Eles pensam que a dignidade de uma mulher está em seus cabelos
As mulheres pensam que sua força está em seus cabelos,
Não são Dalilas: Sansão.
Rapunzel era digna,
Virgem Maria idolatrada:
Pura queratina
Pobre Rapunzel!
Joana D’arc fora excomungada.
Em Auschwitz-Birkenau, em Belzec ou em Varsóvia
As mulheres carecas choraram a perda de sua dignidade capilar.
E de toda a sua condição humana.
Para as mulheres que tem câncer,
Para as índias apaches escalpadas,
Para todos os anjos calvos.
O que tu, Homem, ama?
Como tu, Homem, ama?
Nana Krishna Andrade
Mostrando postagens com marcador Nana Krishna Andrade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Nana Krishna Andrade. Mostrar todas as postagens
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
O feio da cabeça
Marcadores:
Nana Krishna Andrade,
poesia
terça-feira, 13 de setembro de 2011
Um Poema
O meu corpo é território ibérico
Há em meu interior, pequenos cavaleiros e escudeiros,
Mouros, castelhanos, asturianos, catalães.
Gente pequena guerreia dentro de mim.
Sinto as espadas ferindo uns aos outros,
Micro espadas dilaceram o meu coração,
Meu fígado,
Meus pulmões.
Cavalinhos galopam com força pelo meu ventre.
Ah! Dor.
Astúrias, Angústia.
O que é este mistério?
Fundamentos marciais de séculos passados.
Fecho os meus olhos e consigo ver a cor púrpura,
O vermelho,sangue, carmim.
Amarrada, arrasada, aguardo o fim.
Inconsolável, espero o som fúnebre da guitarra,
Andaluzia, Granada.
Nana Krishna Andrade
Marcadores:
Nana Krishna Andrade,
poesia
quinta-feira, 16 de junho de 2011
Combinado
Vou me formatar, vou deixar de ser o kitsch, o camp, o barroco
Vou fazer cálculos de trigonometria,
Geometricamente procurar a perfeição da aparência.
Porque, meu caro, convenhamos, a miséria que há em meu rosto,
Não combina nem um pouco com a sua elegância enfadonha.
As minhas preferências em estar no meio da multidão suada, com as mãos amarradas...
Os meus grandes pés com pelos nos dedos,
E o meu nariz do Benim, tão desproporcional
A suas expectativas tão comuns...
Preciso de fato, me formatar como um pedaço de carne de porco que virou presunto da Sadia.
Nana Krishna Andrade
Nana Krishna Andrade
Marcadores:
Nana Krishna Andrade,
poesia
terça-feira, 3 de maio de 2011
A difusão da ideologia política nos cartazes da Revolução Constitucionalista de 19321 - Por Nana Krishna Andrade e Dênio Augusto Vieira Sarôa Ribeiro
A Revolução Constitucionalista de 1932 compõe um dos importantes acontecimentos históricos do Brasil republicano. Iniciada no dia 9 de julho do mesmo ano, em São Paulo, num quadro de instabilidade política, teve como principal razão as divergências entre o Partido Republicano Paulista, composto pelas oligarquias cafeeiras e o governo de Getulio Vargas durante a Revolução de 1930.
Os paulistas desejavam o retorno da constituição, e o controle administrativo do estado, que Vargas havia passado para as mãos de um “tenente” aliado. Diante da falta de autonomia política o único caminho encontrado pelos paulistas foi do conflito armado. Nesse processo, a ideologia da propaganda política veiculada em vários meios da imprensa, como os cartazes, foi fundamental para a adesão popular na Revolução Constitucionalista. Esse artigo pretende, portanto, apresentar exemplos dessas imagens que contribuíram, de forma incisiva, para que a população civil participasse desse processo político nos quadros da Era Vargas.
