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quarta-feira, 30 de julho de 2014

Luta ou fuga? (Aos companheiros das jornadas de junho)

O cérebro humano primitivo
espreita, escuta, pressente:
o ruído, o silêncio, o perigo.
Tensão, pupilas, pulmão.
Atenção…
Adrenalina, músculos, ação… ou não:
mordida, ferida, contusão.
Lutar ou fugir?
Eis a questão!
Hamlet com uma caveira na mão
sobre a cova de um causídico
indaga ser justa ou delírio,
a raiva que move sua mão.
Fugir ou lutar?
Ousar ou fingir.
Outra face… perdoar?
Sonhar, voltar a dormir?
Viver, acordar!
Para a rua… protestar!
Fogueiras, vinagre, bandeiras,
negras ou vermelhas,
Nenhum passo atrás!
Lutar!

Mauro Iasi
Rio de Janeiro, agosto de 2013


terça-feira, 10 de junho de 2014

Pergunta ao burguês


Ei, burguês?
Tá vendo aquela menininha?
Aquela lá da esquina,
Aquela que cata latinha?


Tá vendo aquele menininho?
Aquele que empina pipa,
Que cata lixo,
Que come lixo.


Ei, burguês?
Tá vendo a criancinha,
Querendo ser alguém,
E ouvindo a ditadura,
Ditadura da meritocracia?


Meritocracia é fácil,
É simples.
Acontece que a vida
Para chegar a ela
Não é fácil,
Não é simples.


Burguês,
Enquanto você sonha em virar doutor,
Uma outra mãe,
Que não é a sua,
Sonha em ter um filho comum,
Um filho que vai trabalhar na tua clínica.


Burguês,
Esta noite, você vai dormir.
Vai ter um beijo de boa noite,
E aquela menininha,
Que catava latinha,
Vai ter um beijo da noite,
A luz do luar,
Sem frio, sem casa,
Na escuridão.


Ela nasceu pobre,
E você nasceu rico.
O que você come,
Ela não comerá.


Se ela morrer amanhã,
A culpa é tua.
Ninguém vai passar ela na televisão,
E você não vai saber,
Porque terá
Afazeres mais importantes,
Como xingar o poeta desta poesia.


Xingue a vontade,
Burguês.
O lixo que tu escreves,
É arte para quem trabalha.


Romes Sousa


segunda-feira, 9 de junho de 2014

VIVA OS 116 ANOS DE FEDERICO GARCIA LORCA

FOLHETIM 497 - AGOSTO DE 1986

PARA ACESSAR, CLIQUE NO LINK

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terça-feira, 27 de maio de 2014

O que falta para a gente se organizar?

É a hora, é agora..
É apelo, é unido..
É urgente.. é preciso..
Criar o poder popular!

Tocam exército e polícia militar
as canções da ordem burguesa
Longe dos ricos condomínios
Atuam como grupos de extermínio

Porque“país rico é país sem pobreza”
Escondem rápido a sujeira que restar
Clínica, cela, delegacia, corró..

Guerra declarada, morte, pancada,
É só pobre sofrendo nas mãos
Desses cães viciados em pó

É a hora, é agora..
É apelo, é unido..
É urgente.. é preciso..
Criar o poder popular!

Existe mais guerra na paz do pobre
Do que se pode imaginar gritar
Segura a mão do senhor torturador
Esse corpo tão calejado de dor
Não suporta mais apanhar

É a hora, é agora..
É apelo, é unido..
É urgente.. é preciso..
Criar o poder popular!

Os anos trouxeram-nos coragem
em doses amargas... malandragem
Tudo pode ser pior do que é
para quem é pobre e anda a pé

Barraco de aluguel
Condução lotada
O silêncio da noite
interrompido
pela criança baleada

É a hora,é agora..
É apelo, é unido..
É urgente.. é preciso..
Criar o poder popular!

O silêncio é mortal
Para aqueles que temem a mira,
Mas a mãe noite marginal
Deita seu imenso corpo
sobre o corpo da cria
Grito ao infinito grito
Solto, solitário,
Choro incendiário

É a hora, é agora..
É apelo, é unido..
É urgente.. é preciso..
Criar o poder popular!

Aqui, todo bandido é organizado e armado
defendem a propriedade com corpo baleado
Trabalhador pobre sem partido, sem vintém
Não ousa conspirar, grita por paz
E pede para os iguais se desarmar... Amém
Sem legítima defesa,teme pelo que não tem
O que falta para a gente se organizar?

É a hora, é agora..
É apelo, é unido..
É urgente.. é preciso..
Criar o poder popular!

Lopes Camarada

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Rap de las FARC-EP con grupo "Cuentas Claras" - Pueblo Colombiano: ¡Pa´la mesa!









Los guerrilleros y guerrilleras de las FARC-EP presentamos este trabajo audiovisual llamado "Pueblo colombiano pa'la mesa".

En este video, hemos tratado de reflejar la difícil situación que vive el campesinado colombiano, del que muchos de nuestros integrantes formaban parte antes de ingresar en las filas de las FARC-EP. Historias como la del comandante guerrillero Miguel Pascuas, protagonista de este video, hay miles.

Nuestros campesinos son perseguidos, estigmatizados, desplazados; sus tierras fumigadas. Y cuando deciden ingresar en la guerrilla, porque el Estado no les ofrece otra opción de vida, son criminalizados y se ofrece una recompensa por sus cabezas.

Sus historias y sufrimientos también hacen parte de la verdad histórica sobre el grave conflicto social y armado que vive nuestro país. Sus razones de luchar, individuales inicialmente pero luego multiplicadas y colectivizadas, son las mismas causas que han originado este conflicto. Tristemente, la realidad de la Colombia siglo XXI desmiente el mito inculcado de que las causas objetivas que quizás hayan existido al inicio ya no existen. Es que abundan. Se reflejan en la ignorancia, en el hambre y en la exclusión.

Miguel Pascuas hizo parte del grupo de 48 recios campesinos que fundaron las FARC-EP, en Marquetalia, Sur del Tolima (Colombia). Junto con Manuel Marulanda Vélez, Jacobo Prías Alape, Jacobo Arenas y otros valientes compañeros, resistieron un gigantesco operativo militar de 16.000 soldados, dirigido desde el Pentágono.

Así se fueron organizando, primero como autodefensa, y luego como movimiento guerrillero con un proyecto estratégico para la toma del poder para el pueblo, por la vía política de las alianzas o por la vía militar... Leer más: http://pazfarc-ep.org/index.php/artic...

Escucha en mp3 y descarga: https://soundcloud.com/rap-cuentas-cl...
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sexta-feira, 9 de maio de 2014

"Com o russo em Berlim"

O Brasil é o único país da América do Sul que participou da Segunda Guerra Mundial. A Força Expedicionária Brasileira, a FEB, lutava na Itália. O slogan “A cobra está fumando” foi adotado pela FEB em alusão ao que se dizia na época que era “mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil entrar na guerra”. Então, a cobra fumou. A FEB conseguiu vitórias importantes, tomando cidades e regiões estratégicas, como o Monte Castelo, Turim, Montese e outras. Mais de 14 mil alemães renderam-se aos brasileiros.

