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quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Não há grades que prendam Quem descobriu Que é livre!

Prisões inúteis
Explosão, movimento, grito

Espanto, espasmo, desencanto,
Nervo exposto na rua desperta
Multidão caminha inquieta.

Mil rostos, mil punhos erguidos
Bandeiras lhes dão abrigo
Faixas, ditos e gritos
Falam por mil vozes.

A policia infiltra, ataca
Persegue, espanca, mata
As cadeias se abrem
As portas se fecham

É preciso ferver a água
Para matar o peixe
Na água massa incontida
São jogadas as redes
Pesca funesta, caça
Camburões, delegacia
Galés modernas
Novos navios negreiros.
Meus irmãos estão presos
Muitos já estavam lá
Porões onde escondem
Os restos de minha classe.

Os verdadeiros criminosos
Estão no governo dando ordens
A criminosos fardados
Que garantem a ordem.

O rio rua transborda
Arrasta as margens que o oprimem
As portas se abrem
As cadeias se fecham

É inútil.
Não há grades que prendam
Quem descobriu
Que é livre!

Mauro Iasi 
outubro de 2013

Pela imediata libertação dos 
militantes presos nas manifestações!

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Luta ou fuga?

Aos companheiros das jornadas de junho

O cérebro humano primitivo
espreita, escuta, pressente:
o ruído, o silêncio, o perigo.
Tensão, pupilas, pulmão.
Atenção…
Adrenalina, músculos, ação… ou não:
mordida, ferida, contusão.
Lutar ou fugir?
Eis a questão!
Hamlet com uma caveira na mão
sobre a cova de um causídico
indaga ser justa ou delírio,
a raiva que move sua mão.
Fugir ou lutar?
Ousar ou fingir.
Outra face… perdoar?
Sonhar, voltar a dormir?
Viver, acordar!
Para a rua… protestar!
Fogueiras, vinagre, bandeiras,
negras ou vermelhas,
Nenhum passo atrás!
Lutar!

Mauro Iasi

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Fronteiras

Os corações
(assim como as pátrias)
não deviam ter fronteiras.

Queria explodi-los
em suspiros, gozo e anátemas
para que de tantos pedaços
brotassem outras centenas.

Os corações
(assim como as pátrias)
não deviam ter fronteiras…
mas têm.
Mauro Iasi
CC do PCB

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Te doy una canción: viva o 59o aniversário de Moncada


imagemCrédito: fbcdn.net


Por Mauro Iasi
Martí me habló de la amistad
ycreo en élcadadía,
aunque la crudaeconomía
ha dado luz a otraverdad.
Silvio Rodriguez

No dia 26 de julho de 1953 acontecia o Assalto ao Quartel Moncada e dava início à Revolução Cubana. Muito já se falou desta incrível experiência e muitas são as preocupações que cercam o atual momento e as perspectivas desta Ilha revolucionária (ver, por exemplo o artigo Três originalidades e um velho caminho, na revista eletrônica Múltiplas Leituras, v. 2, n.2, 2009). Hoje quero tratá-la de uma maneira diferente.
Evidente que todos nos preocupamos com a situação atual e sabemos que as experiências históricas, por mais valorosas que sejam, não dependem apenas da disposição moral e da decisão política de resistir. Mas falemos um pouco disso, da disposição de seguir em frente, da arte de resistir.
Silvio Rodriguez, compositor cubano e um dos protagonistas do movimento chamado “Nova Trova”, tem sido uma voz poética e lúcida desta resistência. Em uma musica chamada “El Necio”, Silvio diz:

Dicen que me arrastarán por sobre rocas
cuando esta revolución se vengaabajo,
que machacarán mis manos y mi boca,
que me arrancaránlosojos y elbadajo.
Será que lanecedadparióconmigo,
lanecedad de lo que hoy resulta necio:
lanecedad de asumiralenemigo,
lanecedad de vivirsintenerprécio.
Yo no sé lo que és el destino,
caminando fui lo que fui.
Allá Dios que será divino.
Yo me muero como vivi.