Os antecedentes da Revolução Constitucionalista de 1932: a crise da República Velha e os conturbados anos 1920
O período compreendido entre o final da década de 1920 e os primeiros anos da década de 1930 é marcado pela transição da República Velha (1889 - 1930) ao Governo Provisório de Getúlio Vargas (1930 - 1934). Cabe ressaltar que a República Velha caracterizou-se pelo predomínio dos grupos agrários, sob a hegemonia dos cafeicultores paulistas e mineiros que, segundo Viscardi citada por Resende (2003, p. 118 - 119), alternavam no poder através de uma aliança estável denominada “política do café com leite”. A República Velha também é marcada por um regime político coerente com os anseios das oligarquias estaduais amparado pela política dos governadores. Essa, por sua vez, visava estabelecer relações de compromisso entre o executivo federal e os executivos estaduais possibilitando assim, a formação de um legislativo coeso no plano federal para que o governo conseguisse dar sustentação às suas políticas.
Nos últimos anos da década de 1920, o Brasil vivenciou uma séria crise socioeconômica e política, uma vez que o sistema oligárquico pautado na política do café com leite e na política dos governadores começou a desagradar alguns setores da sociedade juntamente com as denominadas oligarquias de segunda grandeza. As autoras Marieta Ferreira e Surama Pinto (2003, p. 394) denominam como estados de segunda grandeza as federações do Rio de Janeiro, Pernambuco, Bahia e Rio Grande do Sul. Esses estados articularam um movimento que ficaria conhecido como Reação Republicana, que não tinha como proposta acabar com o modelo oligárquico em vigor, mas ampliar a participação de outras oligarquias no poder.
Nesse contexto, convém salientar a influência das atividades do movimento tenentista na década de 1920 e a sua ligação com a crise da República Velha. Esse grupo pretendia implementar no país um poder centralizado com o objetivo de construir a nação a partir da reconstrução do Estado através da redução do poder das oligarquias. Segundo Fausto (2004, p. 314) os tenentistas entendiam que o grande mal das oligarquias residia no fato de o Brasil estar fragmentado em “vinte feudos” cujos senhores eram escolhidos pela política dominante. Não acreditavam que o liberalismo fosse o caminho certo a ser seguido para reconstruir o país, além de acreditarem no autoritarismo como fator relevante para a reforma do Estado e da sociedade.
A partir das crises socioeconômicas e políticas dos anos 1920 e da movimentação dos tenentes observadas no mesmo período, podemos entender a crise da República Velha e o seu desfecho com a Revolução de 1930.
A Revolução de 1930
No ano de 1929 podem ser destacadas importantes transformações que resultariam na Revolução de 1930, liderada pela coalização formadora da Aliança Liberal (AL) sob o comando de Getúlio Vargas. O governo do então presidente Washington Luís era caracterizado por certa estabilidade política, pois segundo Ferreira e Pinto (2003, p. 403), “os confrontos que marcaram os primeiros anos da década de 1920 pareciam estar contornados”. Entretanto, no mesmo ano, ocorre em Nova Iorque a quebra da bolsa de valores tendo impacto direto e negativo sobre a economia brasileira e, principalmente, sobre a oligarquia paulista. Ainda no ano de 1929 têm-se a fissura no acordo tácito entre São Paulo e Minas Gerais no tocante a alternância da presidência da República.
A indicação de Júlio Prestes, conterrâneo de Washington Luís, a presidência, corroborou no desentendimento entre as oligarquias paulista e mineira. Com isso, em julho de 1929, gaúchos e mineiros se unem e lançam a candidatura de Getúlio Vargas a presidência e de João Pessoa, então governador da Paraíba, a vice-presidência. Diante disso, há a formação da Aliança Liberal tendo por base de sustentação os estados de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba. Seu programa era alcançar o apoio popular da classe média e, conseqüentemente, quebrar o poder da oligarquia cafeeira paulista.
Porém, as eleições realizadas em março de 1930 deram a vitória a Júlio Prestes deixando setores da Aliança Liberal inconformados. Com a derrota, a AL buscou aproximar-se das lideranças do movimento tenentista como Juarez Távora, Miguel Costa, Siqueira, Campos e Cordeiro de Farias. Porém, em 26 de julho de 1930, o candidato a vice pela Aliança Liberal, João Pessoa foi assassinado em Recife. Tal acontecimento serviu de pretexto para o início de um movimento revolucionário no dia 3 de outubro de 1930 e, em novembro do mesmo ano, Vargas assume o poder através do Governo Provisório.