Caros amigos! Hoje é uma data muito especial para todos os russos, para todos os povos do mundo. É o dia da vitória sobre o nazismo, ou, como dizemos na Rússia: “o dia da alegria com lágrimas nos olhos”.
Lágrimas causadas pela dor de enormes e insubstituíveis perdas da URSS naquela Guerra. Mas graças aos heróicos esforços do povo inteiro a vitória foi alcançada. O grande poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade dedicou um dos seus belíssimos poemas à derrota dos nazistas, à vitória da vida sobre a morte, à vitória em que o papel dos soldados soviéticos é sem par. Eis, o seu maravilhoso poema:
Esperei (tanta espera), mas agora,
nem cansaço nem dor. Estou tranquilo,
Um dia chegarei, ponta de lança,
com o russo em Berlim.
O tempo que esperei não foi em vão.
Na rua, no telhado. Espera em casa.
No curral; na oficina: um dia entrar
com o russo em Berlim.
Minha boca fechada se crispava.
Ai tempo de ódio e mãos descompassadas.
Como lutar, sem armas, penetrando
com o russo em Berlim?
Só palavras a dar, só pensamentos
ou nem isso: calados num café,
graves, lendo o jornal. Oh, tão melhor
com o russo em Berlim.
Pois também a palavra era proibida.
As bocas não diziam. Só os olhos
no retrato, no mapa. Só os olhos
com o russo em Berlim.
Eu esperei com esperança fria,
calei meu sentimento e ele ressurge
pisado de cavalos e de rádios
com o russo em Berlim.
Eu esperei na China e em todo canto,
em Paris, em Tobruc e nas Ardenas
para chegar, de um ponto em Stalingrado,
com o russo em Berlim.
Cidades que perdi, horas queimando
na pele e na visão: meus homens mortos,
colheita devastada, que ressurge
com o russo em Berlim.
O campo, o campo, sobretudo o campo
espalhado no mundo: prisioneiros
entre cordas e moscas; desfazendo-se
com o russo em Berlim.
Nas camadas marítimas, os peixes
me devorando; e a carga se perdendo,
a carga mais preciosa: para entrar
com o russo em Berlim.
Essa batalha no ar, que me traspassa
(mas estou no cinema,e tão pequeno
e volto triste à casa; por que não
com o russo em Berlim?).
Muitos de mim saíram pelo mar.
Em mim o que é melhor está lutando.
Possa também chegar, recompensado,
com o russo em Berlim.
Mas que não pare aí. Não chega o termo.
Um vento varre o mundo, varre a vida.
Este vento que passa, irretratável,
com o russo em Berlim.
Olha a esperança à frente dos exércitos,
olha a certeza. Nunca assim tão forte.
Nós que tanto esperamos, nós a temos
com o russo em Berlim.
Uma cidade existe poderosa
a conquistar. E não cairá tão cedo.
Colar de chamas forma-se a enlaçá-la,
com o russo em Berlim.
Uma cidade atroz, ventre metálico
pernas de escravos, boca de negócio,
ajuntamento estúpido, já treme
com o russo em Berlim.
Esta cidade oculta em mil cidades,
trabalhadores do mundo, reuni-vos
para esmagá-la, vós que penetrais
com o russo em Berlim.
Este poema de Carlos Drummond de Andrade entrou no livro A Rosa do Povo que contém vários poemas sobre “acontecimentos” da Segunda Guerra Mundial.
A guerra mobilizou poetas em todo mundo e virou música.
Fora do Brasil, o poeta britânico Wystan Hugh Auden ainda em 1º de setembro de 1939 reagiu à invasão da Polônia pelos nazistas. O chileno Pablo Neruda criou o Novo Canto de Amor a Stalingrado.
Na Rússia conhecemos sentenas de excelentes poetas cujas poesias foram dedicadas a longos anos de sofrimentos na Guerra: são poesias heróicas, patrióticas, líricas. E não há de admirar, pois a Guerra foi vencida com esforços, sofrimentos e perdas de todo o povo sociético que perdeu naquela guerra 27 milhões dos seus filhos.
O Brasil é o único país da América do Sul que participou da Segunda Guerra Mundial. A Força Expedicionária Brasileira, a FEB, lutava na Itália. O slogan “A cobra está fumando” foi adotado pela FEB em alusão ao que se dizia na época que era “mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil entrar na guerra”. Então, a cobra fumou. A FEB conseguiu vitórias importantes, tomando cidades e regiões estratégicas, como o Monte Castelo, Turim, Montese e outras. Mais de 14 mil alemães renderam-se aos brasileiros.
O poeta Guilherme de Almeida é o autor da letra da famosa Canção do Expedicionário, que se tornou o hino da FEB. Felicitamos a todos com a festa da Grande Vitória e nesta ocasião apresentamos um fragmento do hino da FEB em homenagem a os vencedores na Segunda Guerra Mundial!

Leia mais e ouça a poesia: http://portuguese.ruvr.ru/radio_broadcast/77226473/112761513/

terça-feira, 29 de abril de 2014

Poemanifesto denuncia impactos da mineração em Minas Gerais

Congonhas,
que já foi do campo,
que hoje são campos onde não nascem mais congonhas,
são campos de terras de gente sem chão,
de águas que correm por baixo das terras,
de águas que lavam o minério,
mas deixam a alma e a vida suja
do lixo que corre solto
por debaixo dos tapetes

As águas de Congonhas correm do fundo da terra
pra superfície do rejeito.
Rejeito de povo
Rejeito de gente
Rejeito de cultura
Rejeito de esperança

Congonhas do mundo
que consome minério
e junto com ele os mineiros,
e os não mineiros,
forasteiros,
vindos do Brasil profundo
e rejeitados na superfície das coisas vãs,
na superfície ordinária da razão econômica,
na superfície canalha da desrazão política,
na indignação mais profunda
do rejeito da dignidade humana

O mesmo minério,
que na alquimia da produção
vira dinheiro,
vira salário,
vira exploração
(do trabalho e dos recursos),
e vira lucro
e que nunca vira imposto –
se vira, some na nuvem de fumaça da política dos seus políticos –,
é usado todos os dias
pra cimentar a boca de quem tem voz
e não deixar sair o grito,
e sufocar a vergonha de cada dia
que fermenta o pão que o diabo amassou
e vende receita de bolo com cobertura doce
que esconde o amargo que pode azedar a saliva

É preciso falar
É preciso deixar às claras
É preciso não poupar ninguém

Porque não é assim que eu te sonho, Congonhas!
Porque eu não quero ficar aqui com as unhas sujas desse mesmo minério venenoso!
Mas também não quero sair daqui
Eu quero ficar aqui
e aqui te sonhar,
e aqui acariciar suas montanhas
com o meu olhar de poeta,
e abraçar os seus profetas
como se fossem meus amigos queridos,
e abraçá-los como se eu abraçasse a cada um que aqui deixou de sonhar
e ensinasse a eles duas ou três lições sobre como mudar o mundo

Eu quero ficar aqui
e aqui poder deitar nas suas águas
sem ter que remover a crosta marrom do seu minério sobre a minha pele

Eu quero ficar aqui
e aqui poder respirar fundo
sem ter que escarrar o pó do seu minério que entra no meu pulmão

Te quero linda, Congonhas!
Muito mais que mais bonita...
Te quero livre!
Te quero lírica!
Te quero voltando a sonhar
um sonho que se sonha junto

Dica:
Em 2013, a Mídia Ninja produziu o documentário "Enquanto o Trem não Passa", um debate sobre o setor da mineração no Brasil, atividade econômica que cresceu 550% nos últimos  10 anos. O documentário mostra a faceta daqueles que são diretamente atingidos e busca chamar a atenção da sociedade para sobre os impactos e atentar-se para o Novo Código da Mineração que poderá ser votado em breve no Congresso Nacional. Movimentos sociais e ambientalistas dizem que a proposta do Governo não traz salvaguardas sócio-ambientais, garantias ao meio ambiente e nem segurança aos quilombolas e povos indígenas.


por Julio Satyro

segunda-feira, 28 de abril de 2014

José Fanha: Eu sou português aqui


 
 
 
 
 
 
 
 
Eu sou português
aqui
em terra e fome talhado
feito de barro e carvão
rasgado pelo vento norte
amante certo da morte
no silêncio da agressão.

Eu sou português
aqui
mas nascido deste lado
do
lado de cá da vida
do lado do sofrimento
da miséria repetida
do pé descalço
do vento.

Nasci
deste lado da cidade
nesta margem
no meio da tempestade
durante o reino do medo.
Sempre a apostar na viagem
quando os frutos amargavam
e o luar sabia a azedo.

Eu sou português
aqui
no teatro mentiroso
mas afinal verdadeiro
na finta fácil
no gozo
no sorriso doloroso
no gingar dum marinheiro.

Nasci
deste lado da ternura
do coração esfarrapado
eu sou filho da aventura
da anedota
do acaso
campeão do improviso,
trago as mão sujas do sangue
que empapa a terra que piso.

Eu sou português
aqui
na brilhantina em que embrulho,
do alto da minha esquina
a conversa e a borrasca
eu sou filho do sarilho
do gesto desmesurado
nos cordéis do desenrasca.

Nasci
aqui
no mês de Abril
quando esqueci toda a saudade
e comecei a inventar
em cada gesto
a liberdade.

