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terça-feira, 13 de agosto de 2013
GIGANTE – PARTE III
Ninguém tem certeza do que o motivou. Talvez a constatação de que aquele campo de estacas que delimitava seu território era pura ilusão; talvez a fragancia remota de alguma fêmea, do outro lado do atlântico (vai saber ao certo como e em que condições funciona o olfato dessa espécie). O fato é que, já com o sol transformando o azul do céu em laranja arrebol, Ali se posicionou como fundista em dia de prova e arrancou seu enorme corpo do espaço que lhe era destinado, ao mesmo tempo em que emitia urros colossais pelo enorme tubo à frente de sua boca, como se os sons de uma centena de trombetas fossem emitidos em uníssono.
Houve correria e desespero. Já muitas crianças, juntamente com seus acompanhantes, se movimentavam para adentrar a lona e participar da matinê. Por outro lado, as menos favorecidas pela sociedade, que não dispunham de permissão para a entrada, aglomeravam-se em torno do cerro de estacas, destinadas a empalar o pobre paquiderme caso este decidisse se rebelar contra o cárcere sutil e desonesto. Mas Ali as enfrentou; e foram empurradas cada uma das estacas que se contrapunham à sua trajetória, de modo a adormecerem no solo na posição horizontal, levantando buracos de terra com suas bases, quase como se houvesse um planejamento prévio daquele ato, com a solução imediata de todas as equações envolvidas.
Os adultos começaram a se agitar e correr à frente de suas crias, de modo egoísta. As crianças, por outro lado, não sabe-se ao certo se por encantamento ou pela intrepidez temerária da idade, permaneceram ali, de queixo caído, admirando o elefante. Não poucas dentre elas ousaram aproximar-se mais... em certo momento a impressão foi que uma delas, a mais magricela e amarrotada de todas, atreveu-se a tocar a couraça do colosso enquanto este ainda estava prestes a transpor o último obstáculo.
Instante de silêncio não combinado, o som audível foi da estaca sendo subjugada e rompendo-se, e da terra vermelha que, retirada do repouso pela alavanca, voltou ao repouso no solo. “Dai-me uma alavanca e um ponto de apoio, e serei capaz de mover a terra.”
O gigante parou após a última linha de estacas, permanecendo imóvel por alguns poucos (porém, intermináveis) segundos, girou a cabeça nos dois sentidos possíveis, de modo a abanar as enormes orelhas, soltou mais um urro ensurdecedor e partiu em disparada rumo a uma vistosa coluna de folhagens logo à frente, como se acabasse de avistar uma mesa posta em um banquete.
As crianças em volta, num raro momento de lucidez coletiva, abriram espaço para Ali, e saíram gritando em algazarra febril – hora imitando os urros do gigante liberto, hora criando seus próprios urros.
Ao chegar na linha de vegetação, o gigante parou mais uma vez, e com a tromba em riste, apontando para todos os lados, contraindo e expandindo a parte interna, passou a aproximar-se lentamente de uma enorme árvore de fruta-pão.
A meninada curiosa ainda não percebia a silhueta da senhora, que por trás do tronco da árvore, desbastava ervas daninhas ao redor... Mas o olfato do paquiderme foi capaz de localizá-la... Num movimento ao mesmo tempo abrupto e delicado, a tromba foi envolta no corpo da senhora, o suspendeu no ar, e o pôs frente ao animal. As crianças prenderam a respiração por um longo instante, aguardando a tragédia. Mulher e paquiderme apenas miravam uma ao fundo dos olhos do outro, e vice-versa. Nenhum som, nem de agitação, nem de dor, nem de desespero... Apenas olhares trocados, e a espera pelo inevitável. O animal abriu e fechou os olhos exatamente três vezes. Depois começou o processo inverso, baixando o corpo da senhora para a posição precisa em que esta se encontrava, sem protesto algum da parte dela... Ao baixá-la completamente, manteve a tromba por um breve momento colada em sua face.
Sou capaz de jurar em nome de minha mãe que aquele foi um beijo de adeus...
Fábio Henrique de Carvalho
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Fábio Henrique de Carvalho
segunda-feira, 15 de julho de 2013
GIGANTE – PARTE II
Convém, em tempo, explicar o motivo pelo qual narro estes episódios.
Nove semanas antes da chegada do circo, encontrava-me na capital,
dormindo de favor na casa de um dos muitos amigos que fiz – faço muitos
por todo canto, inda hei de fazer um no litoral – enquanto passava os
dias à procura de emprego. A peregrinação foi cansativa e inócua, mas
pude recolher alguns aprendizados.
Tomei um ônibus na Praça Oito em um dia de agitação. Pessoas enfileiravam-se na parada e acotovelavam-se umas às outras como se o objetivo de todas não fosse o mesmo; e cada um agindo como se o real causador de seu transtorno fosse o semelhante que lhe ladeia. Não pude oferecer muita resistência quando, após muita espera, apareceu o primeiro coletivo: fui empurrado porta adentro pela turba, formando uma imagem patética – sabendo que aquele não era adequado ao meu destino, punha-me na contra mão, e era obrigado a caminhar de costas contra a minha vontade. E, de costas, tive que subir as escadas do coletivo.
A quantidade de indivíduos comigo na entrada já seria suficiente para lotar aquela jaula coletiva móvel; porém, ela já estava com espécies em excesso. Dentro, algum infeliz tentava tornar a vida do próximo tão infeliz quanto a sua, ouvindo alguma coisa em som horroroso, num volume acima das necessidades individuais. O vocabulário não foi reconhecido pela minha pobreza gramatical, mas supus que alguém repetia “eu quero tu”, ou algo semelhante, e mais outros quereres, e “tus” e “tas” – tais quais os pronunciados em nossa língua, mas parecendo outra. Só pude lamentar pela vida do querido.
Imediatamente, não sei se em manifestação de desagrado ou em puro ato de apoio ao infeliz, outros sons começaram a atormentar a ideia de todos, inclusive a do condutor, que parou o ônibus, e definiu que só prosseguiria com o fim da orquestra insólita e inaudita de telefones móveis.
Assim como fui levado pela turba porta adentro, fui empurrado porta afora, num séquito de revoltosos.
Estando eu numa cidade que não é a minha, numa lotação que não queria tomar e, para confidenciar em honesta verdade, sem um rumo definido, resolvi abraçar a vontade do acaso e decidi continuar sem rumo, mas com força motriz própria.
Esbocei poucos passos hesitantes até parar, contemplando uma construção diferente das demais; um casario de cor destoante, com uma porta larga. Estando aberta, pude perceber uma pequena aglomeração. Imaginei que fosse algum edifício público e, curioso de seu estado interno, ultrapassei a entrada.
No exato momento em que pus meu pé esquerdo no recinto (por teimosia, sempre inicio caminhadas pelo sinistro), alguém – que parecia ser a pessoa mais respeitada entre os presentes – chamou a nós todos para o início de uma reunião.
Com uma fome de fazer azedume na boca, e com escassos trocados nos bolsos, percebi de imediato as fartas porções de lanches num pequeno corredor de transição para o local da reunião... “O pior formato para um ambiente há de ser um corredor, a não ser que você queira um corredor”, ouvi certa vez. Porém, naquele momento, ouvindo o som de felicidade e ansiedade que ressoava do ventre, entendi que aquele corredor me serviria muito bem como um espaço de refeições. E, após seguir sem querer para onde não conhecia, sem ter ideia de quem eram aquelas pessoas e seus intentos, sem saber nem mesmo qual a finalidade daquele espaço, tive a primeira certeza do dia: a melhor refeição é sempre aquela que temos à disposição.