Logo após assumir a presidência, Getúlio Vargas adota uma postura arbitrária e inconstitucional ao fechar o Congresso e as assembléias estaduais e municipais, depõe os governadores dos estados e revoga a constituição de 1891. As medidas arbitrárias pelo então presidente, foram diretamente de encontro aos interesses da oligarquia paulista. Para se manter no poder, Vargas pretendeu estender a sua ditadura com base na nova constituição e contava, para isso, com o apoio dos modelos militares dos quadros tenentistas na luta contra as oligarquias estaduais. Novamente, as elites paulistas foram contrariadas e, em 1932, estourou a guerra civil conhecida como a Revolução Constitucionalista.
A Revolução Constitucionalista de 1932
O movimento revolucionário iniciado em São Paulo no dia 9 de julho de de1932 está relacionado à insatisfação das oligarquias paulistas para com o desfecho da Revolução de 1930. Os rumos da política nacional caminhavam para o fortalecimento do poder central, em detrimento da autonomia de São Paulo.
Nesse contexto, observa-se uma disputa política entre o Partido Republicano Paulista (PRP) e o Partido Democrático (PD), que almejavam se consolidar no poder. Na tentativa de ampliar as suas bases eleitorais, os membros do PD se aliam aos grupos que pregavam a idéia de uma revolução objetivando minar o poder das oligarquias paulistas representadas pelo PRP. Nesse intuito, o PD une forças a Aliança Liberal que, por sua vez englobava o movimento tenentista. Contudo, essa manobra política resultou mais tarde no descontentamento dos membros da PD, pois segundo Pandolfi (2003, p. 19), ocorrera no imediato pós-30 a nomeação pelo governo federal do tenente pernambucano João Alberto para ocupar a chefia do estado de São Paulo, incomodando assim a elite paulista. Em junho de 1931, o PD exige a deposição de João Alberto nomeando-se em seu lugar o paulista Laudo Ferreira de Camargo. Porém, com a sucessão de crises, em menos de dois anos a interventoria do Estado de São Paulo sofreu cinco substituições.
Face aos acontecimentos mencionados, eclodiu em São Paulo no mês de julho de 1932, uma revolução que logo se transformou na pior guerra civil vivida pelo país. O autor Edgard Carone (1974, p. 306) ressalta que os paulistas organizaram e conduziram todo o movimento contra o governo federal por não estarem satisfeitos com as perdas sofridas, principalmente nos planos políticos e econômicos, pelo Estado de São Paulo no pós-30. Durante todo o período revolucionário, os revoltosos buscaram avidamente o apoio das distintas classes sociais para a luta. Para entendermos como o movimento conseguiu apoio dos civis, iremos analisar a propaganda e a ideologia empregadas.
A ideologia política como arma de mobilização para a luta
A classe dominante paulista conseguiu, através de meios ideológicos, mobilizar um número extraordinário de pessoas a aderirem à causa revolucionária. Essa elite utilizava um discurso que representava toda a sociedade e todos os seus interesses, se dirigindo assim, às várias camadas sociais objetivando a contribuição da maioria para a vitória paulista.
Outro não é o papel da ideologia; no discurso ideológico, o dominante reveste-se de generalidade e universalidade procurando anular a realidade das classes e a contradição entre elas. Com isto ocorre a identificação de uma parte da divisão com o todo, imaginariamente indivisível. Dessa forma, as idéias da classe dominante passam a ser aceitas como as únicas verdadeiras e válidas para o conjunto da sociedade. (CAPELATO, 1981, p. 20).