Nasci
aqui
ao pé do mar
duma garganta magoada no cantar.
Eu sou a festa
inacabada
quase ausente
eu sou a briga
a luta antiga
renovada
ainda urgente.

Eu sou português
aqui
o português sem mestre
mas com jeito.
Eu sou português
aqui
e trago o mês de Abril
a voar
dentro do peito.


In Obras de José Fanha

quinta-feira, 17 de abril de 2014

"Luíses - Solrealismo Maranhense" : filme denuncia Maranhão dos Sarneys



Filme coletivo feito sem recursos, sobre a situação política/anti-social da capital maranhense (e por extensão do Estado do Maranhão). Mesclando depoimentos sobre o caos da saúde e da situação agrária, um manifesto contra os podres poderes do clã dos Sarneys (que governam o estado há mais de 40 anos),o diretor coloca em xeque de forma inventiva o caos e a absurda situação histórica da região.

Filme: Luíses - Solrealismo Maranhense

Ano: 2013

Produção: Éguas Coletivo Audiovisual

Site oficial: Solrealismo.com

Leia mais sobre o filme em nosso site aqui.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

A história de uma fábrica ocupada contra o capitalismo!

Da Revista Miséria 


Para ajudar os trabalhadores da Flaskô nessa luta clique aqui.

Conheça mais no vídeo abaixo:

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Hemorragia

Enquanto as dores se espalham pelo corpo cansado
Olho minhas mãos e meus pés
Olho as mãos e os pés dos outros
E torno a olhar minhas mãos e meus pés
Mãos e pés surrados

A melhor conversa que vivi com um operário
Não continha uma palavra sequer
Ele entrou no trem e olhou meus pés descalços,
Sentou frente a mim, afrouxou a bota e se libertou
Ficamos então a olhar os nossos calos da vida

É sempre bem vinda a solidariedade dos que não têm calos.
Porém é inevitável não sangrar a cada vez que noto
mãos e pés delicados e bem tratados

Lopes Camarada


segunda-feira, 10 de março de 2014

Muito mais que um bloco... obrigado camaradas!


 

(aos camaradas do Bloco Comuna que Pariu!)
Mauro Iasi
Era carnaval, era um bloco, mas era muito mais que isso. Sei lá, alguma coisa nascendo, alguma coisa rompendo. Cada um chegou do seu jeito, com seus sonhos guardados em seus medos, com sua alegria e suas angústias, cada um num ritmo, uns sabendo mais outros menos, outros nada, mas ali seu deu o milagre da fusão.
Tinha de tudo, camaradas do PCB, companheiros de outros partidos, militantes, amigos, brancos sem jeito, negros, homens, mulheres (tinha até um japonês, eu vi), quem vota num e quem vota no outro, junto com quem não vota, e tudo aquilo que andava separado, ficou em silêncio e uma figura levanta as mãos e soa um apito alto. Não podemos dizer de um “chefe” de bateria, entre nós não há chefes, um dirigente, negro, com roupas íntimas de mulher (vermelha provocação), cabelos de índia. E o chão tremeu, vindo da terra, de quilombos e senzalas rebeladas, de cada gota derramada, de suor ou sangue, de cada ato de amor, de cada beijo na boca, de cada coisa que arrepia a pele e faz o corpo vestir a alma pelo lado de fora.
Era uma porção de gente diferente que ali estava junto sob a direção de um mestre. Profissional, não porque tem valor de troca e preço, profissional como o artesão que ama sua arte, como o operário que desempenha com perfeição seu ofício, como gari que volta na rua varrida para pegar a latinha que ficou prá traz, como poeta que enlouquece na busca da última palavra. Uma porção de diferença que ali estava junto: um bloco.
O produto esconde o processo, os problemas, as noites, os ensaios, a falta de grana, gente que atrapalha, mas o produto traz na pele a marca do trabalho, que pega um sonho e esculpe a realidade até que fica parecido com que queremos. E ficou bem parecido com que queremos. Alegre e comprometido, brotando do samba com escala em Paris, irônico, sarcástico, irreverente, cortando a carne podre do presente mostrando que é possível e necessário libertar o novo das prisões da acomodação.
Meu filho dormia no meu colo como se ouvisse Debussy, minha companheira se esmerava no surdo de primeira. Era carnaval, era só um bloco, ou era mais que isso. Um bloco revolucionário do proletariado, com capacetes operários vermelho futuro e uma voz de mulher cantando um samba contra dudus e cabrais, contra a Globo e o Capital, deixando cicatrizes de alegria no corpo triste da realidade.
Fiquei muito orgulhoso com meus camaradas. Era só um bloco... ou era muito mais.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Fantástico, Favela, Ideologia e Alienação


Em reportagem no domingo dia 23 de fevereiro de 2014, o programa fantástico da TV Globo falou sobre a nova classe média brasileira como meio de integração a capitalismo brasileiro onde reportagens como estas procuram convencer a opinião pública que existe uma paz social nas comunidades pobres como: favelas, bairros proletários e periferias onde residem pessoas de baixa renda.
Reportagens como estas não novidades! Com estas reportagens estão buscando convencer os mais pobres a aceitar passivamente as injustiças do sistema capitalista e a ausência de serviços públicos por parte do Estado burguês que quando aparece nestas comunidades é através da presença do agente de repressão representado pelas polícias quando invadem estas comunidades. O que estas reportagens escondem e não mostra é que vivemos em uma sociedades que existe uma segregação social, onde os ditos moradores oriundos das favelas e áreas proletárias não são bem vindos nas areias da praias frequentadas pelas camada mais privilegiadas isto ocorre nas praias de São Paulo, Rio de janeiro e outras regiões. Como reflexo disso acontecem as divisões, os conflitos, os arrastões e os rolezinhos.
Programas e reportagens como: Fantástico, Domingo Legal, Caldeirão do Huck e outros, procuram manipular e estigmatizar os mais pobres onde se aproveitam das necessidades e desespero das pessoas usando as migalhas do capitalismo, como: Dar uma passagem para um nordestino que mora em São Paulo visitar o Nordeste, liberar recursos para a reforma de uma casa, reforma de automóvel velho e etc. O que estes programas não explicam é que as pessoas se encontram nesta situação por culpa do capitalismo. Todos esses programas buscam desviar as massas de uma possível tomada de consciência dos problemas e da falta de infra-estrutura em comunidades de baixa renda, historicamente gerada pela forma de organização da sociedade capitalista.
Além de todo aparato ideológico nas mãos, certos programas de TV como o “Esquenta” na Rede Globo se utiliza de prestígio e popularidade de artistas que não buscam remar contra a ordem estabelecida fazendo o papel de apenas vendedor de mercadoria se mediocrizando e aceitando fazer o papel de idiota perante as câmeras. Hoje as obras de artes e as manifestações culturais não são para refletir elas buscam apenas entreter e diluir os problemas sociais cotidianos vividos pelas massas trabalhadoras.
Músicas como o “Rap da Felicidade”, as músicas de funk que fazem apologia ao crime não tem nada de revolucionário. Estes tipos de manifestações buscam apenas confinar os mais pobres ao consumismo alienado, a naturalização dos problemas fazendo com que todos procurem se adaptar a ordem burguesa confinado em seu próprio lugar para não incomodar o sono da burguesia declarando guerra ao capitalismo.
Artistas, músicos, entidades como: A Cufa, Afroregee se somam aos aparatos ideológicos da burguesia para promover a alienação e a despolitização dos problemas gerados pelo capitalismo. É claro que não devemos descriminar os gêneros populares como o que todos convencionaram chamar de Funk, porém “Popular não é popularesco”, devemos manter em alerta nosso senso crítico para entender que à por parte da indústria cultural um processo de empobrecimento das manifestações artísticas e culturais para superar este impasse. devemos lutar pela democratização do acesso a cultura criando condições para que as grandes massas possam ter acesso a uma ampla política cultural voltada as reais necessidades espirituais das amplas massas populares, onde a cultura possa levar as massas a refletir sobre a realidade em que vive.
Ao contrário do que pensam certos programas ninguém nasceu para viver amontoado como tentam nos convencer os programas alienantes das redes de televisão a serviço da burguesia, devemos lutar para que o poder público ao invés de dar recursos públicos para grandes empresários passe a investir em políticas habitacionais para que possa retirar as pessoas das áreas de riscos para que eles possam morar com dignidade em cidades e bairros com infla-estrutura onde todos possam ser feliz, onde os trabalhadores através do “Poder Popular” possa construir estas cidades organizada segundo seus interesses em oposição a ordem capitalista.
Que no lugar deste País há de nascer um Brasil Socialista
José Renato André Rodrigues
Professor de Filosofia
Comitê Central do PCB