Néscio, como vocês sabem, é alguém estúpido, ignorante. Seremos, então, estúpidos por acreditar naquilo que acreditamos? Logo no começo da mesma canção, Silvio nos conta do assedio daqueles que nos prometem fazer-nos “únicos”, nos garantir um “lugarzinho em seus altares” e para isso nos convidam ao arrependimento, tentam nos convencer a que não percamos a oportunidade, diz o poeta cubano, “me vienen a convidar a que no pierda, me vienen a convidar a indefinirme, me vienen a convidar tanta mierda”.
Ele mesmo, na epigrafe que segue a letra no encarte do disco, explica que se trata de uma canção de marketing, de preços e esclarece: “y para que nadie se imagine que soy santo, voy a ponerel mio (précio, por ahora): El levantamiento Del bloqueo a Cuba y La entrega incondicional del território cubano que EEUU usa como base naval en Guantánamo”.
Há um fator, imponderável, que aqui se apresenta e que é inseparável da experiência da Revolução Cubana: a dignidade. Em tempos como os nossos, de desilusão, de indignação vazia, nada melhor que nos colocarmos diante de um exemplo de dignidade consciente, humanamente intransigente, politicamente convicta. Em outra musica que trata do mesmo tema, “El Baile”, Silvio nos fala das armadilhas daqueles que querem nos convencer a participar desta ordem injusta e sanguinária, nos oferecendo as benesses que cabem aos que se rendem – “rondándonos, cercándonos para inmovilizarnos”–e nos alerta:

No voy, no vas
aljuego del disfraz,
coristatú y amor de estearlequín
romántico -al menoshasta el fin-,
imposmodernizable.

Que expressão mais precisa e feliz: “impósmodernizável”. O poeta arranca de seu peito as notas que fazem voar as palavras. Suas trovas nasceram quando ainda era soldado e por isso canta: “te doy una canción como un disparo”. Em um programa recente de televisão ao ser entrevistado recebe uma pergunta: você se considera um cantor oficialista? E Silvio responde:
Veja, se é da Revolução Cubana que estão falando, da Revolução que comandou Fidel e que deram continuidade tanta gente valiosa como foi Raul, Che, Camilo e toda esta gente, se é a isso que estão se referindo, digo: como muita honra, muitíssima honra ser oficialista desta Revolução. Do que eu não gostaria de ser “oficialista” é daqueles que lançam bombas em Iraque ou Afeganistão (...) que tentaram invadir Cuba (...), isso sim, para mim seria uma desonra e uma vergonha oficiar semelhantes idéias.
Neste mês de julho, por ocasião do VI Congresso da UJC, tive o prazer de participar de um seminário internacional com representantes de várias organizações de jovens de nossa America Latina. Entre eles estava Hanói Sanches Rodrigues da UJC de Cuba e Secretário geral da FMJD, uma federação mundial de jovens. Em seu depoimento no qual reafirmou a firme decisão da juventude cubana em seguir lutando pela construção do socialismo mesmo diante dos grandes problemas e desafios que se apresentam diante deles, lembrou de tempos difíceis em Cuba, quando estudava e havia grandes cortes de luz e ele e dezoito companheiros seguiam estudando à luz de uma pequena lamparina.
Nosso comandante, Che Guevara, nos dizia em suas reflexões sobre a economia e a construção do socialismo o seguinte:
O socialismo econômico sem a moral comunista não me interessa, dizia Che. Lutamos contra a miséria, mas ao mesmo tempo lutamos contra a alienação. Um dos objetivos fundamentais do marxismo é fazer desaparecer o “interesse individual e também, das motivações psicológicas. Marx se preocupava tanto com os fatos econômico como sua tradução na mente. Ele chamava isto de “fatos de consciência”. Se o comunismo descuida dos fatos de consciência pode até se tornar um método de distribuição, mas deixa de ser uma moral revolucionária. (Entrevista com Jean Daniel, sob o título “La profecia del Che”, in Carlos Tablada Perez – Ernesto Che Guevara, hombre y pensamiento: el pensamiento econômico del Che. Buenos Aires, Antarca: 1987, p. 45.)
Para nós esta concepção é que fundamenta o poema de Silvio Rodriguez que utilizamos como epígrafe e que diz que “Martí nos hablo de la amistad e creo nel en cada dia, aunque la crud economia ha parido otra verdad”. O próprio Che é que conclui que:
Não se trata de quantas gramas de carne se come ou quantas vezes por ano alguém pode ir à praia, nem de quantas belezas que vem do exterior possam ser compradas com os salários atuais. Trata-se, precisamente, que o indivíduo se sinta mais pleno, com muito mais riqueza interior e com muito mais responsabilidade.
Talvez isso explique, talvez não, este elemento de humanidade que encontramos na revolução cubana, esta firme e digna decisão de resistir. Não sabemos o que virá – “Yo no sé lo que és el destino”- , mas saudamos o aniversário do assalto ao quartel Moncada, abraçamos aos nossos camaradas cubanos e lhes agradecemos por ter mantido vivo nosso sonho por todo este tempo.
Nós somos como aqueles estudantes entorno de uma lamparina. Lá fora muitos são os que estão aceitando o convite para o baile em que a corte nos espera para derramar nosso sangue no altar do capital e depois festejar os índices de crescimento econômico. Eu, por meu lado, trocaria de bom grado a pujança do crescimento capitalista brasileiro pela dignidade de apenas um daqueles jovens cubanos.
Por isso cantamos com Silvio:

Quetiemble la injusticiacuandolloran
losque no tienen nada queperder.
Quetiemble la injusticiacuandollora
elaguerrido pueblo de Fidel
quetiemble la injusticiacuandollora
elaguerrido pueblo de Fidel.

Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, presidenteda ADUFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e PesquisasMarxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser daconsciência (Boitempo, 2002). Colaborapara o BlogdaBoitempo mensalmente, àsquartas.

sábado, 23 de junho de 2012

Os olhos do continente

Desenho monumental feito por Carlos Latuff
Para o comandante Che Guevara

Nasci num continente
que olhava para o chão.
Pupilas perdidas na terra,
na relva, nas raízes,
nas pedras da humilhação.

Nasci num continente
que olhava para o chão.
Olhava e não via
seu rosto mutilado
no rosto de seu irmão.

Perguntava e não ouvia
seu canto entrecortado.
Numa surdez medonha
o velho chão só respondia:
vergonha.

Si señor, no señor...

Com o perdão da palavra
a palavra era culpada.
Um deus patrão com as mãos recém-lavadas
cortava o ar em cruz, o perdão era dado
ou o infeliz executado.

Gracias señor
pelo pão, pelo castigo
pela morte, pelo destino.

Nasci num continente
que olhava para o chão.
Mas um dia leu ali
entre ossos calcinados
o verbo de sangue seco
pelo povo derramado.

Leu nos olhos simples
nas águas dos regatos.
No suor vertido em braços
pelo povo explorado.

Leu ali o seu espanto
nas pedras reviradas
nas raízes descobertas
pelo povo rebelado.

Guardou, então, no seu caderno de terra
a gramática revelada
e uma semente em seu olho
que chamou dignidade.

O deus-patrão nos alerta:
“Não olhem nestes olhos
de serpente peçonheta,
é praga que se alastra
e destrói tua colheita”.

“Não olhem nestes olhos
que se rebela a harmonia,
é o fim da religião, da casa
e da família.”
Mas são olhos tão simples,
úmidos de dor e esperança.
São olhos tão brilhantes
como olhos de criança.

São os olhos de Martí,
são os olhos de Sandino,
são os olhos das montanhas
que nos mostram o caminho.

São os olhos de Camilo,
são os olhos de Havana,
é meu olho no teu rosto
que outro olho reclama.

O veneno me tomou
e já posso ler no chão,
onde antes era vergonha
leio agora revolução.

Já viram as fotos de Che morto?
Seus olhos permanecem abertos
olhando sereno o céu
do continente onde nasci.

Alturas depois de Che,
meu povo não teme vê-las,
meu continente hoje leva os olhos
até o brilho das estrelas.
Mauro Luis Iasi – Meta Amor Fases

domingo, 10 de junho de 2012

Dissidência ou a arte de dissidiar

Foto de Sebastião Salgado

Há hora de somar
e hora de dividir.
Há tempo de esperar
e tempo de decidir
                      
Tempos de resistir.
Tempos de explodir.
Tempos de criar asas, romper as cascas
porque é tempo de partir.

Partir partidos,
parir futuros,
partilhar amanheceres
há tanto tempo esquecidos.

Lá no fundo tínhamos um futuro
lá no futuro tem um presente
pronto para nascer
só esperando você se decidir.

Porque são tempos de decidir,
dissidiar, dissuadir,
tempos de dizer
que não são tempos de esperar.

Tempos de dizer:
não mais em nosso nome!
Se não pode se vestir com nossos sonhos
não fale em nosso nome.