_____________________________
Fábio Henrique de Carvalho
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Tomei um ônibus na Praça Oito em um dia de agitação. Pessoas enfileiravam-se na parada e acotovelavam-se umas às outras como se o objetivo de todas não fosse o mesmo; e cada um agindo como se o real causador de seu transtorno fosse o semelhante que lhe ladeia. Não pude oferecer muita resistência quando, após muita espera, apareceu o primeiro coletivo: fui empurrado porta adentro pela turba, formando uma imagem patética – sabendo que aquele não era adequado ao meu destino, punha-me na contra mão, e era obrigado a caminhar de costas contra a minha vontade. E, de costas, tive que subir as escadas do coletivo.
A quantidade de indivíduos comigo na entrada já seria suficiente para lotar aquela jaula coletiva móvel; porém, ela já estava com espécies em excesso. Dentro, algum infeliz tentava tornar a vida do próximo tão infeliz quanto a sua, ouvindo alguma coisa em som horroroso, num volume acima das necessidades individuais. O vocabulário não foi reconhecido pela minha pobreza gramatical, mas supus que alguém repetia “eu quero tu”, ou algo semelhante, e mais outros quereres, e “tus” e “tas” – tais quais os pronunciados em nossa língua, mas parecendo outra. Só pude lamentar pela vida do querido.
Imediatamente, não sei se em manifestação de desagrado ou em puro ato de apoio ao infeliz, outros sons começaram a atormentar a ideia de todos, inclusive a do condutor, que parou o ônibus, e definiu que só prosseguiria com o fim da orquestra insólita e inaudita de telefones móveis.
Assim como fui levado pela turba porta adentro, fui empurrado porta afora, num séquito de revoltosos.
Estando eu numa cidade que não é a minha, numa lotação que não queria tomar e, para confidenciar em honesta verdade, sem um rumo definido, resolvi abraçar a vontade do acaso e decidi continuar sem rumo, mas com força motriz própria.
Esbocei poucos passos hesitantes até parar, contemplando uma construção diferente das demais; um casario de cor destoante, com uma porta larga. Estando aberta, pude perceber uma pequena aglomeração. Imaginei que fosse algum edifício público e, curioso de seu estado interno, ultrapassei a entrada.
No exato momento em que pus meu pé esquerdo no recinto (por teimosia, sempre inicio caminhadas pelo sinistro), alguém – que parecia ser a pessoa mais respeitada entre os presentes – chamou a nós todos para o início de uma reunião.
Com uma fome de fazer azedume na boca, e com escassos trocados nos bolsos, percebi de imediato as fartas porções de lanches num pequeno corredor de transição para o local da reunião... “O pior formato para um ambiente há de ser um corredor, a não ser que você queira um corredor”, ouvi certa vez. Porém, naquele momento, ouvindo o som de felicidade e ansiedade que ressoava do ventre, entendi que aquele corredor me serviria muito bem como um espaço de refeições. E, após seguir sem querer para onde não conhecia, sem ter ideia de quem eram aquelas pessoas e seus intentos, sem saber nem mesmo qual a finalidade daquele espaço, tive a primeira certeza do dia: a melhor refeição é sempre aquela que temos à disposição.
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Fábio Henrique de Carvalho
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terça-feira, 2 de julho de 2013
GIGANTE - PARTE I
As manchetes dos jornais naquela manhã de domingo imploravam para que os leitores fossem ao circo.
A lona era enorme, o diâmetro cobria as duas laterais do campo de futebol da gurizada, campo no qual foi disposta de modo centralizado, com os enormes pregos enferrujados esburacando ainda mais o já surrado chão duro, de terra batida, onde mal nascia uma erva daninha. Ao redor da lona, em minúsculas e precárias jaulas enfileiradas, uns animais famintos aguardavam pacientemente a hora da morte – uma banzaria de dar dó. E era em dó, e não em sol, que o palhaço cantarolava “Tristeza e Solidão”, do Baden com o Vinícius, certamente por causa da cozinheira, que havia lhe deixado na última parada para viver com um cobrador de lotação. A vida demorava a passar por ali, e quase todos sentiam isso com melancolia. Menos o impassível elefante...
Não tinha visto muita coisa em vida (e agora, após a submersão, já nem vejo mais coisa alguma), mas, certamente, este é o maior animal que existe. Tudo bem, alguém há de protestar: há animais maiores no oceano! Mas nunca avistei o oceano, inclusive... Se quisessem mesmo mudar minha opinião, colocassem aqui, no chão de terra batida do campinho, um destes monstros marinhos, e talvez, se o visse, eu daria fé. “Porque tudo aquilo que jamais é visto – não existe...”, já postulou um poeta de verdade. Nem mesmo o oceano existe!
Aquele elefante existiu. E ainda existe, já que dele não se esquece. Não sabemos ao certo se ele manteve seu corpo monumental por tanto tempo ali, sob a autoridade deselegante e cruel de seus tratadores, por comodidade ou por falta de lugar para ir. Afinal, para onde mais um elefante iria fora de seu habitat na África selvagem? Para uma feira dominical? Fazendo jus ao frasista popular anônimo que justamente ilustrou uma das cenas que mais poderia causar transtornos? “Tão incômodo quanto um paquiderme na feira”...
Chamavam-no Ali, em homenagem a outro gigante impávido. Provavelmente ele não dava por isso. Nem Clay e nem Ali existiram para aquele paquiderme. Por outro lado, ninguém se preocupa muito com os carrapatos que infestam sua derme, alguns formando imensas câmaras e palacetes nas aberturas de seu aparelho auditivo. Ali protestava, abanando em leque as enormes orelhas, raramente algum dos parasitas caía... Em sua terra natal, as insuportáveis búfagas lhe visitariam para devorar esses parasitas hediondos; não sem dilacerar-lhe a carne, arrancando em movimentos torturantes partes do enorme corpo, além de muito sangue. Há remédios que curam uma gripe sacrificando o enfermo.
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Fábio Henrique de Carvalho
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A lona era enorme, o diâmetro cobria as duas laterais do campo de futebol da gurizada, campo no qual foi disposta de modo centralizado, com os enormes pregos enferrujados esburacando ainda mais o já surrado chão duro, de terra batida, onde mal nascia uma erva daninha. Ao redor da lona, em minúsculas e precárias jaulas enfileiradas, uns animais famintos aguardavam pacientemente a hora da morte – uma banzaria de dar dó. E era em dó, e não em sol, que o palhaço cantarolava “Tristeza e Solidão”, do Baden com o Vinícius, certamente por causa da cozinheira, que havia lhe deixado na última parada para viver com um cobrador de lotação. A vida demorava a passar por ali, e quase todos sentiam isso com melancolia. Menos o impassível elefante...
Não tinha visto muita coisa em vida (e agora, após a submersão, já nem vejo mais coisa alguma), mas, certamente, este é o maior animal que existe. Tudo bem, alguém há de protestar: há animais maiores no oceano! Mas nunca avistei o oceano, inclusive... Se quisessem mesmo mudar minha opinião, colocassem aqui, no chão de terra batida do campinho, um destes monstros marinhos, e talvez, se o visse, eu daria fé. “Porque tudo aquilo que jamais é visto – não existe...”, já postulou um poeta de verdade. Nem mesmo o oceano existe!