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

INTERNACIONALISMO PROLETÁRIO

não temos pátria/ camarada/
não existem fronteiras entre os justos/
a dor dos sofridos nos atrela
e linhas traçadas em mapas
jamais poderão nos apartar/
nem muros/ nem urros/ aferro/
não importa de onde vem o berro/
lá estaremos/ aqui estaremos/
como um só povo/ multidão/
como um só grito/ alvoroço/
como um só punho de resistência
e uma constelação brilhando
em olhos de esperança/
hoje o mundo não cabe na lágrima
de uma mãe palestina/

*Otávio Dutra é estudante de sexto ano de medicina na ELAM, membro da Coordenação Nacional da UJC e militante da base Paulo Petry do PCB em Havana-Cuba.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Fallece el cantautor cubano Santiago Feliú a causa de un infarto

El cantautor cubano Santiago Feliú murió esta madrugada. Santiago, quien nació en La Habana el 29 de marzo de 1962,perteneció al movimiento conocido como la Nueva Trova y tuvo también una presencia notable en Novísima Trova, autor de canciones inolvidables como Para Bárbara, Vida, Ay, la vida y otras.
Se presentó junto a grandes exponentes de las dos generaciones de trova como Noel Nicola, Frank Delgado, Luis Eduardo Aute, Luis Pastor, León Gieco, Silvio Rodríguez, su hermano Vicente Feliú, entre otros.
Reproducimos la nota publicada por Silvio Rodríguez, esta mañana en su blog Segunda Cita:
Santy
«Suena el teléfono a las cuatro de la mañana y pienso que ojalá sea un equivocado. Desde una conciencia adormecida el instinto de conservación lanza ese pensamiento. Si esa llamada no es error ¿qué buena noticia te pueden dar a las cuatro de la mañana? El instinto no traiciona, no miente, viene de un lugar ignoto pero corta como navaja, porque cuando escucho Aurora y después cuándo fue, ya la cabeza está en Vicente, que está en Guatemala, en algún accidente de avión o carretera, en un atentado loco.
Pero no es avión ni carretera ni atentado ni Vicente. Es Santiago, el más joven, a quien hace una hora se lo llevó un infarto.
Ayer mismo borré la carpeta donde le puse una selección de fotos de su boda. ¿Por qué llevaba días pensando en él?
Muchas malas palabras se me ocurren. Muchas. Son tantas, que se atropellan.»

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Eduardo Coutinho: “Tudo o que eu faço é contra o jornalismo”

                                                                         