Não mais construir casas
para que os ricos morem.
Não mais fazer o pão
que o explorador come.

Não mais em nosso nome!
Não mais nosso suor, o teu descanso.
Não mais nosso sangue, tua vida.
Não mais nossa miséria, tua riqueza.

Tempos de dizer
que não são tempos de calar
diante da injustiça e da mentira.
É tempo de lutar

É tempo de festa, tempo de cantar
as velhas canções e as que vamos inventar.
Tempos de criar, tempos de escolher.
Tempos de plantar os tempos que iremos colher.

É de dar nomes aos bois,
de levantar a cabeça
acima da boiada,
porque é tempo de tudo ou nada.

É tempo de rebeldia.
São tempos de rebelião.
É tempo de dissidência.
Já é tempo dos corações
pularem fora do peito
em passeata, em multidão
porque é tempo de dissidência
é tempo de revolução.

Mauro Luis Iasi Meta amor fases.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Quando e por que nascemos

imagemCrédito: PCB



Aos 90 anos do PCB (1922-2012)







Não sei quantos anos temos.
Sei que festejamos hoje 90 anos
porque nascemos em 1922.
Mas, talvez tenha sido antes,
talvez tenhamos nascido em 1917
quando os trabalhadores russos
iniciaram a construção do futuro,
ou foi em 1919 quando na Internacional
sonhamos sonhos planetários.
Talvez tenha sido antes ainda.
Em 1871, na Paris Revolucionária da Comuna
ou em 1848, quando os trabalhadores
levantaram-se para falar com sua própria voz.
Não sei, mas talvez tenha sido antes.
Quando dois alemães se encontraram
e viram o mundo através de nossos olhos
nos mostrando o caminho da emancipação.
Mas talvez não.
Talvez tenha sido há muito mais tempo:
quando um trabalhador
olhou para suas mãos
e percebeu que não eram mais suas mãos.
Quando olhou para seus pés e viu
que a terra não era mais a sua terra.
Não sei, mas acredito que foi ali que nascemos.
Talvez por isso é que nascemos.
Talvez por isso vivemos tanto tempo.
Talvez por isso resistimos.
Talvez por isso estejamos aqui hoje
para dizer aos trabalhadores:
_ Olha, esta são suas mãos,
são seus os produtos do trabalho.
_ Olha, esta é tua terra,
são nossos seus frutos.
_ Coragem, levanta a cabeça e veja:
olha este sol que se insinua
por trás das nuvens que o escondia.
Não há noite tão longa que derrote o dia.
Veja como tinge de vermelho o universo.
_ Levanta tua mão, camarada, assim...
agora fecha o punho, isso...
Lembra como era aquela canção?
Coragem, vocês nunca estarão sozinhos
Porque aqui estamos camaradas.
Por isso nascemos.
Por isso lutamos tanto.
Por isso sobrevivemos.
É por vocês camaradas
que fomos, que somos, que seremos
sempre
Comunistas!

Mauro Iasi
março de 2012

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Homenagem a Saramago, por Mauro Iasi


Homenagem a Saramago
(ou de flores, pessoas e palavras)[1]


Mauro Luis Iasi[2]