Aquele elefante existiu. E ainda existe, já que dele não se esquece. Não sabemos ao certo se ele manteve seu corpo monumental por tanto tempo ali, sob a autoridade deselegante e cruel de seus tratadores, por comodidade ou por falta de lugar para ir. Afinal, para onde mais um elefante iria fora de seu habitat na África selvagem? Para uma feira dominical? Fazendo jus ao frasista popular anônimo que justamente ilustrou uma das cenas que mais poderia causar transtornos? “Tão incômodo quanto um paquiderme na feira”...
Chamavam-no Ali, em homenagem a outro gigante impávido. Provavelmente ele não dava por isso. Nem Clay e nem Ali existiram para aquele paquiderme. Por outro lado, ninguém se preocupa muito com os carrapatos que infestam sua derme, alguns formando imensas câmaras e palacetes nas aberturas de seu aparelho auditivo. Ali protestava, abanando em leque as enormes orelhas, raramente algum dos parasitas caía... Em sua terra natal, as insuportáveis búfagas lhe visitariam para devorar esses parasitas hediondos; não sem dilacerar-lhe a carne, arrancando em movimentos torturantes partes do enorme corpo, além de muito sangue. Há remédios que curam uma gripe sacrificando o enfermo.
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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
A greve do carnaval
Por Heitor Cesar Oliveira
Imagine
um dia, talvez um sábado, ou mesmo uma segunda feira de carnaval. As
ruas do Rio vazias. Nenhum bloco; nenhum cordão; nenhum baile; nenhum
bêbado cantarolando alguma marchinha; nenhum casal brigando por ciúme;
nenhum beijo despretensioso. Imaginem um carnaval que os foliões
fizessem greve. Não fossem às ruas. Uma greve de carnaval.
As
ruas ficariam desertas. Mais desertas que um início de madrugada de
segunda feira. Os comerciantes, estes ficariam em pânicos: os donos dos
bares ficariam loucos pensando na “fortuna” por eles gasta para encher
seus estoques à espera de foliões e bêbados que não mais apareceriam. A
polícia - essa coitada! – perderia grande parte de sua renda extra de
extorsão dos foliões exagerados – presas fáceis desse tipo de
investimento. Mas o que causaria isso? O que causaria uma greve de
carnaval, unindo o folião, o bêbado, os comerciantes ambulantes, os
diretores de blocos, os compositores de marchinhas, os sambistas com
seus violões e pandeiros?
Esse
quadro me foi desenhado por um sujeito que se dizia viajante do tempo,
vindo de 2014, ano em que tal fato ocorrera. Eu o encontrara numa rua
próxima à Praça XV andando perdido em meio aos blocos com suas camisas
cheias de patrocínio e com suas letras que não diziam muito mais do que
um montante de vogais.
Ao
ser perguntado sobre tal fato, ele responderia direto, com uma certeza
nítida: — A velha e conhecida de todos nós, a ganância, a ânsia
enlouquecida por lucro, a mercantilização das relações humanas e seus
derivados.
O
carnaval havia se voltado para o turismo, para os de fora. Tudo
invertido na cidade, preparada para servir de vitrine para os gringos.
Nada
contra. Mas se eles são turistas, que aprendam a conviver com as coisas
como estão, e não as modifiquem para melhor atender seus desejos de
“caricatura de povo”, de "carnaval", de "mulatas", de "malandro
sambista". E a Ordem, essa velha inimiga do povo – essa amante de mentes
pequenas e positivistas, que tem medo do povo – impediu a brincadeira
de ocorrer fora de seus padrões de “choques", intimidando o povo,
acabando com os coretos e com a espontaneidade da brincadeira. Favorece –
isso sim! – os donos de comércio e bares, que se fecharam nos seus
salões com ar condicionado e com suas músicas ao vivo, com seus preços
exagerados que afastam o folião autêntico, o brincalhão, o fanfarrão, o
bêbado. Tudo fica perfeito para a “playboyzada” curtir com os cartões de
créditos patrocinados pelos pais, os mesmos pais que assumiram a
organização da festa, a nossa burra elite.
Foi
assim, diante desse quadro que se organizou – ou melhor, que se
desorganizou - a greve de sábado foi passando pelo domingo (recorde de
presença das missas), pela segunda e, quase terminando na terça feira,
foi entrando pela quarta. Logo quando todos achavam que a festa tinha
ido para o buraco, quando todos consideravam o fim do carnaval carioca; a
morte, tão decretada, do samba... Estourou a festa do povo!
Num
passe de mágica, as ruas foram tomadas não para buscar os bares com
seus donos falidos, mas para fazer a brincadeira de rua. Desfilar pela
Avenida Rio Branco, pela Presidente Vargas, correndo, brincando, com
bate-bola, mascarados, foliões, sambistas, diretores de blocos e claro,
nosso amigo de sempre, o bêbado, com seu vasto repertório de sátiras, de
marchinhas antigas e filosofias de botequim.
Foi
o ano em que nenhum dinheiro caiu nos cofres da elite. Foi o ano do
choque da desordem urbana, pois afinal quem quer manter essa ordem aí?
Eu não...
Assim,
meu amigo viajante do tempo entrou numa viela, dessas que tem um monte
na cidade, e sumiu gritando: — Viva o povo trabalhador, brincalhão,
alegre, folião e claro, combatente, valente e brigão, como deve mesmo
ser.
Heitor Cesar Oliveira é historiador, membro do CC do PCB
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Heitor Cesar Oliveira
sexta-feira, 9 de novembro de 2012
"O Rato"
E
aí Dr. Ratazana! Lembra de Mim? Eu fui o seu aluno na historia...
Aquele que sacava muito de arqueologia, mas que não era bom o suficiente
para ser historiador...Me formei...E você? Como vai?
Oi Dr. ratazana, sou eu! Aqui nova
mente... Aquele que saca muito de história, mas que não é bom o suficiente para ser filósofo –mesmo, já o sendo...
Oi Dr. ratazana, sinto muito pelo tiro que levou, sinto realmente, mas
não pelo único tiro...E sim, por ter sido só um! Pois deveria ter sido
17!
Mandarei o seu assecla, ou o seu correligionário como falso
leviano à espera de uma vaga, levar uma flor...Mas é a minha e não a
dele!
A flor, ela será de Lótus! Aquela que abrolha em meio aos cadáveres, carniças, corcovas e moribundos!
Mandarei colocá-la em meio ao seu ser jazido! Na sua sepultura daninha!
Repleta de intrigas, de sonhos quebrados e de desesperança.
Pois eu -e os outros do mundo em chamas-, somos a nova Ordem-Mundial e não o que você disse ser, ou o The Economist e a TV...
Você é o que ficou para trás: está enterrado, sepultado, chafurdou na
própria bile e foi digerido por ela, é gordura pra queimar.
Tu
foi o que há mais de pútrido, mais deletério (em vida), hoje é só o
miasma do cadáver, semi-morto, na mente de outro, o abandono! Que
mereceu apodrecer vivo e felizmente morreu! Tragicamente, hilariamente,
patéticamente!
Você foi o suplantado, o suprimido , eu limpei
(e limpo eternalmente ) a minha bunda com o seu curriculum Lattes,
quando cago na Avenida Brasil. Seu filho da puta!...Você é um execrável,
Dr.