"Quero saber das pessoas que eu filmo, só"
04/02/2014 
Mariana Simões
Na Pública
Em entrevista inédita concedida em 2011 a Mariana Simões, então estudante de comunicação, o documentarista Eduardo Coutinho não escolhe as palavras para definir o que faz
Eu tinha 22 anos quando comprei uma passagem para o Rio de Janeiro para entrevistar Eduardo Coutinho, que morreu no domingo, dia 2/2, no Rio de Janeiro. Na época eu cursava graduação em Comunicação nos Estados Unidos e estava passando as férias em Brasília. Fiquei um mês trabalhando na tese: metade fazendo pesquisa sobre a obra de Coutinho e a outra metade com o telefone na orelha, tentando agendar uma entrevista com o documentarista.
Quando consegui o número de telefone do escritório dele,  achei que a minha entrevista estava garantida. Mas faltando uma semana para eu voltar para Nova York, ainda não tinha dado em nada. Comecei a entrar em pânico. “Se faça de boba, minha filha,” meus pais me disseram.
Eu segui o conselho: mandei um e-mail para a produtora dele dizendo que já tinha comprado minha passagem para ir ao Rio de Janeiro e que, no dia seguinte, ligaria para confirmar o horário da entrevista. “Você sabe como é, ele já está velho, não gosta mais de dar entrevista,” alguém me disse pelo telefone dias depois. Expliquei que já estava no Rio de Janeiro esperando ele me atender. A passagem custou caro, eu iria voltar logo para o exterior, fui dizendo.
Eu tinha entrevistado o cineasta Vladimir Carvalho na semana anterior. Ele foi simpático ao telefone e, quando nos encontramos, ficamos horas conversando. Um homem sorridente, com boa vontade, cheio de energia.  
Com Coutinho foi praticamente o oposto. Quando entrei na sala para entrevistá-lo, a única que estava sorridente era eu. Coutinho estava atrás de uma mesa, me esperando, um maço de cigarros em mãos. Ele falava baixo, meio rouco. Tossia muito. 
Apertou minha mão. Perguntei se podia filmar a entrevista, ele gesticulou que sim e eu comecei a agradecer como uma tonta. Disse que era uma honra poder entrevistar um homem que mudou a cara do documentário brasileiro. Fui logo acrescentando que achava ele um grande documentarista, alguém que eu admirava, mas percebi que ele não gostou dos meus elogios. Não queria se fazer de herói, nem aceitar o título de grande cineasta; ele era apenas um cara que gostava de documentar o encontro da câmera com o mundo. E, de fato, avisou que não fazia filmes para descobrir a verdade sobre ninguém.
Tudo que eu tinha entendido sobre o trabalho dele até então foi aos poucos desmoronando. “Eu estou interessado que a pessoa fale a partir de sua experiência sabendo que, como é memória, toda memória é mentirosa, e portanto tem verdade e mentira juntos. Isso é inevitável,” ele explicava. De acordo com Coutinho, não era possível fazer um documentário que só contasse a verdade. Para ele, não existia uma verdade única sobre um acontecimento, mas sim várias verdades ou várias experiências vividas que juntas pudessem contar uma história.
Assim como os gestos e o comportamento dele, naquele dia, também contaram uma história.
Quando entrei na sala, vi um homem de 80 anos que já estava cansado, cuja voz às vezes falhava, mas um homem que ao longo da entrevista foi se soltando, começou a mostrar outra cara. Apesar da aversão que sentia em dar entrevistas, eu notava o brilho no olho dele, o orgulho que tinha pelo que fazia, a paixão que sentia pela arte que havia criado. Antes de ir embora, pedi para tirarmos algumas fotos juntos. Na última, ele puxou meu braço  e disse: “Agora chega de fotos genéricas, vamos fazer uma em movimento.” E aí ele acenou para a câmera e por um instante consegui capturar algo: não a verdade sobre Coutinho, mas um retrato dele naquele momento. Que se foi.
Você acha que o documentário é de alguma forma uma extensão do jornalismo?
Questões gerais eu odeio. Se você me pergunta a diferença do documentário pra ficção nós não vamos sair do lugar. Não, eu fiz nove anos de jornalismo para a TV Globo, trabalhei três anos em jornal também, até fui jornalista, dirigi filmes para o Globo Repórter. Mas eu, desde que eu saí do Globo Repórter, tudo que eu faço é contra o jornalismo.
Contra o jornalismo?
Eu odeio o jornalismo. Não estou interessado em jornalismo. Não estou interessado em informações, mapas, em filme militante, em filme político. Deus me livre. Aquecimento global, liberar maconha. Não estou interessado em filmes políticos, sociais, genéricos. Nada que é genérico me interessa. Quero saber das pessoas que eu filmo, só. Então comigo é uma exceção, um tipo de cinema particular que eu faço, do qual é o único que eu sei falar. Não falo sobre o cinema em geral porque, bom, o documentário pode ser tudo, né? Jornalistas podem fazer excelentes documentários jornalísticos, evidente. O Michael Moore é jornalista, no fundo um cineasta, e que é um tipo engraçado e tal, mas que é um populista evidentemente de esquerda e que, enfim, usa metas que eu não usaria. Mas é um cara altamente eficaz, está milionário e tal, mas é jornalismo. E seus filmes são úteis? São, em certa medida são. Tratar dos assuntos que ele trata, agora, as metas que ele usa, não me interessa.
Você acha que o Michael Moore interfere muito no filme?
Michael Moore é um exemplo, tem mil outros. Todo cara que começa a fazer um filme dizendo “eu vou fazer esse filme para obter tal resultado” não me interessa. Vou dar um exemplo: o filme do Al Gore, não vou ver. Não estou interessado! O filme que o cara sabe que ele vai fazer para dizer que a maconha deve ser legalizada, não estou interessado! Que o mundo vai ser aquecido, o cacete a quatro, não estou interessado! Outro pra dizer que não pode comer carne. Outro pra dizer que a miséria é boa. Não quero saber disso, não interessa. Faça um livro, faça isso no jornal. Agora a experiência de fazer cinema, que é tão ingrata, que você não ganha dinheiro, que é chata pra burro, só tem sentido para mim se é uma coisa que você goste, desse tipo de coisa eu não gosto. Tem gente que adora e faz bem. Um filme que é feito sobre o nazismo etc, isso é um filme jornalístico de um certo sentido, mas com alto nível de pesquisa e tal e interessante, mas não é o tipo de filme que me interessa fazer.
Até que ponto você, como diretor, deve interferir, por exemplo, durante uma entrevista?
Eu tento não interferir. Ou melhor, eu tento… Eu não julgo. Eu não julgo se um cara, uma pessoa que é escrava, que gosta de ser escrava, eu não vou perguntar “mas como?!” Se ela quiser ela dá um discurso do porquê ela gostar de ser escrava. Eu não estou lá para mudar as pessoas, eu estou lá para ver o estado do mundo através das pessoas. A partir da relação que eu vou ter com a pessoa, que é o essencial, na qual tudo pode acontecer, pode haver conflitos ou não conflitos etc. Mas que eu não estou lá a fim de dizer para a pessoa que ela mude de opinião, não. Aliás, a opinião não me interessa. Me interessa que as pessoas tratem de sua vida. A partir de suas vidas, as pessoas vão ter opiniões de direita e esquerda, tanto faz, mas que são viscerais. Eu não estou interessado no conteúdo social da vida da pessoa, eu estou interessado no que a pessoa fala a partir de sua experiência sabendo que, como é memória, toda memória é mentirosa, portanto tem verdade e mentira juntas, isso é inevitável. Não há solução. Ninguém consegue desobstruir a memória, então eu aceito aquilo que é exagero. Como sabe se o sentimento é verdadeiro ou não? Sabe, “eu gostei de um cara.” Eu sei lá se gostou ou não, ela conta a história do romance dela, é um segredo. Porque são pessoas comuns. Se eu fosse entrevistar o Napoleão não ia entrevistar sobre a vida dele, o interessante é a política dele. Quer falar sobre um político, faça um livro.
Por que você começou a fazer documentário tão tarde na vida? Acho interessante que não foi na faculdade que você entrou nesse caminho. Você começou fazendo Direito, não foi?
Comecei por Direito porque era o que se fazia. Direito, Engenharia, Medicina. Mas enfim, larguei, fui trabalhar em jornalismo, depois fiz um curso de cinema e passei a fazer cinema. Agora, ninguém podia pensar em fazer documentário no Brasil nos anos 1960. Nem cinema! Quanto mais documentário. Longa metragem? Isso não existia. Som direto ia começar ainda e tal. E daí fui fazer ficção até o final dos anos 70. Fiz um filme interrompido que tinha um lado documental, mas que ao mesmo tempo eram camponeses e atores. E daí eu parei, fui fazer televisão teve o golpe de estado tal, tal, tal. Eu larguei o cinema durante dez anos e voltei para fazer o Cabra [Marcado para Morrer] onde eu fiz um trabalho de História, de jornalismo, de cinema, tudo misturado. Cabra tem tudo isso. Cabra tem tudo, pesquisei como um filho da puta. Trabalhei muito antes de fazer o filme. Sobre a história dos camponeses, pra saber que perguntas que eu devia fazer. Nos filmes que eu fiz nos últimos dez anos e tal, não faço pesquisa, não tem que fazer pesquisa. Eu vou filmar num lixo e simplesmente vou ao lixo conversar com as pessoas. Isso é bom ou ruim? Você tem que perguntar pra uma pessoa que tá lá no lixo, isso é bom ou ruim? Porque eu sei que tem aquilo e tem coisa pior que aquilo.
Em Boca do Lixo, você se surpreendeu com o que as pessoas falaram nos depoimentos?