Os apelos para a mobilização eram dirigidos ao “povo paulista”, isso significava que qualquer um, independente de sua classe social deveria receber o chamamento para o combate. Por essa razão, a classe dominante dirigiu-se a população por meio do apelo as suas categorias profissionais. Dessa maneira, muitos intelectuais se solidarizaram com a revolução pró-constitucionalista. Os modernistas da semana de 1922 contribuíram com produção iconográfica, cartazes de propaganda, ilustrações em revistas e livros, além de letras de músicas de hinos e canções marciais. Anita Malfati, Monteiro Lobato, Menoti del Pichia ( que escreveu a obra a Revolução Paulista), Mario e Oswald de Andrade, Afonso Schimidt ( autor de A Locomotiva), e o cantor Francisco Alves foram exemplos de artistas que ajudaram, às vezes de forma anônima e gratuita, a “causa paulista”. O autor Jeziel De Paula comenta:
O ímpeto revolucionário e o entusiasmo patriótico despertaram uma criatividade artística intensa que se manifestou em todas a áreas e atividades. No curtíssimo período de apenas 85 dias floresceu de forma surpreendente uma verdadeira geração de obras de arte. Esse universo iconográfico, relativo a um mesmo tema, não encontra paralelo em nossa história, principalmente se consideramos que, em sua maioria, eram obras anônimas nas quais predominava o espírito da colaboração. Não buscavam, esses artistas, a glória e o reconhecimento pessoal, mas a vitória coletiva da causa constitucionalista em que acreditavam. (1999, p.236)
O papel dos meios de comunicação na propaganda da Revolução de 1932
Na cruzada pró-constitucionalista, todos os meios de comunicação de massa se empenharam no sentido de sensibilizar, por meios dos sentimentos de regionalismo, nacionalismo e busca por liberdade, para abarcar o maior número de pessoas para a luta armada. Panfletos, jornais, rádios, cartazes, comícios, slogans, eram os meios usados para incitar a população a pegar em armas. No domínio da consciência pública, a grande imprensa, teve o papel de destaque, como principal formadora de opinião.
Faz-se necessário, portanto, dar um maior destaque aos cartazes produzidas na época, para compreendermos como foi essa abordagem à população. De Paula explica:
Os muros e postes das cidades paulistas foram forrados por trabalhos publicitários que incentivavam o alistamento militar voluntário, solicitavam a doação de bens e de serviços e enalteciam os que lutavam pela causa. Todos, porém, traziam de uma forma ou de outra a tônica da brasilidade, conclamando à união nacional. (1999, p. 240)
Marcadores:
artigo,
Dênio Augusto Vieira Sarôa Ribeiro,
Nana Krishna Andrade
quarta-feira, 13 de abril de 2011
Uma análise histórica sobre o Luxo e a Sociedade de Corte européia do século XVII através da obra literária A Roupa Nova do Rei de Hans Christian Andersen
Uma análise histórica sobre o Luxo e a Sociedade de Corte européia do século XVII através da obra literária A Roupa Nova do Rei de Hans Christian Andersen.
Nana Krishna Andrade
Todos querem mais do que podem,Nenhum se contenta com o necessário,Todos aspiram ao supérfluo,E isto é o que se chama luxo.
Padre Antonio Vieira.
No século XIX, um escritor dinamarquês de nome Hans Christian Andersen escreveu um conto infantil que representava bem as atitudes de um provável rei absolutista da Europa do século XVII. A Roupa Nova do Rei relata a história de um monarca muito vaidoso e muito afeiçoado as suas roupas e as novidades da moda. Há ainda, no conto, elementos que identificam a Sociedade de Corte e a sua ambição pelo luxo e pela ostentação, características típicas do Estado Absolutista barroco.
O conto se inicia com a chegada de dois mercadores espertalhões ao reino, e que tentando se passarem por tecelões e alfaiates de prestigio, oferecem um tecido de rara beleza ao rei. Este tecido, porém, contém qualidades mágicas: só poderia ser visto por pessoas competentes e inteligentes, tornando-se invisível aos olhos dos imbecis e incompetentes. Logo, o rei fica maravilhado com as qualidades do tecido e todos os súditos do reino também se encantam com tal objeto raro. (ANDERSEN, p. 141, 1994)
Já nesses primeiros momentos do conto, observam-se elementos típicos de uma sociedade européia moderna e de um reino absolutista. Há nesse momento histórico na Europa do século XVII, uma secularização, ou seja, o poder político do Estado já não compartilha plenamente as suas decisões com a Igreja. O monarca se constitui o poder absoluto, a cabeça de um Estado corporativo.