Mereceu o paredão, sem perdão! Sem reflexão, sem episteme,
sem formalidades, sem cerimônias, sem humanismo. Ué, você não é o
inumano?
Você é o encosto do espírito, aquele que
inexiste!...Pois aqui na imanência, não há espíritos! Agora, na hora da
débâcle, na hora da morte, seu filho da puta...Você crê em
espíritos?...Não é o que seus livros dizem, Dr!
- (Felipe Lustosa)
Oi Dr. ratazana, sinto muito pelo tiro que levou, sinto realmente, mas não pelo único tiro...E sim, por ter sido só um! Pois deveria ter sido 17!
Mandarei o seu assecla, ou o seu correligionário como falso leviano à espera de uma vaga, levar uma flor...Mas é a minha e não a dele!
A flor, ela será de Lótus! Aquela que abrolha em meio aos cadáveres, carniças, corcovas e moribundos!
Mandarei colocá-la em meio ao seu ser jazido! Na sua sepultura daninha! Repleta de intrigas, de sonhos quebrados e de desesperança.
Pois eu -e os outros do mundo em chamas-, somos a nova Ordem-Mundial e não o que você disse ser, ou o The Economist e a TV...
Você é o que ficou para trás: está enterrado, sepultado, chafurdou na própria bile e foi digerido por ela, é gordura pra queimar.
Tu foi o que há mais de pútrido, mais deletério (em vida), hoje é só o miasma do cadáver, semi-morto, na mente de outro, o abandono! Que mereceu apodrecer vivo e felizmente morreu! Tragicamente, hilariamente, patéticamente!
Você foi o suplantado, o suprimido , eu limpei (e limpo eternalmente ) a minha bunda com o seu curriculum Lattes, quando cago na Avenida Brasil. Seu filho da puta!...Você é um execrável, Dr.
Mereceu o paredão, sem perdão! Sem reflexão, sem episteme, sem formalidades, sem cerimônias, sem humanismo. Ué, você não é o inumano?
Você é o encosto do espírito, aquele que inexiste!...Pois aqui na imanência, não há espíritos! Agora, na hora da débâcle, na hora da morte, seu filho da puta...Você crê em espíritos?...Não é o que seus livros dizem, Dr!
- (Felipe Lustosa)
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Manoel Preto
Manoel Preto
Dedicado a Washington Luis Barcelos, que me soprou essa história
Na última noite, apenas estremecia de leve e,
aos poucos, se aquietou. Cansado pela longa
vigília,cerrei os olhos e adormeci. Ao acordar,
percebi que uma coisa se transformara no meus
braços. No meu colo estava uma criança encardida,
sem dentes. Morta.
Teleco, o coelhinho
Murilo Rubião
Daniel Oliveira
Sabará/MG
07 de Novembro de 2012
Murilo Rubião
No caminho de Curral del Rey para Sabará, havia uma mata, e nesta
mata, uma pequena estrada, calçada em alguns pontos íngremes, que era
para estabilizar as carruagens para não fazer chacoalhar as damas da
corte. Neste ponto, onde o caminho se curvava, os escravos velhos e
doentes eram abandonados a própria sorte. Foi esse o caso de Manoel
Preto, ex-príncipe de um reino africano, encarregado de encher as
moringas da casa grande, e que completará 60 anos, idade bastante
avançada entre os escravos.
Na ida da comitiva, Manoel Preto foi abandonado, deixado em uma pedra, sentado, esperando a morte. Na volta do comboio, outros escravos se encarregariam de enterrar o seu defunto corpo.
Mas Manoel Preto não quis assim. Sentar? Esperar a morte chegar? Não, definitivamente não! Havia cruzado todo um oceano. Seus companheiros de exílio, jogados ao mar um a um, formavam um colar de pérolas negras. Viu mulheres parirem novos lucros, e crianças crescerem nos convés. Em terra, trabalhou em lavoura, engenho, esqueceu sua língua, aprendeu outra. Teve febre, pensou na mãe, no pai, no reino que não chegou a herdar, e que provavelmente nem existia mais. Morrer assim? Mas que não! Se a morte lhe quer, que se ponha a caminhar.
E Manoel Preto caminhou. Entrou trilha, deitou mato, pendurou em pedra. Sentia-se mais forte. Ninguém a lhe dizer “faça isso, pegue aquilo, carregue tudo para acolá”. Era apenas ele e o verde a lhe abraçar.
Foi quando se deparou com uma cobra: “o pai quer que eu o ajude, lhe devorando?”. Com a cabeça fez que não. E continuou a andar.
Desta vez um carcará, pousando ao seu lado, lhe cochichou: “se o pai quer, eu lhe como. Ajudo pai, e pai me ajuda”. Mas Manoel Preto fez que não, e soprou pra longe o bico da insidiosa.
E então uma paca, não uma simples paca, mas a rainha de tudo que respira, e é bom, confeitou no seu ouvido: “pai não morre, pai é pedaço de nós. Se pai quiser, comigo tem morada”. Manoel Preto sorriu, como nunca o fazia. Se curvou. Seus pés trincaram. Seus olhos se puseram negros como a noite. E se foi em cavalgada.
Na ida da comitiva, Manoel Preto foi abandonado, deixado em uma pedra, sentado, esperando a morte. Na volta do comboio, outros escravos se encarregariam de enterrar o seu defunto corpo.
Mas Manoel Preto não quis assim. Sentar? Esperar a morte chegar? Não, definitivamente não! Havia cruzado todo um oceano. Seus companheiros de exílio, jogados ao mar um a um, formavam um colar de pérolas negras. Viu mulheres parirem novos lucros, e crianças crescerem nos convés. Em terra, trabalhou em lavoura, engenho, esqueceu sua língua, aprendeu outra. Teve febre, pensou na mãe, no pai, no reino que não chegou a herdar, e que provavelmente nem existia mais. Morrer assim? Mas que não! Se a morte lhe quer, que se ponha a caminhar.
E Manoel Preto caminhou. Entrou trilha, deitou mato, pendurou em pedra. Sentia-se mais forte. Ninguém a lhe dizer “faça isso, pegue aquilo, carregue tudo para acolá”. Era apenas ele e o verde a lhe abraçar.
Foi quando se deparou com uma cobra: “o pai quer que eu o ajude, lhe devorando?”. Com a cabeça fez que não. E continuou a andar.
Desta vez um carcará, pousando ao seu lado, lhe cochichou: “se o pai quer, eu lhe como. Ajudo pai, e pai me ajuda”. Mas Manoel Preto fez que não, e soprou pra longe o bico da insidiosa.
E então uma paca, não uma simples paca, mas a rainha de tudo que respira, e é bom, confeitou no seu ouvido: “pai não morre, pai é pedaço de nós. Se pai quiser, comigo tem morada”. Manoel Preto sorriu, como nunca o fazia. Se curvou. Seus pés trincaram. Seus olhos se puseram negros como a noite. E se foi em cavalgada.
Daniel Oliveira
Sabará/MG
07 de Novembro de 2012
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quarta-feira, 22 de agosto de 2012
Cristina
Ivanoé, não suportava mais ver aquilo, a neta impaciente dividia o olhar, entre a janela da frente da casa e o telefone, estalado, na mesa no centro da sala de estar. Era um olhar difuso, um misto de desespero, de ansiedade, de expectativa e de dor.