            Joana Carda traçou uma linha no chão com sua vara de negrilho, os cães de Cerbère, que nunca ladram, ladraram ao fundo, enquanto os estorninhos passaram a seguir o pobre José Anaiço, ao mesmo tempo em que Joaquim Sassa lançava uma pedra ao mar e a terra tremia sob os pés incrédulos de Pedro Orce[3]... pronto... a Península Ibérica se soltou do continente europeu e navegou pelo oceano tenebroso da mesma forma que muito tempo antes navegantes portugueses se lançavam com suas naus, sextantes e velas em busca de um novo mundo, ou fugindo do velho mundo que naufragava em terra firme, não se sabe; mas não adiantemos nossa história, pois nada disso seria possível se em outro momento, numa mera quinta feira como qualquer outra, pois um dia nada mais é que um dia, ainda que todos os dias, mesmo os mais corriqueiros, tenham sua história e levaria anos para contá-la, mas no mais das vezes não passam mesmo disso, um dia como outro qualquer, e neste em especial nada aconteceu. Nem terra tremeu, nem penínsulas se divorciaram de seus continentes e não fosse o fato de que cães latiram, aliás, como sempre fazem os cães que não são de Cerbère, nada de especial se veria de neste dia, nesta casa, nesta gente humilde que tem casa, mas não tem terra e ainda assim lavra e planta e colhe naquilo que não tem para produzir aquilo que não terá; nesta casa sem terra, neste dia 16 de novembro de 1922 que calhou ser uma quinta feira, e que não se tire deste fato conclusões, pois poderia ser quarta ou sábado que da mesma maneira o rebento nascia, uma vez que não se vem ao mundo munido de calendários, mas por necessidade de sair do ventre e entrar no mundo, sem pedir licença ou saber aonde, se em Portugal ou Espanha, saberá deus onde acaba um e começa outro. Coube ao destino que fora em Portugal, mais precisamente em Azinhaga, no conselho de Colegã, na província de Ribatego, onde nada há, mas havia uma casa de camponeses que não tinham terra, mas tiveram um filho e o chamaram de José, condenando-o, sem o saber, a trabalhar como trabalhou o pai do nome e a ver obras serem paridas sem saber se foi ele mesmo que as fez. Para não esquecer de onde veio coloram em seu nome outros nomes para que entre tantos josés ele se encontrasse consigo mesmo e não se confundisse com os outros que como ele trabalhariam no que não tinham, produzindo para não ter; e foi assim que José carregou também o Souza de sua mãe e Saramago de seu pai. O Souza seguiu o destino das mulheres de Portugal, de negro e na sombra, lembradas para serem em seguida esquecidas, de forma que o rebento que entrara no mundo naquela quinta feira do mês de novembro do ano de 1922 ficaria conhecido apenas por José Saramago, hoje reconhecido como nome importante de escritor, mas que naquela quinta feira não passava de nome de trabalhadores sem terra e que na verdade dizia no nome fabricado de letras a carne da coisa que representa, não como o nome da rosa, coisa de importância outra que arrebata corações tomados por paixões avassaladoras e enfeita mesas sofisticadas de gente de nossa melhor sociedade, ou coisa ainda mais séria que Umberto Eco nos conta, mas não explica; pelo contrário aquele nome dizia respeito à coisa bem mais simples e corriqueira, nada mais que uma pequena florzinha silvestre que brota de escombros – saramago – em minúsculo mesmo, pois flor não merece distinção de gente, ainda que como gente brote em qualquer parte, até mesmo em escombros.
            No registro encontrar-se-á o dia 18, mas uma coisa é o dia em que se nasce e outra aquele em que se registra o que nasceu, ora só o que faltava é não considerar o existente por dois dias, tirar da existência dois dias por coisas burocráticas como registros de nascimento. Nasceu e por dois dias o Estado não o reconheceu, talvez por vingança depois de crescido o nascido também o Estado não reconheceu, mas isso são coisas de comunista que depois veremos como se dão. Naquele momento não era comunista nem cristão, apenas era e assim cresceu e se mudou, porque diferente de flor silvestre que sempre está onde nasce, com gente é diferente, sempre carregando suas raízes fora da terra, levantado do chão, navegam com suas coisas e filhos para cidades grandes e frias que os recebem com indiferença e asco como se o chão que assenta a cidade não fosse também o mesmo chão que abrigava os que antes não tinham terra e na cidade continuam não tendo por profissão. Mas, cidades são escombros de outra natureza feitos dos sonhos daqueles que nelas chegam e o jovem José em Lisboa também sonhava e estudou no Liceu e no Técnico sem, contudo, poder continuar os estudos, pela maldição do nome se colocou a trabalhar desde cedo, aos 12 anos, como serralheiro, depois mecânico, desenhador e funcionário público de vários afazeres na saúde e previdência social e tanto trabalhou que não seguiu estudando como queria. Não podendo desposar os livros em seu templo universitário, os visitava como amante furtivo na Biblioteca Municipal no Palácio Galveias, na freguesia de Nossa Senhora de Fátima bem de frente à Praça de Touros do Campo Pequeno, que fora no século XVII casa de campo, quando ali ainda era campo, da família do ilustre e nobre senhor Marques de Távora que não receberia em sua casa coisa tão pequena como saramago, gente ou flor, mas que em 1759 perdeu a casa por conta de um processo movido pelo Estado envolvendo escândalo de grande monta ligado à tentativa de assassinato de D. José I, o que mostra que nem todo José carrega a maldição do trabalho ocupando-se de coisa mais nobre que é governar reinos, sem contar o próprio José que depois de se tornar santo não mais se ocupou da marcenaria por uma espécie de nepotismo celestial; mas o fato é que Dom Francisco de Távora perdeu sua bela casa que de mão em mão passou até que 1928 por ação da Câmara Municipal de Lisboa foi transformada em biblioteca, que diferente de palácios nobres aceita a qualquer um, seja saído ou não de escombros silvestres. Foi ali que o jovem José navegou novamente para longe só que desta vez sem sair do lugar, nas asas de páginas amareladas, cheirando a ácaro e mofo, se converteu em Ícaro e voou protegendo suas frágeis asas de cera do sol inclemente da realidade no interior das paredes de tal palácio que já foi de Marqueses e agora se diz público, onde se explica abrigar um menino de pais agricultores como os pais deles, que estudou e trabalhou e agora só trabalha de onde foge para amar os livros às escondidas.