Sendo o rei absolutista o poder central, ele não devia tantas obrigações a Igreja Católica. No conto, o tecido especial oferecido ao rei era um objeto mágico: tornava-se visível e invisível. Em tempos feudais tal objeto seria questionado quanto a sua natureza mística. Provavelmente o tecido e os mercadores iriam ser censurados por membros eclesiásticos. O tecido mágico seria considerado objeto do demônio e os mercadores seriam julgados por bruxaria.
Contudo, na fábula de Andersen, a despeito dos julgamentos religiosos, a vontade do rei prevaleceu, e ele adquiriu a fazenda mágica.
O conceito de luxo, da ostentação da riqueza já era um fenômeno histórico de épocas antigas, mas vai ser na Europa Moderna, que passava por uma transição econômica do modo de produção feudal para o capitalista, que este conceito vai achar seu campo mais fértil. Ser nobre significava possuir o que havia de mais belo, viver cercado de artigos maravilhosos, de pompas, como forma de afirmar posições de prestigio e superioridade.
[...] Não há sociedade estatal – hierárquica sem as escaladas dos signos faustosos da desigualdade social, sem os sobrelanços ruinosos e as rivalidades de prestigio pelos consumos improdutivos. Max Weber e Norbert Elias já sublinharam fortemente: nas sociedades aristocráticas, o luxo não é algo supérfluo, é uma necessidade absoluta de representação decorrente da ordem social desigual. (LIPOVETSKY, p.34, 2005).
O rei do conto de Andersen se encanta com a possibilidade de adquirir algo totalmente novo e exótico para sua coleção de roupas e artigos de luxo. Em uma tentativa de exibir a novidade, de ser glorificado e imortalizado pelo evento de possuir algo inovador e de ostentá-lo, ele realizará o desfile para a exibição de seu traje.
Há nesse aspecto do luxo, retratado pela obra literária, elementos que indicam uma mudança na mentalidade do homem moderno: o luxo se tornou sensual. Há o apego estético por coisas belas, o profano se sobressai ao sagrado, há o erotismo dos bens raros. “O processo de desclericalização das obras abriu os caminhos modernos da individualização e da sensualidade do luxo. Ele entrou em seu momento estético.” (LIPOVETSKY, p.37, 2005).
A moda surge nesse contexto europeu, na metade do século XIV. Esse contexto de valorização do luxo e das mudanças na tradição, no apego pela inconstância e pela frivolidade. Já nos séculos XVI e XVII vai se estabelecer, e indicar as formas como a Sociedade de Corte se apresentava e se impunha. No conto, o rei já é dominado por esse novo emblema da moda. “Há muitos e muitos anos, vivia um imperador que só se preocupava em vestir roupas caras e elegantes, gastando com essa vaidade todo o dinheiro que tinha.” (ANDERSEN, p. 140, 1994).
Sobre a moda surgida na Europa Moderna, o filósofo Gilles Lipovetsky afirma:
O aparecimento da moda é a lógica do jogo e da festa (excesso, desperdício) anexando pela primeira vez a arquitetura da toalete. [...] Com a moda instala-se a primeira grande figura de um luxo absolutamente moderno, superficial e gratuito, móvel, liberto das forças do passado e do invisível. (p.40, 2005).
Além das questões do luxo e da moda, outra característica do Estado Absolutista europeu observado no conto é a Sociedade de Corte, surgida na Europa centro-ocidental, em um período de transições econômicas, políticas e sociais, aproximadamente durante os séculos XVI e XVII, se caracterizava por ser uma sociedade hierarquizada, de cargos, elites, e de protocolos e manuais de etiqueta que regulamentavam a vida aristocrática.
Esses manuais de etiqueta, códigos de boa conduta, e diplomacia regiam os comportamentos dos cortesãos e da monarquia. E se tornaram sinônimos, também, de uma diferenciação de classes e de mudanças de elementos éticos e morais, já que os manuais que divulgavam essa nova forma de relações entre o meio e as pessoas, circularam quase que exclusivamente entre os membros das cortes.
Na sociedade de corte existiam muitas disputas pelos cargos de confiança do rei, pelas posições de poder, pelos ministérios. A incessante luta entre os nobres para se manterem no círculo de prestigio do monarca fazia com que certas alianças fossem fortalecidas e que certas “artes” como a arte de observar e de manipular os outros, estudadas por Norbert Elias, fossem aprimoradas.