– Márcia minha filha, o que foi? O que tens minha filha? – Disse impaciente Ivanoé, o velho delegado, ao interromper a leitura do Jornal da tarde, ele estava sentado confortavelmente, na sua poltrona de leitura. Ivanoé, estava aposentado somente a alguns meses, da polícia civil, e desde que o seu único filho lhe faltara, deixando a neta, ainda um bebê de colo, como seu bem mais precioso na vida, nada mais importava de fato na vida. Uma vez que a esposa de Ivanóe, não era mais nada que uma mera sombra do passado, depois que ela falecera há tempos atrás. Era um passado, que ele fazia questão de esquecer por completo. Agora Ivan, como gostava de ser chamado, estava aposentado e não tinha mais que dividir seu tempo entre as duas coisas que mais amava na vida. Nada mais importava de fato, se não Márcia sua neta. Uma vez que uma das suas duas paixões, a polícia civil, já não fazia mais parte da vida cotidiana de Ivan. Mas, ele não lamentava o fato, a vida é assim mesmo, tudo passa nesse mundo, menos a família, pois o sangue sempre prevalece. Pelo menos, era assim que o velho policial civil encarava a vida.
– Márcia minha filha, o que é isso ai no teu braço?
– Ainda é uma ‘’tatto’’ meu pai, e foi mês passado, quando o senhor me perguntou o que era, é hoje ainda uma ‘’tatto’’ e será amanhã também uma ‘’tatto’’. Ela, vai ficar bem aqui, no meu braço por muito tempo! Vai ficar bem aqui e para sempre na vida minha vida.
Ivan gostou de ouvir a neta o chamar de pai. Mas, passou a não gostar do linguajar desrespeitoso, da neta de tempos para cá, nem estava gostando das roupas que ela vinha usando, eram trajes diáfanos e negros como a noite, Márcia tão rebelde e revoltada com tudo e todos, como era parecida com Aldo nesse aspecto: - Meu Deus, como Márcia é parecida com o Aldo em tudo!– pensou Ivan consigo mesmo. E olhando a neta parada diante dele, de repente Ivan foi tomado por velhas recordações, dos tempos da infância e da adolescência, quando Ivan e Aldo eram praticamente inseparáveis. Eram insolúveis e indissociáveis, onde estava um o outro também estava, aonde um ia o outro também ia. E como, os caminhos que a vida adulta os fizeram mudar de lado. Ivan foi ser policial civil e Aldo se engajar na luta armada, eram os anos de chumbo, anos negros da ditadura militar. Aldo desaparecera por completo, por algum tempo, da vida de Ivan, sumira em meio ao caos que o país estava mergulhara naquele momento. Ivan, só ficou sabendo onde estava o irmão por vias tortas. E teve que ajudar o irmão a voltar para casa. E como foi difícil, aquilo para Ivanoé, ver o irmão no cárcere, preso como um marginal qualquer.
– Filha, tua amiga não te ligou mais, e nem veio te visitar? Que coisa estranha? Não é mesmo minha filha! – A voz de Ivan era pastosa e cheia de ternura, muito diferente do tom forte e autoritário de poucos minutos. Mas, Márcia não respondeu a pergunta feita por Ivan, e como aquele silêncio incomodava Ivan profundamente.
Tinha aquela súbita união das duas moças, e de repente as duas eram tão inseparáveis. Era o cinema, a praia, shows, as peças de teatro e os mais variados programas, até mesmo futebol as duas andavam assistindo juntas. E como aquilo deixava Ivan muito preocupado em demasiado. Para Márcia, parecia que não existia mais ninguém no mundo, há não ser a amiga Cristina. E agora esse sumiço repentino de Cristina, uma moça tão meiga e doce, tão diferente da neta. Cristina era diferente em tudo, nos estudos, nas roupas e tudo mais. Se Cristina era o frescor de uma manhã primaveril, Márcia era saturna e intensa como uma noite de tempestade e frio no inverno. A princípio, aquela estranha amizade não incomodava em nada o velho policial, ele até achava bom ver a neta, sempre solitária, na companhia de alguém. Mas, agora olhando por outro prisma, Ivan começou a pensava o oposto, aquele dependência de Márcia pela companhia da amiga, não deixava que Márcia vivesse a própria vida. Cristina monopolizava a vida de Márcia de um jeito, que estava assustando Ivan. Na visão do velho policial a neta parecia querer viver a vida da outra. Era esse o confuso quadro formado na cabeça de Ivanóe.
– Aldo meu irmão...
– O que foi pai, ‘’ta’’ falando comigo?
– Nada minha filha, só estava pensando no teu tio, que ainda está morando no estrangeiro, saudades, só isso minha filha, Márcia o que é isso no teu nariz, minha filha?
– É um piercing...
– Já sei... já sei... ainda é um piercing, e foi mês passado quando o teu velho pai...
– Pai, o amor é mesmo uma coisa tão estranha, não é mesmo? Pega a gente de tal jeito, e não larga mais, e dói tanto!
Só agora olhando com mais atenção, Ivan notou a tatuagem vermelha em forma de coração, com a inscrição ‘’Cris’’ no braço esquerdo da neta.
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segunda-feira, 9 de julho de 2012
Praia Brava - O final do Vale
Há muito tempo atrás, no longínquo final do século XX, vislumbrou-se a Praia Brava como o cenário ideal de ambiente preservado. Ao mesmo tempo, tornou-se questão de status frequentar aquele pedaço de paraíso, atraindo os olhares de todo o mundo, que aproveitaram suas areias limpas e águas puras para definir um modo de vida agitado dia e noite, com festas regadas a música eletrônica.
O progresso chegou como uma moto serra sem botão de desligar, e foi deixando para o lado todo o interesse em se viver numa região que tem plena consciência ecológica. E lá, no final do século 20, foi-se a esperança de manter um dos mais sensíveis e preservados ecossistemas do vale do Itajaí inalterado.
A porta do vale para espécies e o último resquício da ligação do interior ao mar pela natureza sofre mudanças abruptas dia após dia. Recebi o depoimento de um amigo que há seis anos não frequentava a praia, e o mesmo me disse: Essa não é a Brava que eu conheço.
Pois bem, nem eu. Porém o progresso tem seus descréditos e a região que já sofre em uma conturbação emergente avançou para a brava e seus dias de praia nativa estão contados. Resta agora saber até quando a natureza irá sobreviver, a água permanecerá limpa, as areias e as dunas intocadas e o sossego noturno de quem vive próximo a natureza pode desfrutar.
Moacir Veiga Kienast – Frequentador da Praia Brava, Bodyboarder, Ambientalista e Funcionário Público itajaiense.
Contato: moacir@quersurfar.com.br
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quinta-feira, 21 de junho de 2012
Campos Elíseos
Ah se o tempo pairasse
Então eu não deixaria você ir embora
Ficaria há admirar-te
E toda minha existência
Por mais artificial que fosse
Por mais surreal que fosse
Justificar-se-ia
Então saberia
Que não posso viver
Sem tua doce presença na minha vida
Já não te deixaria ir embora
Já não te deixaria sozinha
Jogada a própria sorte...
Tudo isso se o tempo pairasse!
Agnes não gostou de ver os dois policiais postados, na porta do quarto fazendo a sentinela, a postura marcial dos militares incomodou Agnes. A vida toda ela fugia dessas figuras, na verdade Agnes fugia de si mesma, a vida desregrada era sua mais profunda e angustiante prisão, pois não conseguia fugir dela em absoluto, Agnes era prisioneira de si mesma. Naquele momento, ela não sabia se deveria passar diretamente pela porta, ou se identificar para os soldados. Parou por uns instantes e decidiu adentrar, passou porta adentro sem pedir licença aos militares parados ali feito estátuas de cera. Agnes em um instante chegou a duvidar se aquelas figuras foram pessoas de verdade. Ela passou pela porta e não foi incomodada pelo militares.