Não há coisa mais degradante do mundo do que o cara ser filmado catando o lixo. E tive a reação deles e aí eu dizia ‘e por que?’ E depois eles diziam os motivos pelos quais trabalham no lixo. Motivos até econômicos, entende? Enfim, eu tentei ouvir o lado deles. Ninguém diz aqui é bom, mas muitos dizem “não, mas aqui eu alimentei meus filhos, eu conheci amigos”, por exemplo. O cara de esquerda supõe que aquilo dali é horrível, que a culpa é do governo, que a culpa é do capitalismo. Acontece que eu fui lá aberto e ouvi gente dizendo: “Eu prefiro isso do que ser empregada”. Tá aí um troço novo. Porque o cara nas condições terríveis do lixo, pelo menos ele é autônomo, ele não tem patrão. Alienado ou não, o cara julga um triunfo ele não ter um patrão. No Brasil inteiro deve ter um milhão de pessoas que vivem na rua vendendo coisas. E essa noção de liberdade, se é falsa ou não, não importa. O cara no lixo diz: “Olha eu trabalho aqui, agora sábado eu não venho. Sábado eu faço feira, não sei o que.” Não ter um patrão. Para quem tem herança de escravidão é um troço essencial. Tudo no Brasil está ligado ao troço da escravidão. Isso pesa muito, entende? O horror ao trabalho é um troço que vem dos 350 anos de escravidão.
Pulando um pouco, o filme que me introduziu ao seu trabalho, foi o Edifício Master
É onde eu já estou num outro caminho, em que eu não quero dizer que aquilo ali é o inferno ou o paraíso. Eu quero simplesmente tentar ver como as pessoas vivem aquilo. Porque como eu não vivo aquilo, se eu tivesse a minha idade e tivesse morando lá eu dizia ‘pô, fim de linha, que fracasso’. Depende, as pessoas que eu encontrei lá, tem um aposentado que esteve nos Estados Unidos, tem pessoas de classe média que estão lá um período da vida que depois saíram de lá e também foram para Alemanha, o cacete. Tem de tudo lá: classe média baixa, média e meia média. Entende? Então o que me interessava era conhecer isso, o que é viver naquela cidade. Paris, Moscou, Nova York, é tudo igual. Você encontra a mesma solidão. Um cara que mora numa quitinete e que morre, dez dias depois alguém encontra pelo cheiro porque era solitário. Se encontra aqui, se encontra em Nova York, se encontra em todo lugar.
Inclusive a minha tia avô ela mora em um edifício igualzinho a esse...
Em Copacabana?
Em Copacabana!
A maior porcentagem de idosos no Brasil é em Copacabana: tem 15% de idosos. A razão é muito simples. Tem tudo lá: prostituição, crime, tal. Mas é um bairro que tem muita vida, tem comércio, tudo é perto. É muito melhor morar em Copacabana do que no centro da cidade que não tem nada. E a praia está perto então o velhinho vai lá e passeia. Então morar em Copacabana, hoje, para aquelas pessoas foi um ganho. É uma coisa interessante com todos os problemas que tem.
Eu li uma entrevista em que você dizia que, quando você começou a fazer o Edifício Master, sentia medo de não desenvolver uma história boa porque era um bairro de classe média.
Isso aí é porque as pessoas se defendem. Você vai lá na favela e todo mundo está disposto a falar, eles têm eloquência, têm beleza na fala, têm a gíria. Cem anos de cultura em favela. A favela é um troço orgânico e forte em comparação com o asfalto. O exterior/interior não existe, você está andando e da janela alguém te chama pra entrar, entende? Eles têm consciência que tem o ‘nós da favela’ e tem o ‘nós do asfalto’. Isso está ligado, porque eles vivem a vida do asfalto também, vão à praia e tal mas eles tem consciência do ‘nós’ favelados. Num prédio, ninguém fala ‘nós’. A diferença é essa. Como é que eu vou dizer ‘nós do meu prédio’? Eu moro num prédio normal- 30 apartamentos, 35, sei lá. Mas não vou dizer ‘nós’. Nem conheço quem mora lá, nem quero conhecer ninguém. As pessoas na favela se conhecem todas, é um outro tipo de vida. Tem esse lado positivo de formar comunidade, de que é uma vida muito aberta. Então quem se mata é quem mora no Master, em favela ninguém se mata. Já ouviu falar em algum suicídio em favela? Eu nunca vi. É impressionante, não sei se tem estudo sobre isso, mas eu não conheço caso. Um mata o outro, droga é outra coisa porque o cara é viciado, dependente e guerra do tráfico é outra coisa. Mas suicídio mesmo, sem razão ou por depressão, é difícil.
Então por isso eles [os personagens de Master] falavam pouco, eles riam pouco, tinham pouca riqueza vocabular. Em termos de experiência de vida também não era tão forte. É por isso que tem 37 personagens – eu tinha que ter quantidade porque eu sabia que não ia ter personagens maravilhosos como tive em outros filmes que podiam ocupar dez minutos. Tem 37 pessoas no filme e acho que nenhum chega a cinco seis minutos. Pessoas que entram por três, quatro minutos. Mas em compensação é 1 hora e 50 minutos de gente falando.
Quando te veio essa ideia de botar só gente falando?
Isso foi desde que eu voltei a fazer cinema com Santo Forte. Fui fazer um filme sobre religião mas não queria botar culto nenhum, queria botar gente falando sobre religião. Daí eu fiz, acabei filmando também culto, mas acabei tirando e jogando fora. Depois de longas experiências arrumando e montando, tirei praticamente tudo, mas ainda tem imagens. E eu fui reduzindo e atualmente tem um filme que não tem imagem nenhuma. Só tem um preto e tem uma pessoa que fala ou canta. E é chegar no limite. Filme que só tem pessoas falando como Jogo de Cena. O próximo vai ser pior ainda, só tem uma pessoa que fala, um corpo falando. Então atrás você não tem que distrair, mostrar fotografia do filho, do neto. “Meu filho morreu”, pronto, conta a história do filho. A pessoa imagina, não preciso da foto do filho. Se é dito, a imagem é totalmente desnecessária no caso dos filmes que eu faço. Eu trabalho com cinema que se baseia na palavra. Por isso é muito difícil vender pra fora. Nunca vendeu. Quem não entende português é difícil, a legenda passa 60 %. Então é difícil porque meus filmes não vendem.
Você acha que vocês documentaristas são heroicos?
Não, não, não, não. A palavra herói não existe. Vítima e herói: não existe. Não tem coitadinho. Sabe o pobre, o coitadinho, como são feito os filmes. “Ah o coitadinho do pobre!” Eu não fui no lixo para tratar de vítima, senão acaba a relação. Eu vou tratar ele de igual pra igual na medida que é possível. Eu quero conhecer a sua razão. As minhas razões para estar aqui eu sei – eu posso, eu quero. Agora quais são as suas? Cada um tem suas razões para estar em algum lugar para fazer alguma coisa. Isso que eu quero descobrir. Então a razão do outro me interessa. Tentar estar no lugar do outro é a chave da questão. É impossível, mas tem que tentar, e nesse confronto de tentar entender o outro sai um diálogo que é improvisado, que é inventado, porque você inventa também quando fala. E não importa, se inventa bem, é verdade. Se é bem inventado, é verdadeiro e ponto final. “Eu fui feliz”, sei lá se é verdade. Tá dizendo! Pode ser que daqui um ano diga outra coisa. Entendeu? Tem que ser inventado com verdade. Quem inventa mal tá fora!
O documentário já existe à margem do cinema brasileiro. E os filmes estrangeiros dominam o mercado brasileiro então…
Tem o Cinema Novo, tem o cinema brasileiro sério que sempre foi marginal e vai continuar a ser. Tem Globo Filmes e tal, as exceções, mas é 15 % do mercado. O cinema brasileiro em geral é marginal no mercado. Calcule os filmes sérios que tem alguma dimensão estética, o que seja, social, o que seja. São filmes que se tiver 30, 50 mil espectadores já é extraordinário. No mundo todo o documentário é um lixo pequeno. Pensa que na França é diferente? Passou um filme que tem 100 mil espectadores e é extraordinário, é uma festa. Na França! Entende? As pessoas vão ao cinema para ver histórias inventadas com atores. Baseadas em fatos reais ou não, mas simplesmente vão para o cinema sonhar. Sempre foi assim. E agora é sonhar em 3D. E aumentou até o nível de diferença de um cinema para o outro. Não dá pra competir com os filmes 3D americanos. Não tem como o brasileiro fazer isso. Agora daí, de repente, pega essa esquema de novela e tal e faz o filme. São exceções. Mas o conjunto do cinema, o cinema brasileiro foi, é, e será sempre marginal. O próprio cinema vai passar a ocupar um lugar marginal. As pessoas vão ver filme aonde? Até em celular. Entendeu? Então o ato social de ver filme vai ficar menor, vai ficar como teatro. Ou então filmes que exigem telas gigantescas IMAX, sei lá. Os caras vão ver lá, vão ver esse tipo de cinema.
Voltando ao Cabra. Você disse antes que você não tem uma intenção politica com seus filmes. Você diria que nesse filme você teve alguma intenção politica?
Não tem intenção política na medida que a palavra política é equivocada. Todo filme é político. Mas eu estou interessado no social, não no político. Como é que uma sociedade existe? Por que o Brasil é como é? Por que as pessoas são como são? Primeiro, você tem que saber como as coisas são para depois se quiser mudar. No Cabra, eu estava fazendo uma coisa que é diferente porque o Cabra tinha um ato político de fazer o filme, porque tinha história envolvida no filme. Isto é: minha vida parou com o filme. Esse é o fantasma. Como parou a vida dos camponeses. Então apresentou para mim uma dimensão psicológica, é realmente um filme de um caráter politico mas a partir de uma coisa pessoal também. Peões, não. Qualquer cara pode filmar a greve dos operários. Eu fui e fiz um filme lá, mas não tem nada ver com Cabra.
Por isso você quis que o enfoque do peões fossem nos metalúrgicos em vez de políticos?