Um perfeito cortesão é senhor dos seus gestos, dos seus olhos, do seu rosto; é profundo, impenetrável; dissimula os maus ofícios; sorri aos inimigos, oculta sua má disposição, mascara as suas paixões, contraria o coração, fala e age contra os seus sentimentos. (SAINT-SIMON apud ELIAS, p.28, 1987)
Na trama de Andersen, quando o rei pede ao seu Primeiro Ministro que supervisione a confecção de sua roupa, o rei objetiva testar a competência do seu ministro. Este, porém se vê numa situação difícil, pois constata que não consegue enxergar a roupa feita do tecido mágico. Sua reação será, obviamente, não se entregar na sua ignorância e fingir para os falsos alfaiates que consegue vê a vestimenta com todo seu esplendor.
Tem se aí, nessa passagem do conto A Roupa Nova do Rei, um exemplo da arte de observar as pessoas e se preservar manipulando a situação, usando da diplomacia como um meio de defesa do seu cargo político. Isso vai acontecer novamente, na história, com o conselheiro e com o próprio rei, que não vendo a roupa pronta, simularão a satisfação de vê-la. Certamente, os falsos tecelões se aproveitam do código de etiqueta e das posições frágeis da nobreza em assumirem suas fraquezas.
O conto se conclui com o desfile do rei vestindo o traje mágico e invisível. Todos os seus súditos fingem ver o rei com suas roupas e elogiam seus trajes. Ninguém teria coragem de contrariar um rei absoluto, e que estava na realidade nu. Mas uma criança grita no meio da multidão que o rei estava nu. Logo todos os súditos do reino concordam com o julgamento infantil e se rebelam contra o rei e sua atitude ridícula ocasionada por sua vaidade desmedida.
O imperador estremeceu, caindo em si e compreendendo que havia sido logrado. Sem nada dizer, seguiu em frente, pensando: “Tenho de agüentar firme até o final do desfile”. E lá se foi ele, caminhando de cabeça erguida, enquanto os dois camareiros reais seguiam atrás, segurando as pontas da cauda do manto que não existia. (ANDERSEN, p.145, 1994).
As classes mais baixas do reino absolutista desconheciam ou não partilhavam dos códigos de boa maneira da Sociedade de Corte. Como no exemplo do texto de Hans Christian Andersen, o rei é respeitado por sua posição ímpar até seu julgamento, pelos seus súditos, no desfile. Mas a atitude do rei é a mais acertada, sabendo ele de seu lugar na sua sociedade. Por fim ao desfile assim como começou, com sua postura de superioridade implacável, significa ao rei, antes de tudo, assegurar sua permanência no poder.
Marcadores:
artigo,
Nana Krishna Andrade
quinta-feira, 17 de março de 2011
Nana Krishna Andrade - Do Corpo à Terra
A manifestação Do Corpo à Terra: a presença da Arte Guerrilha no início no Brasil
A partir dos anos 60, os artistas plásticos brasileiros redirecionaram suas temáticas e discussões de um enfoque estético para um outro politicamente e socialmente engajado, dadas as circunstâncias políticas em que o país se encontrava diante da ditadura militar. Os ideais das esquerdas armadas lideradas pelo PCB e os posicionamentos já tomados por artistas de outras áreas, radicalizaram formalmente os discursos visuais desses artistas plásticos, já há muito influenciados pelos movimentos neovanguardistas internacionais.
Este artigo pretende tratar sucintamente, dessa arte engajada politicamente, intitulada de Arte Guerrilha, assim como da manifestação Do Corpo à Terra, ocorrida em 1970, na cidade de Belo Horizonte. Essa manifestação se constituiu o auge do movimento da Arte Guerrilha e encerrou a importante trajetória das exposições artísticas antes da instauração do AI-nº5.
A proposta da Arte Guerrilha e seus principais expoentes
Arte Guerrilha foi o nome dado, pelo crítico de arte Frederico Morais, a uma atuação mais radical em termos de postura política, dos artistas plásticos brasileiros em meados da década de 1960.