Agnes foi encontrar Sibelli deitada, na cama debilitada, parecia estar morta. Mas, a mulher de negros cabelos, olhos verdes e pele glacial, estava viva. A Dama da noite, outrora absolta e ‘’dona’’ de muitos admiradores. Jazia solitária deita na cama de um hospital.
- Trouxe... trouxe o que te pedi menina? – A voz de Sibelli, soou de uma forma que, não condizia com o seu estado de saúde. Era forte e decidida, agora Agnes sabia o porquê de ela ter a fama de sobrepujar a todos.
- Trouxe! Mas...
- Anda... me dá logo as pílulas e vá embora menina!
- Sibelli ...????
- ‘’Tás’’ pensando o que menina? A vida é minha, e disponho dela como bem entender! Vivi sozinha, a minha vida intera, e não é agora que vou pedir ajuda. Cai fora daqui... desaparece da minhas vistas logo.
Agnes olhou a amiga, fez como um ato mecânico com as mãos. E passou as cápsulas para a Sibelli.
- Vá embora quero partir sozinha! – Mais uma vez a voz da Sibelli era forte e cheia de razão. O olhar da mulher ajustou Agnes. Agnes queria correr quando passou pela porta, mas não o fez, saiu do quarto calmante, como se nada acontecera. Ela não mais se importou com a postura marcial dos soldados. Estavam estáticos, quando há jovem passou por ambos. Pareciam feitos de ceras as sentinelas, pareciam alheios a tudo a todos.
Samuel da Costa é contista em Itajaí
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sexta-feira, 15 de junho de 2012
Quando tudo terminar
Ah se o tempo pairasse
Então nada seria como antes
Já não te deixaria, jogada entre as feras
Desprotegida & sozinha
Então toda a minha existência
Justificar-se-ia & então eu me perderia
Na imensidão dos teus olhos
De um verde tão intenso
E eu saberia
Com toda a certeza que já não posso viver
Sem você...
Sem tua doce presença na minha vida.
Otto sempre preferiu viver em regiões fronteiriças, vivia como seus antepassados, que sempre viveram assim. O clã’’, a qual Otto pertencia, vivia e morria, entre a legalidade e a ilegalidade, entre uma nação e outra, entre um continente e outro, como em uma marcha sem fim, indo e vindo ao saber das conveniências da ocasião. Viviam e morriam de lealdades e de traições, migrações e imigrações forçadas. E o teuto tomou para si esse legado familiar. Por isso escolheu para viver na cidade portuária e seus inúmeros e infindáveis vai e vem de navios, caminhões, mercadorias e gente de todos os naipes, te todas as matizes, raças e credos. E para morar, aquele bairro que não se decidia se queria ser uma zona rural ou urbana, com aquelas olarias, que importunavam a todos com seus fornos arcaicos enfumaçados, bairro cortado por uma rodovia que ligava o litoral informal e quente com o vale europeu frio e sisudo. Otto foi encontrar trabalho um pouco longe dali, no Bar-café Garibaldi, que se localizava próximo a orla, na via de acesso rápido entre cidades. Otto também dividia a vida em duas partes distintas, uma clandestina de noite, e uma aparentemente normal e de dia. Viver entre os mais variados riscos e desventuras da fronteira da ilegalidade com a legalidade. O ar puro da orla do mar de dia, o clima carregado da noite da beira do cais e por fim entre traições e lealdades. Um equilíbrio que nem sempre repousava nas mãos de Otto. Os choques entre mundos eram inevitáveis, constantes e cada vez mais violentos e cada mundo lhe cobraria, a sua maneira, um preço e uma definição.
***
O aroma de alfazemas pairava no ar e se misturava com a música romântica francesa antiga. E a luz vermelha, que vinha do abajur ao lado da cama, deixou o quarto à meia luz. As roupas espalhadas por toda a parte compunham o ambiente. Para os dois não havia nada para se dizer, pois o silêncio já dizia tudo, e falava por si. E abraçados na cama, ficaram por mais uns alguns instantes, além do habitual, mas parecia uma eternidade para ambos. Agnes sabia que aquilo não poderia durar muito tempo. Otto, também, sabia que as coisas não poderiam ficar no pé em que estavam. Ele queria dizer alguma coisa, mas lhe faltavam palavras, elas morriam em sua boca. Agnes nem sequer deixou espaço para tal coisa nos últimos dias. Não poderia, pois como uma boa profissional que era, tinha decidido por fim nessa história de uma vez por todas. Já o conhecia o suficiente para tanto, e daria um golpe baixo da linha da cintura, e a hora tinha que ser naquele momento. Agnes aproveitou do momento em que Otto estava frágil e cheio de culpa.
- Amanhã, quando raiar o dia, apareço no teu trabalho, e tu vai me preparar um senhor café da manhã, seu canalha, aproveitador, seu desgraçado. Vou querer ser servida por pelo teu amiginho muito especial. Que tal, torradas e chá com conhaque canadense de sete anos? E pra Cigana, pão-de-mel e café morno sem açúcar, um limão cortado no meio e dois saquinhos de adoçante cristalizado importado. - Não era do perfil dela se portar daquela maneira com os clientes. Nem com os habituais, nem tão pouco com os ocasionais, mas aquilo tinha que ter um fim em absoluto. E não poderia ficar de pé uma centelha sequer, da relação que estava construindo com Otto, àquela relação era ruim para ambos, Agnes sabia da realidade em que vivia e não queria aquela ilusão para si.
- Se tu fizer isto, sua puta desgraçada! Te mato... sabes que minha mulher trabalha comigo? Não sabes? – Esbravejou Otto, sem soltar Agnes dos braços, ainda a abraçava com terno carinho apesar do tom de voz áspero e duras palavras.
- Não! Não eu sabia! – A voz dela soou com um lamento e como um pedido de desculpas.
- Pois agora tu sabes, te mato, se por os pés por lá te mato, tu e aquela tua amiga ordinária!- Retrucou o teuto, com todo o ódio do mundo, sem olhar nos olhos dela. Enquanto isso, lá fora há noite estava se despedindo, e o dia com as suas múltiplas possibilidades, vinha para expulsar Agnes da vida de Otto. Só que dessa vez era para sempre.
Samuel da Costa é contista em Itajaí
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quarta-feira, 11 de abril de 2012
Parada do Velho Novo
Eu estava sobre uma colina e vi o Velho se aproximando, mas ele vinha como se fosse o Novo. Ele se arrastava em novas muletas, que ninguém antes havia visto, e exalava novos odores de putrefação, que ninguém antes havia cheirado. A pedra passou rolando como a mais nova invenção, e os gritos dos gorilas batendo no peito deveriam ser as novas composições. Em todas as partes viam-se túmulos abertos vazios, enquanto o Novo movia-se em direção à capital. E em torno estavam aqueles que instilavam horror e gritavam: Aí vem o Novo, tudo é novo, saúdem o Novo, sejam novos como nós! E quem escutava, ouvia apenas os seus gritos, mas quem olhava, via tais que não gritavam. Assim marchou o Velho, travestido de Novo, mas em cortejo triunfal levava consigo o Novo e o exibia como Velho. O Novo ia preso em ferros e coberto de trapos; estes permitiam ver o vigor de seus membros. E o cortejo movia-se na noite, mas o que viram como a luz da aurora era a luz de fogos no céu. E o grito: Aí vem o Novo, tudo é novo, saúdem o Novo, sejam novos como nós! Seria ainda audível, não tivesse o trovão das armas sobrepujado tudo.”