            E amou e de tanto amar também passou a amar gente que como sabemos difere de flores e da mesma forma dos livros ainda que como eles conte histórias que carregamos não em páginas, mas nos olhos e no corpo e nas palavras que dizemos como nos livros e, da mesma forma que nos livros, às vezes nos vemos melhor que em nós mesmos ou em outro qualquer tipo de espelho, às vezes vemos outras pessoas em que nos vemos e, por um momento, já não sabemos onde acaba ela, onde começa a gente e, em fim, nos apaixonamos. E foi assim com José que encontrou Ilda Reis e com ela se casou no ano que então corria e que era o de 1944. Logo depois a terra tremeria e a culpa não foi ainda de Joana Carda e sua vara, mas de um pintor e seu tambor que varreria o mundo com suas hordas e que, ao contrário de nosso personagem, não amava os livros, mas os queimava. No entanto, mesmo em tempos de barbárie nos quais a humanidade mesma quase vira escombros, nascem flores, ainda mais aquelas que por vocação e nome nascem em escombros, e foi assim que no mesmo ano duas flores nasceram e nenhuma delas era flor: uma na forma de gente, também pequena flor silvestre brotando em ruínas, que recebeu o nome de Violante, sua filha; e outra, um pouco flor, um pouco filha, na forma de livro que batizou (porque livros também têm nomes) como o nome de A viúva (1947). Nomes são coisas interessantes, uns ficam com a gente a vida toda, mas por vezes colam em nós nomes que não são nossos e ficam sendo mais nossos nomes que os nomes que nos deram, como aconteceu com Lênin que era Vladimir, e foi isso que se deu com o primeiro livro de nosso escritor que nasceu com o nome de A viúva, mas o editor achou que assim não venderia e o rebatizou de Terra do pecado e desta forma foi conhecido, menos pelo próprio autor que odeia o nome dado, talvez porque tenha sido a primeira vez que se reencontrou com seu destino e de sua família, aquele de produzir coisas que se vão e não mais ficam nossas.
            Talvez por isso mesmo, ou porque nasceu com nome de flor silvestre que nasce em escombros, ou por serem seus pais camponeses que não tinham terra como seus avós, ou por trazer marcado no corpo a sina daqueles que trabalham para ver seu produto fugir de suas mãos, ou porque se chamava José e tinha que trabalhar e trabalhar, ou porque se parecia a Blimunda[4] que quando não comia seu pão pela manhã podia ver dentro das pessoas, ou porque amava as palavras e os livros, e por isso as pessoas, ou porque podia construir na sua cabeça outro mundo que não este no qual flores, pessoas e livros são queimados, ou talvez por tudo isso, se tornou comunista: em 1969 entrou no Partido Comunista Português.
             Assim como ninguém nasce cristão ou comunista, um escritor não nasce quando escreve seu primeiro livro. José foi se procurando naquele mar de palavras, mas não se via bem naquilo que escrevia. Seu segundo livro foi rejeitado pelas editoras, chamava-se Clarabóia e permaneceu inédito para sempre; só voltaria a publicar dezenove anos depois, mas agora bravo com a prosa resolveu se procurar na poesia e os chamou de Os poemas possíveis (1966). É mais fácil da gente se ver na poesia, ainda que seja mais difícil fazê-la, porque ela se mostra assim inacabada de maneira que uma pessoa olha o que é mostrado e se encontra naquilo que não é revelado, então, ela inventa o resto imaginando que o poeta escreveu para ela. Outros dois livros de poemas viriam, Provavelmente alegria (1970) e O ano de 1993 (escrito em 1975, porque os poemas também não nascem com calendários e às vezes se confundem); tímidos como seu pai/flor silvestre, não se mostraram facilmente a todos que o procuraram e também neles José não se encontrou verdadeiramente. Tinha, pela maldição do nome, que continuar trabalhando, mas foi assim procurando um jeito de ficar perto das amadas palavras e pouco a pouco foi trabalhar em editoras e jornais[5] e percebeu que as palavras, assim como as flores mudam, ainda que sejam sempre as mesmas flores, não são sempre as mesmas palavras, que plantadas em prosa soam solenes, em poesia se tornam leves como plumas e no jornal se apresentam duras. Como ele amava as palavras incondicionalmente, as amava como elas eram, leves ou densas, alegres ou cínicas, poéticas, sublimes ou duras, como amava as pessoas que da mesma forma assim se apresentam, como flores e palavras, às vezes meigas, às vezes cruéis, portanto, não poderia amá-las menos pela crueza do dia a dia contando-nos coisas prosaicas e corriqueiras, sobres coisas que marcam tão fortemente um dia, mas que raramente são lembradas na semana, nas cinzas do mês ou no túmulo dos anos. Desta forma, pois a vida encontra formas muito várias para promover encontros, uma flor silvestre sem terra, nascida de escombros, que havia encontrado e amado os livros, que por amar palavras, pessoas e flores se tornou comunista, que por querer ser escritor pariu dois romances nos quais não se viu, que na poesia se procurou sem se achar, encontrou-se com a crônica. Deste encontro foram seus filhos: Deste mundo e do outro (1971), A bagagem do viajante (1973), As opiniões que o DL (Diário de Lisboa) teve (1974), Os apontamentos (1977).