Tem uma divisão né? Tem a história do Lula e o João [Moreira Salles] estava interessado e eu não, até pelo fato de que é o tipo de filme que tem que negociar cada dia o que filmar etc. Tinha que pedir ajuda ao sindicato foi muito trabalhoso, muito penoso. Cem mil sindicalistas. E eu tinha que achar gente que o sindicato queria e encontrar gente que dissesse coisas que não fossem evidentes. Então teve uma limitação. Não faço mais filme politico, histórico. Em princípio não faço mais.
O Peões deve ter sido difícil porque você estava pegando uma região inteira não era como o Master que você ficou num prédio só…
Esse é o problema, ficou um negócio amplo demais. Só se eu ficasse um ano fazendo pesquisa que era impossível. A prisão espacial é essencial para mim. Eu preciso ter uma prisão espacial e naquela prisão eu sou inteiramente livre. Essa pobreza espacial é essencial pra eu não procurar ideologicamente aquele cara interessante. Não, nesse prédio eu tenho que achar um filme. Todos os filmes que eu filmo a regra é essa: num lugar tem que achar um filme. Até agora pelo menos tenho achado uns filmes que não são iguais. Mas são sempre num lugar só. Tirando Peões, todos os filmes que eu fiz recentemente são num lugar só. Numa vila que tem 80 famílias, num canto de lixo, num teatro de gente que responde a um anúncio. Se eu não pedir nada para a pessoa fazer e conversar meia hora com ela, ninguém mais controla se está filmando ou se não está. Não tem como conversar meia hora e a pessoa ficar engessada. Ou fica e sai do filme.
Igual àquele momento no Peões que o rapaz está falando e a esposa não quer participar, ela fala mas não quer aparecer.
Isso é extraordinário! Justamente houve uma briga porque o fotógrafo queria que minha assistente filmasse ela. Eu não quis e ela teve razão de não ter filmado porque o que me interessava era ela fora [de cena]. Ela sai da filmagem, portanto contra, daí ela às vezes dava palpite. Foi maravilhoso. Quem está no campo, quem está fora do campo isso é essencial. Ao lado estava o filho deles que é débil mental. Então tinha, a meio metro do quadro, no sofá, um filho de vinte anos completamente nervoso que gemia. Eu até perdi uma sequência interessante porque entrava o gemido do cara. Você filmando e tinha o cara aqui, a mulher aqui atrás e aqui do lado do sofá o filho gemendo. Não é que ele está com dor,  o cara tem problemas gravíssimos. E você filma e…pra eles é normal, eles vivem com aquele filho, então é normal pra mim, e vamos filmar.
A sua infância teve alguma coisa a ver com seu envolvimento no cinema mais tarde?
Não, eu era cinéfilo, uma pessoa que via filme. Ser cinéfilo é assistir três filmes por dia, anotar no caderno. Quando eu tinha dez anos eu fazia isso. Agora era impossível pensar no cinema brasileiro. Eu vi nove vezes uma chanchada, Carnaval no fogo. O que eu via de cinema brasileiro era chanchada, carnaval. Isso até 1951, 52. Fora isso eu via cinema americano, depois argentino, mexicano. Depois neorrealismo, até que eu fui estudar cinema e passei a me interessar. Mas isso de fazer cinema foi um passo gigantesco que só foi possível depois que eu voltei da Europa em 1960, 61 quando o Cinema Novo começou a nascer e se tornou possível fazer cinema no Brasil. De uma forma marginal, mas de qualquer maneira uma tentativa de ver o Brasil que não tinha aparecido no cinema brasileiro de antes. E fora da chanchada que realmente já não precisava mais porque com a chegada da televisão a chanchada não tinha mais mercado.
Se o Brasil não fosse não atrasado naquela época teria sido possível você entrar antes no ramo do cinema?
Isso não sei. Antes do Cabra, em que eu já tinha uns 40 anos, tudo que eu fizesse não tinha importância. Só quando eu fui filmar o Cabra que eu me libertei. Tudo que eu fiz antes não importa porque eu não sabia o que eu queria da vida. Quando eu fui fazer o Cabra, eu sabia o que queria fazer. Trabalhei cinco, seis anos, pesquisa, filmagem e fiz um filme à altura do que tinha sido a história. Depois fiquei 15 anos praticamente sem fazer filme até fazer o Santo Forte.
Se o Santo Forte não tivesse tido tanto êxito…
Se não fosse a produção do Santo Forte, eu tava morto. Se a repercussão crítica fosse ruim ou ninguém fosse ver, é possível que eu desistisse. Mas a verdade é que eu confiava, sempre confiei no filme falado que era como era e tal. Meus amigos diziam que era impossível, que ninguém ia aguentar. Todos os meus amigos, todos. Tirando uma pessoa da equipe, todos. “Não, é impossível, é uma tortura etc.” Mas foi gravado, foi aceito e foi maravilhoso. O documentário teve cinco prêmios e o público foi de 18 mil pessoas, o que até hoje é difícil fazer, e a crítica foi maravilhosa. Pensei “ Pô, achei, finalmente achei e eu quero continuar a fazer isso” e fiz e não parei de filmar de lá pra cá.
Tem documentário que mostra um caso isolado, por exemplo, de uma criança  pobre que trabalha nas minas da Bolívia e você como espectador se sente muito deprimido e culpado. Mas quando você sai dali você não sente continuidade…
Tem um monte de filmes que se aproximam do outro. Quem é o outro? O outro é o pobre miserável. O cara com defeito físico, o destituído tal, tal. E quem filma geralmente é uma pessoa de classe média, mesmo que com origem proletária. E tem a mania, americano adora isso, de tratar de forma paternalista. E daí o povo adora e chora e sente culpa. Isso é coisa que eu me recuso a fazer. Isso é uma coisa proibida em meu dicionário. Michael Moore, tem uma hora que ele abraça uma mulher lá que foi vítima, pra que ir lá e abraçar? Você tem que guardar distância da pessoa, não tem que consolar ninguém. Ou se consola, faz isso fora do filme. Então existe o “humanismo” entre aspas, que os americanos adoram, que é filmar o pobre. O cinema humanitário é o pior cinema do mundo. O humanitário ou de mensagem. Al Gore, ou então, mensagem. E a outra coisa de americano é essa: se é um filme sobre negra e lésbica tem que ser filmado por negra e lésbica. Sabe? Iguais filmam iguais. Quando a minha tese é outra: negro tem que filmar branco e camponês tem que filmar negro e tem que trocar. Índio tem que começar a filmar branco e branco…sabe? Nada impede que branco filme índio. Precisa dos dois lados, um do lado de dentro, um de fora. Não tem sentido que um filme sobre metalúrgico só pode ser feito por metalúrgico. Isso é uma tolice. O multiculturalismo que botou isso na cabeça. Então pra filmar uma lésbica eu tenho que ser lésbica? É o mesmo do mesmo, entende? Não há conflito. Não vou ao cinema para ser educado, pra aprender o bem. Odeio esse tipo de coisa tipicamente americana.
Eles colocam aquela narração em off que é uma voz assim divina falando…
Quando tem voz em off é pra tratar da pobre vítima da crueldade, os mineiros da Bolívia. E tratam de um jeito que é pra fazer o cara ter culpa, chorar.  Não estou fazendo filme pra ONG, pra arranjar dinheiro. Eu fiz o filme sobre o lixo, ninguém me deu dinheiro pra terminar. Pra começar sim, pra terminar foi difícil. Por quê? Porque se eu dissesse que era pra promover um sindicato, eu ganhava. Se fosse catador que queria fazer um sindicato. Porque esses são os filmes que são politicamente corretos. Como meu filme não era, era o cotidiano dos catadores só, ninguém deu dinheiro.
De todos os seus filmes, qual abriu mais portas para você?
Eu me identifiquei com o Cabra. Se não fosse pelo Cabra estava na televisão, TV Globo até hoje, eu estava morto. Fora o Cabra, foi o Santo Forte. Agora, prazer tive em quase todos. Se eu não tivesse prazer eu não fazia. Não sou missionário.
Você acha que Cabra não seria um filme tão bom se não tivesse sido retomado anos depois?
Evidente. Teria sido um documento de época importante mas o filme é um filme com 70 camadas de sentido histórico. É uma revisão da história do Cinema Novo, do cinema brasileiro que inclui tudo: jornalismo, história, cinema, linguagem. Exatamente porque é um filme que conta a história do filme, cinema e história todo tempo, lado a lado. É extraordinário que eu consegui, porque eu soube fazer, tive um montador que me ajudou, tive um fotógrafo que me ajudou a fazer. Enfim, é um filme que aguenta até hoje porque ele não é um filme triunfalista. Ele lida com uma verdade do personagem e não com discurso. Os filmes em geral políticos são triunfalistas, tomamos o poder. Mentira. Jamais faria um filme assim. Quando se ganha se perde também porque dura dez anos. E esse é um filme muito chão, muito simples. Cabra tem dispositivos de montagem extraordinários, tem jornal, manchete, o filme antigo, o filme que eu filmei na UNE, filmes de outras pessoas. Tem filme americano que eu roubei pra usar a imagem, que não paguei, graças a Deus. E a aventura foi essa.
Por que você acha que mudou tanto sua visão entre o primeiro e o segundo filme?
Eu comecei a fazer documentário na TV Globo e eu comecei a descobrir que era aquilo que eu queria fazer. Aí foi uma escola pra fazer o Cabra porque a rapidez que se trabalha em televisão me ajudou a fazer isso depois de uma forma muito mais refinada. Então me ajudou, me educando e me deseducando. Cabra é um filme de suspense porque eu também não sabia o que eu ia encontrar. Quando fui filmar [pela segunda vez] eu não via a Elizabeth [personagem de Cabra] há 17 anos, exatamente o tanto de tempo quanto o espectador… Fui encontrar 17 anos depois, conhecer os filhos. Conheci eles quando filmei eles em 1962, 64 e fui lá ver eles 17, 18 anos depois como está no filme. Eu tinha que chegar filmando.(Com o Brasil de Fato)