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quarta-feira, 14 de março de 2012
DESPERTA, DOR. conto de Pirenco
Acordei com o barulho do relógio, abri os olhos e a primeira pancada... 4:55 da madrugada. Fui ao banheiro; tomei um banho pelada, muito rápido; água e luz tá o olho da cara. No café... não vai leite, não tem em casa. Só tem café preto e forte pra me manter acordada e sair por aí apresentando a minha carta de entrada, currículo. Tenho poucas copias, tivesse muita, teria de ir a pé. O dinheiro tá contado, recontado, contadinho, pro ônibus e prum salgado de 50 centavos. Sai de casa, dia 13 de fevereiro de 2012, pisei na calçada esburacada, e como guerreira zumbi, subi até o ponto, ''esperar o ônibus não é tarefa fácil'', pensei. Ponto lotado, empurra-empurra, sobe, não sobe; dentro mais lotado do que lá fora; “bom dia, motorista.” Ele não responde. Na catraca, a segunda pancada... ARMÊNIA 4,80. aumentaram a passagem. PORRA, ASSIM NÃO DÁ. Cobrador me diz uma coisa... POR QUE TUDO AUMENTA SEM NOS PERGUNTAREM SE AO MENOS QUEREMOS ? Eu não quero esse aumento. Se aceito, fico sem alimento. Essa condução tá mais cara do que o feijão. Cobrador... VAMOS DESPERTAR A NOSSA DOR !!! Preste atenção na jogada... o que você dá de lucro ao patrão, NUM SÓ DIA, paga o teu pão de todo o mês. E além do mais, o patrão não pega ônibus caro e lotado, ele anda de carro blindado com ar condicionado. Assim não dá, vamos despertar, dizer não ao aumento, não ao patrão. Vamos juntos... carona, companheiro?!!!
domingo, 19 de fevereiro de 2012
A MORTE E O CARNAVAL
Enfim terminou o expediente da sexta. Todos estavam eufóricos. Aquilo o deixava perplexo. Sabia o por quê mas não conseguia dizer como. Era como nos tempos da primária, onde andavam em filas com as mãos dadas. E alguém soltava sua mão. E você deixa de fazer parte daquele organismo. Ele havia largado a mão da humanidade há tempos, e seguia taciturno e breve de riso...
Foi para casa. Bebeu sozinho. Ouviu música. Lembrou. Esqueceu. Adormeceu.
No sábado, já clamava aos céus o passamento ligeiro da praga foliã. Em vão.
O carnaval invadia seus sentidos com a sutileza de um tanque israelense em território palestino. Pensou em morrer. Ouviu batidas gentis na porta. Atendeu. Não esboçou reação. Era ela. Nem descontente, e muito menos satisfeito, cumpriu os ritus com uma lisura exemplar. Convidou-a entrar. Silenciosos, acabaram com o líquido da garrafa cristalina. Ela, meio sem graça pelos ossos do ofício, ofereceu-lhe um regalo. Ele assentiu, e gritou a plenos pulmões: Quero morrer ao som de um tango; e que se fodas o carnaval.
Mal sabia ele que no inferno a folia era igual.
Daniel Oliveira
19 de Fevereiro de 2012
Foi para casa. Bebeu sozinho. Ouviu música. Lembrou. Esqueceu. Adormeceu.
No sábado, já clamava aos céus o passamento ligeiro da praga foliã. Em vão.
O carnaval invadia seus sentidos com a sutileza de um tanque israelense em território palestino. Pensou em morrer. Ouviu batidas gentis na porta. Atendeu. Não esboçou reação. Era ela. Nem descontente, e muito menos satisfeito, cumpriu os ritus com uma lisura exemplar. Convidou-a entrar. Silenciosos, acabaram com o líquido da garrafa cristalina. Ela, meio sem graça pelos ossos do ofício, ofereceu-lhe um regalo. Ele assentiu, e gritou a plenos pulmões: Quero morrer ao som de um tango; e que se fodas o carnaval.
Mal sabia ele que no inferno a folia era igual.
Daniel Oliveira
19 de Fevereiro de 2012
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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
A greve do carnaval - Por Heitor Cesar Oliveira
Imagine um dia, talvez um sábado, ou mesmo uma segunda feira de carnaval. As ruas do Rio vazias. Nenhum bloco; nenhum cordão; nenhum baile; nenhum bêbado cantarolando alguma marchinha; nenhum casal brigando por ciúme; nenhum beijo despretensioso. Imaginem um carnaval que os foliões fizessem greve. Não fossem às ruas. Uma greve de carnaval.
As ruas ficariam desertas. Mais desertas que um início de madrugada de segunda feira. Os comerciantes, estes ficariam em pânicos: os donos dos bares ficariam loucos pensando na “fortuna” por eles gasta para encher seus estoques à espera de foliões e bêbados que não mais apareceriam. A polícia - essa coitada! – perderia grande parte de sua renda extra de extorsão dos foliões exagerados – presas fáceis desse tipo de investimento. Mas o que causaria isso? O que causaria uma greve de carnaval, unindo o folião, o bêbado, os comerciantes ambulantes, os diretores de blocos, os compositores de marchinhas, os sambistas com seus violões e pandeiros?
Esse quadro me foi desenhado por um sujeito que se dizia viajante do tempo, vindo de 2011, ano em que tal fato ocorrera. Eu o encontrara numa rua próxima a praça XV andando meio perdido em meio aos blocos com suas camisas cheias de patrocínio e com suas letras que não diziam muito mais do que um montante de vogais.
Ao ser perguntado sobre tal fato, ele responderia direto, com uma certeza nítida: — A velha e conhecida de todos nós, a ganância, a ânsia enlouquecida por lucro, a mercantilização das relações humanas e seus derivados.
O carnaval havia se voltado para o turismo, para os de fora. Tudo invertido na cidade, preparada para servir de vitrine para os gringos.
Nada contra. Mas se eles são turistas, que aprendam a conviver com as coisas como estão, e não as modifiquem para melhor atender seus desejos de “caricatura de povo”, de "carnaval", de "mulatas", de "malandro sambista". E a Ordem, essa velha inimiga do povo – essa amante de mentes pequenas e positivistas, que tem medo do povo –
impediu a brincadeira de ocorrer fora de seus padrões de “choques", intimidando o povo, acabando com os coretos e com a espontaneidade da brincadeira. Favorece – isso sim! – os donos de comércio e bares, que se fecharam nos seus salões com ar condicionado e com suas músicas ao vivo, com seus preços exagerados que afastam o folião autêntico, o brincalhão, o fanfarrão, o bêbado. Tudo fica perfeito para a “playboyzada” curtir com os cartões de créditos patrocinados pelos pais, os mesmos pais que assumiram a organização da festa, a nossa burra elite.
Foi assim, diante desse quadro que se organizou – ou melhor, que se desorganizou - a greve de sábado foi passando pelo domingo (recorde de presença das missas), pela segunda e, quase terminando na terça feira, foi entrando pela quarta. Logo quando todos achavam que a festa tinha ido para o buraco, quando todos consideravam o fim do carnaval carioca; a morte, tão decretada, do samba... Estourou a festa do povo!
