del Che, la Madre Teresa y un pequeño busto de Martí niño.
   Rodeada de sus queridos vecinos, y de tres o cuatro maravillas de gatos que iban de un lado a otro como si no quisieran perderle ni pies ni pisada a su amorosa dueña.
   Teresita recibió a los que irrumpimos la soledad de su habitación con su inseparable tabaco, con su sonrisa de mujer buena, con su mirada de quien lo ha visto todo y tiene un alma tan grande que puede perdonar los agravios de cualquier ser humano, con la experiencia de quien viene de regreso de muchas vidas y aún tiene deseos de dar salida a lo que ha visto por esos caminos de Dios su enorme corazón, lleno de canciones por hacer, por cantar y de ganas de conocer cómo son los niños de hoy, a los que, según comentaba, no había podido cantarles por los achaques de la edad.
   Después de que invitó a los jóvenes a sentirse como en su propia casa, Teresita comenzó a resucitar las aventuras vividas en su paso por el controvertido mundo de los seres humanos; a revelar cómo nació la canción de aquel otro gatico que le puso Vinagrito, por estar feo y flaquito; a hablar de la necesidad de profundizar en Martí; a explicar que para ella el amor también está en el aire, en la quietud de las noches tranquillas y en el viento que mueve las hojas de los árboles.
   Pero sobre todo, su conversación dibujó un universo muy especial cuando aprovechó el momento para dar algunos consejos a los invitados. Entre ellos hubo uno que me caló hasta los huesos. "Sé siempre una persona buena", me dijo con una seguridad pasmosa, mientras me agarraba la mano como si quisiera grabar la frase hasta en los más indescifrables vericuetos del alma. Como si tuviera la total certeza de que esta máxima debía trascender aquel encuentro para convertirse en una lección de vida para todos los cubanos en estos azarosos y complejos días.
   Ella no dejaba de pensar en la sociedad que palpitaba detrás de sus ventanas, aunque apenas salía de su apartamento, porque había hecho de la soledad su pasión; y quería que los niños de ayer la recordaran solamente con esa fuerza vital con la que siempre interpretó sus canciones, ya fuese en la calidez de las peñas, como en los parques más destartalados, o en los escenarios más majestuosos.
   En todos los lugares era la misma y no dejaba pasar ni un instante para, sin cobrar un centavo, cantarle a los niños con su guitarra las historias de las palanganas viejas, de lo feo, de la belleza de los campos, de la lluvia, de las estrellas, y de las travesuras de los perros callejeros.
   Si bien, como se dijo, la vida la llevó a alejarse de los escenarios desde hace algún tiempo, la trovadora permanece para siempre en un lugar muy íntimo de la vida de los que conocimos el mundo a través de sus canciones, esos que tenemos en Teresita una de esas inseparables guías espirituales que junto a nuestros padres nos iluminó el camino desde los primeros años de la infancia, y que desde hoy todos debemos tratar de que su legado ocupe el lugar que merece en la educación sentimental de todos los niños y jóvenes cubanos.
Tomado del sitio digital del periódico Granma