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

(VIDEO) Lançamento do livro Obamicídio no Programa Kapitan Underground



Kapitän Underground (Nº10) - Banda Native In Black E entrevista Com Daniel Oliveira e Hallisson Nunes Gomes,escritores, poetas. Toda segunda-feira ao vivo,ás 20 horas realizado em Belo Horizonte/MG-Brasil

sábado, 18 de janeiro de 2014

Do Fetiche da Mercadoria ao Fetiche da Tecnologia e das Redes Sociais

Sem dúvida não podemos ser contra o avanço da tecnologia, do avanço da ciência no mundo. Aqui no continente Americano não vai retornar o modo de vida dos povos nativos da época da conquista colonial, não tem volta, a questão é enfrentar o problema hoje.

Sem dúvida a internet, as redes sociais facilitam as comunicações, aproximam as pessoas, encurta a distância e as informações chegam mais rápidas. Porém não vamos acreditar e endeusar que a internet e as redes sociais são a solução para todos os nossos problemas. Para achar que basta um click que basta uma nota no facebook que as pessoas vão se mobilizar para que os problemas sejam resolvidos. Para que a sociedade se movimente é preciso gente (homens e mulheres) de carne e osso para a classe trabalhadora entre em ação, para fazer greves, ocupações, manifestações etc. A vida tem demonstrado isto, foram as ações das massas que tem arrancado algumas vitórias frente ao Estado Burguês.
O crescimento sem planejamento das Cidades no Brasil não é uma novidade das sociedades de classes ela é prática constante do capitalismo. O progresso promovido pelo grande capital trás consigo problemas graves como a desigualdade sócio-econômicas gerando desagregação do tecido social é quando surgem bairros melhor equipado com bons serviços de infra-estrutura voltados para as classes mais abastardas, de outro surgem bairro populares sem um mínimo de dignidade sem um mínimo de assistência ou serviços onde vão morar as classes trabalhadoras, onde a violência é prática rotineira no cotidiano de jovens destas classes onde estes jovens vão ver, sentir como prática comum a violência entre a polícia e grupos marginais gerados por esta mesma sociedade, onde muitos jovens oriundos destas camadas mais pobres enxergam no crime a ilusão da ascensão social e acesso ao consumo alienado promovido pelo bombardeio da mídia burguesa ao serem assassinados no dia seguinte já vai outro para tomar o seu lugar em um eterno ciclo vicioso, onde tantos policiais quanto os soldadinhos do tráfico são apenas a engrenagem de todo um sistema dominante que busca manter os trabalhadores desorganizados e alienados na própria periferia, confirmando na prática o que Engels já falava quando o observa a vida do Operário Inglês: “Só resta algumas coisas ao proletariado, o se organiza para lutar ou então se aliena na exploração aceitando passivamente ser explorados ou então cai no lupenproletariado para ser preso ou assassinado pela Policia”.
Outro problema para os jovens na periferia e nas grandes cidades tem sido o crescimento da frota de automóveis que tem provocado muitas mortes principalmente de jovens. Este crescimento do número de automóveis não tem permitido as crianças brincar nas ruas as pessoas não interage nas ruas ou calçadas obrigando as crianças a crescer como prisioneiras do medo.
O acesso rápido aos bens de consumo nas classes populares cria uma ilusão de ascensão social. Hoje muitos assalariados, autônomos passaram a adquirir os serviços de internet, TV a Cabo, telefones fixos, telefones celulares, tablet e outros objetos. Isto tem facilitado estas pessoas de baixa renda poder ver notícias, poder pesquisar, isto por um lado, por outro pode gerar um novo tipo de alienação que é a distancia entre as pessoas, justamente por vivermos no capitalismo.
Este endeusamento da tecnologia das redes sociais tem tirado das crianças a criatividade, muitas crianças criavam brinquedos como carrinhos de rolimã, riscar uma caixa de sapato ou remédio para fazer ônibus, lata de leite para fazer o pé de cavalo, garrafa de água sanitária para fazer carros, caixas de fósforo para fazer telefone, todos queimavam calorias, pular corda, improvisar um golzinho na rua, visitar um colega, tudo isso fazia parte da integração entre as pessoas, hoje com as redes sociais as crianças ficam horas no computador ou tablet comendo porcarias (besteiras industrializadas) não se queima calorias. Estas crianças crescem sem ler um bom livro, muitos país, tios, avós e primos mais velhos para não ter problemas simplesmente deixa passar para não parecer careta, não ser impopular, chato, simplesmente deixa passar. Se não tem um computar em casa vai a uma lan-house para ver pornografia, jogos violentos com o que há de pior da cultura violenta Estadunidense onde o mote é a violência banal. O resultado já está assistido, jovens que se atrasam nos estudos, dormem durante as aulas e não querem ouvir um NÃO achando que o mundo é perfeito e bonitinho.
Já não bastava a alienação das crianças e dos jovens nas redes sociais, hoje muitos adultos já estão totalmente alienados e dependentes das redes sociais não podemos esquecer que vivemos em uma sociedade capitalista, quem dirige a fábrica dos computadores, quem cria as redes sociais também tem os seus interesses ideológicos na manutenção desta ordem burguesa de que continue as relações de produção capitalista.
Se o século XX foi marcado por conquistas históricas para as classes trabalhadoras, hoje o capitalismo estar vivendo uma de suas maiores crises, ainda não estamos vivendo um Ascenso dos trabalhadores como foi no século passado quando tivemos a Revolução Socialista na Rússia em 1917, a formação do sistema mundial do Socialismo onde as burguesias foram obrigadas a conceder direitos aos trabalhadores em todo o mundo, direitos hoje ameaçados.
Hoje é a grande contradição temos um avanço tecnológico, que poderia ser colocado para reduzir a jornada de trabalho, criar novos empregos, aumento o tempo para o lazer, estudo e a convivência humana substituindo esta correria louca de nossos dias.
Hoje estamos vivendo o contrário, aparelhos eletrônicos são criados não só para facilitar a vida mais também para aprisionar as pessoas ao trabalho. Dependendo da profissão estes aparelhos tornam-se uma escravidão mesmo após o horário de trabalho, nas horas de folga o celular, tablet, laptop fica aporrinhando gerando pressão não relaxando nas horas de folgas. Antes quando você se reunia em família, quando você visitava um tio, um tio avô, um primo de primeiro, segundo, terceiro grau, todos participavam da conversa (do papo), gerando aquela bela convivência que deixa saudade em qualquer um. Hoje em certas famílias cada um vai para um canto no seu mundinho no celular, tablet, computador e em algumas famílias as crianças e jovens não aprendem noções básicas como dar um bom dia, boa tarde ou boa noite, outros entram ou sai de uma casa pior do que um bicho por que o bicho esta mais educado que certas pessoas, isto se reflete nos transportes coletivos com todos usando fone no ouvido para acelerar o processo de surdes para depois no fim da vida se perguntar por que ficou surdo. As novas gerações estão perdendo a tradição de ouvir uma notícia no rádio, muitos não para ler um jornal ou ver um programa de entrevista, prefere ficar nas redes sociais postando um monte de bobeiras e coisas sem sentidos.
Hoje nossas vidas esta sendo tão corrida que não temos tempo para visitar um amigo e parente. Nasce um primo novo de segundo ou terceiro grau, ou filho de um amigo não temos tempo para visitar posta no face, as pessoas não se dar conta disto porque nada melhor do que o contato cara a cara ou como diz um programa de humor o famoso cara crachá, o resultado disto já sabemos surge pessoas egoístas voltadas para seus mundinhos particulares adestradas por jogos eletrônicos, com comportamento anti-social que vão lotar os consultórios de psiquiatras, psicólogos e psicanalistas.
Assim como não devemos cair no fetiche da mercadoria, não devemos cair no vício de ficar horas nas redes sociais, nem ficar enfeitiçado com a tecnologia pois nada pode substituir a criatividade e o contato humano e a solidariedade entre as pessoas.
Precisamos estar atentos a capacidade de manipulação do sistema capitalista, usar as redes sociais a nosso favor com os pés no chão sem a ilusão de que elas por si só vá garantir a contra-hegemonia da classe da trabalhadora, devemos ser firmes para superar os novos desafios e buscar novas formulas de organização e luta do ponto de vista da dialética para apontar os rumos e os caminhos da construção da revolução socialista no Brasil.

José Renato André Rodrigues
Professor de Filosofia
Comitê Central do PCB