terça-feira, 17 de maio de 2011

Vale a pena viver, quando se é comunista

Dedicado a Antonio Gramsci

Quando a noite parece eterna
e o frio nos quebra a alma.
Quando a vida se perde por nada
e o futuro não passa de uma promessa.
Nos perguntamos: vale a pena?

Quando a classe parece morta
e a luta é só uma lembrança.
Quando os amigos e as amigas se vão
e os abraços se fazem distância.
Nos perguntamos: Vale a pena?

Quando a história se torna farsa
e outubro não é mais que um mês.
Quando a memória já nos falta
e maio se transforma em festa.
Nos perguntamos: vale a pena?

Mas, quando entre camaradas nos encontramos
e ousamos sonhar futuros.
Quando a teoria nos aclara a vista
e com o povo, ombro a ombro, marchamos.
Respondemos: vale a pena viver,
quando se é comunista.

Mauro Iasi

sexta-feira, 29 de abril de 2011

QUANDO OS TRABALHADORES PERDEREM A PACIÊNCIA

As pessoas comerão três vezes ao dia
E passearão de mãos dadas ao entardecer
A vida será livre e não a concorrência
Quando os trabalhadores perderem a paciência

Certas pessoas perderão seus cargos e empregos
O trabalho deixará de ser um meio de vida
As pessoas poderão fazer coisas de maior pertinência
Quando os trabalhadores perderem a paciência

O mundo não terá fronteiras
Nem estados, nem militares para proteger estados
Nem estados para proteger militares prepotências
Quando os trabalhadores perderem a paciência

A pele será carícia e o corpo delícia
E os namorados farão amor não mercantil
Enquanto é a fome que vai virar indecência
Quando os trabalhadores perderem a paciência

Quando os trabalhadores perderem a paciência
Não terá governo nem direito sem justiça
Nem juizes, nem doutores em sapiência
Nem padres, nem excelências

Uma fruta será fruta, sem valor e sem troca
Sem que o humano se oculte na aparência
A necessidade e o desejo serão o termo de equivalência
Quando os trabalhadores perderem a paciência

Quando os trabalhadores perderem a paciência
Depois de dez anos sem uso, por pura obscelescência
A filósofa-faxineira passando pelo palácio dirá:
"declaro vaga a presidência"!

Mauro Iasi: Professor da UFRJ e membro do Comitê Central do PCB (Partido Comunista Brasileiro)