Os artistas adeptos dessa forma mais efetiva de produção estética estavam fortemente influenciados pela Pop Art, pela Arte Conceitual e pelas tendências de desmaterialização na arte. Unem-se a essas influências das neovanguardas, os idéais revolucionários das guerrilhas armadas da Esquerda, tanto brasileira, quanto as de outros países latino-americanos.
A produção das obras e a divulgação das propostas da Arte Guerrilha se davam de maneira a aproximar o grande publico, por isso, para as ações dessa arte eram utilizados os Happenings, as performances, as grandes instalações, o farto uso dos objetos do universo do cotidiano popular e do material de publicidade e propaganda.
Cildo Meireles, um dos artistas desse grupo, montou, por exemplo, em 1968 a instalação Desvio para o vermelho, que consistia em um ambiente onde todos os móveis e adornos eram vermelhos e em um canto escuro um líquido, da mesma cor dos objetos da sala, cai sobre uma pia inclinada. O efeito perturbador desse cômodo deixou claro o caráter alegórico da obra, que se referia à ditadura militar e à violência no país. “No caso de Desvio para o vermelho, a metáfora política da violência armada foi uma abordagem possível a partir da envolvente impressão cromática instaurada pelo artista. A cor toma conta do olhar e se transforma em símbolo, notadamente de uma violência relacionada ao desejo revolucionário.”1
O artista pop Antonio Manuel também participou ativamente desse período de convulsão social. Suas obras passaram a retratar de forma corajosa o momento político do país e as grandes manifestações nas ruas. Para conseguir tal resultado artístico, Manuel se utilizava de colagens de jornais e imagens serigrafadas. Por algumas vezes, suas obras foram consideradas subversivas, e proibidas de serem expostas como no Salão de Brasília em 1967, ou na Bienal baiana de 1968. 2
Outros artistas igualmente importantes da Arte Guerrilha, foram Artur Barrio, Thereza Simões, Guilherme Vaz, Raimundo Colares, Odila Ferraz, Luis Alphonsus, entre outros. Frederico Morais, entusiasmado com o ideário revolucionário da contracultura do filósofo Marcuse, publica o artigo Contra a Arte.
E foram com esses ideais que Frederico Morais escreveu o Manifesto Do corpo à Terra e realizou a exposição de mesmo nome, em 1970 no Palácio das Artes em Belo Horizonte.
A manifestação Do Corpo à Terra
Marcadores:
artigo,
Nana Krishna Andrade
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Amarga
Eu tenho o poder de retumbar, com os meus passos, o chão seco e vermelho do sertão;
tenho a força de galopar uma égua campolina
domar besta desgarrada na unha e no grito.
Por isso exijo respeito e sua devoção é para mim, obrigação.
A força é bruta,
e de tão bruta se lasca
é choro.
Se estou completa, por quê o choro?
A mulher acrobata tem a ousadia de bailar na fita e não despencar,
Ela está de picardia
vai se jogar ou não?
Sedução e ira
E ainda me provoca com a força dos seus movimentos na fita.
Das alturas ela não desce para me encontrar.
Eu estou sendo feita de brihantes
Micro pontos de brilhantes
Eu sou
Não há átomos, nem células.
Brilhantes e espaços vazios.
Etéreo e branco
O que faço? Danço.
Nana Krishna Andrade
tenho a força de galopar uma égua campolina
domar besta desgarrada na unha e no grito.
Por isso exijo respeito e sua devoção é para mim, obrigação.
A força é bruta,
e de tão bruta se lasca
é choro.
Se estou completa, por quê o choro?
A mulher acrobata tem a ousadia de bailar na fita e não despencar,
Ela está de picardia
vai se jogar ou não?
Sedução e ira
E ainda me provoca com a força dos seus movimentos na fita.
Das alturas ela não desce para me encontrar.
Eu estou sendo feita de brihantes
Micro pontos de brilhantes
Eu sou
Não há átomos, nem células.
Brilhantes e espaços vazios.
Etéreo e branco
O que faço? Danço.
Nana Krishna Andrade
Marcadores:
Nana Krishna Andrade,
poesia
Assinar:
Postagens (Atom)