Num passe de mágica, as ruas foram tomadas não para buscar os bares com seus donos falidos, mas para fazer a brincadeira de rua. Desfilar pela Avenida Rio Branco, pela Presidente Vargas, correndo, brincando, com bate-bola, mascarados, foliões, sambistas, diretores de blocos e claro, nosso amigo de sempre, o bêbado, com seu vasto repertório de sátiras, de marchinhas antigas e filosofias de botequim.
Foi o ano em que nenhum dinheiro caiu nos cofres da elite. Foi o ano do choque da desordem urbana, pois afinal quem quer manter essa ordem aí? Eu não...
Assim, meu amigo viajante do tempo entrou numa viela, dessas que tem um monte na cidade, e sumiu gritando: — Viva o povo trabalhador, brincalhão, alegre, folião e claro, combatente, valente e brigão, como deve mesmo ser.
As ruas ficariam desertas. Mais desertas que um início de madrugada de segunda feira. Os comerciantes, estes ficariam em pânicos: os donos dos bares ficariam loucos pensando na “fortuna” por eles gasta para encher seus estoques à espera de foliões e bêbados que não mais apareceriam. A polícia - essa coitada! – perderia grande parte de sua renda extra de extorsão dos foliões exagerados – presas fáceis desse tipo de investimento. Mas o que causaria isso? O que causaria uma greve de carnaval, unindo o folião, o bêbado, os comerciantes ambulantes, os diretores de blocos, os compositores de marchinhas, os sambistas com seus violões e pandeiros?
Esse quadro me foi desenhado por um sujeito que se dizia viajante do tempo, vindo de 2011, ano em que tal fato ocorrera. Eu o encontrara numa rua próxima a praça XV andando meio perdido em meio aos blocos com suas camisas cheias de patrocínio e com suas letras que não diziam muito mais do que um montante de vogais.
Ao ser perguntado sobre tal fato, ele responderia direto, com uma certeza nítida: — A velha e conhecida de todos nós, a ganância, a ânsia enlouquecida por lucro, a mercantilização das relações humanas e seus derivados.
O carnaval havia se voltado para o turismo, para os de fora. Tudo invertido na cidade, preparada para servir de vitrine para os gringos.
Nada contra. Mas se eles são turistas, que aprendam a conviver com as coisas como estão, e não as modifiquem para melhor atender seus desejos de “caricatura de povo”, de "carnaval", de "mulatas", de "malandro sambista". E a Ordem, essa velha inimiga do povo – essa amante de mentes pequenas e positivistas, que tem medo do povo –
impediu a brincadeira de ocorrer fora de seus padrões de “choques", intimidando o povo, acabando com os coretos e com a espontaneidade da brincadeira. Favorece – isso sim! – os donos de comércio e bares, que se fecharam nos seus salões com ar condicionado e com suas músicas ao vivo, com seus preços exagerados que afastam o folião autêntico, o brincalhão, o fanfarrão, o bêbado. Tudo fica perfeito para a “playboyzada” curtir com os cartões de créditos patrocinados pelos pais, os mesmos pais que assumiram a organização da festa, a nossa burra elite.
Foi assim, diante desse quadro que se organizou – ou melhor, que se desorganizou - a greve de sábado foi passando pelo domingo (recorde de presença das missas), pela segunda e, quase terminando na terça feira, foi entrando pela quarta. Logo quando todos achavam que a festa tinha ido para o buraco, quando todos consideravam o fim do carnaval carioca; a morte, tão decretada, do samba... Estourou a festa do povo!
Num passe de mágica, as ruas foram tomadas não para buscar os bares com seus donos falidos, mas para fazer a brincadeira de rua. Desfilar pela Avenida Rio Branco, pela Presidente Vargas, correndo, brincando, com bate-bola, mascarados, foliões, sambistas, diretores de blocos e claro, nosso amigo de sempre, o bêbado, com seu vasto repertório de sátiras, de marchinhas antigas e filosofias de botequim.
Foi o ano em que nenhum dinheiro caiu nos cofres da elite. Foi o ano do choque da desordem urbana, pois afinal quem quer manter essa ordem aí? Eu não...
Assim, meu amigo viajante do tempo entrou numa viela, dessas que tem um monte na cidade, e sumiu gritando: — Viva o povo trabalhador, brincalhão, alegre, folião e claro, combatente, valente e brigão, como deve mesmo ser.
Heitor Cesar Oliveira é historiador, militante da UJC e membro do bloco de carnaval "Comuna que Pariu!"
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Heitor Cesar Oliveira
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Galatéia - Conto de Roberto Ponciano
O que posso dizer sobre ela, além de que era uma belíssima mulher madura, com cerca de 35 anos, alta, corpo escultural, pernas grossas e bem torneadas, branca, cabelos ruivos, olhos grandes, claros e vivos, face esculpida, belos seios, pescoço comprido, olhar altivo, porte de dama. Não, não só isto, era muito mais, cada parte do corpo parecia ter sido talhada por um artista grego em um momento de inspiração ditado por Afrodite, aquelas mulheres que parecem impossíveis, saídas de dentro de algum livro mitológico, beleza que não anda, desliza, flutua, de uma presença forte e silenciosa que chega a ser perturbadora pela inverissimilidade de suas formas.
Clareana, aos 35 anos, pode se dizer que era uma mulher realizada; profissionalmente estava no auge, tinha uma vida estável e relativamente feliz, bem casada, uma casa estruturada, sem muitos planos diferentes a realizar no futuro. Seus dias eram planejados e bem vividos, sua família e amigos a amavam, nada havia que a podia pertubar. Para mim ela era Galatéia, a perfeição esculpida em formas tais que fazia o artista pedir aos deuses que aquela estátua se transformasse em carne e verbo. Milênios depois da lenda o pedido de um Pigmaleão moderno se realizara, só que a bela dádiva dos deuses não pertencia a este Gepeto, e a linda boneca viva não correspondia aos anseios de seu artesão devoto.
Algumas coisas ninguém sabia desta musa, uma a de que, apesar de seu trabalho rígido e inflexível, tinha um fraco para poesia. Como toda musa amava seus poetas, Baudelaires, Nerudas, Vinícius, Joões Cabrais, Drummonds, passeavam musicalmente por suas mãos delicadas e a faziam se intricar no labirinto mítico da inspiração, sem saber que ela era em si a poesia encarnada. A música de cada verso estalava na pele graciosa dela, o andar ritmado dela, seu menear de cadeiras, seu pisar leve, tudo era um poema em forma de mulher, uma manhã de abril no céu azul do Rio, o ritmo leve das ondas beijando o Pão-de-Açúcar.
Outra coisa que poucos sabiam é que no fundo, Clareana não se realizava. A poesia que sobrava em seus livros faltava em sua vida. Sua estabilidade lhe era cara, mas faltava romance, ritmo, música, verso, delicadeza, fluxo, tudo que o casamento estável, mas monótono, não lhe dera. Chegara sim a ser apaixonada, era profunda demais para casar sem amor, mas a rosa não regada no jardim murcha sobre a ação dos raios do sol, e aquele companheiro sem encanto, que não valorizava a existência ao lado daquela mulher inteligente e escultural, acabara por matar o feitiço, a sedução; o que restara da paixão inicial fora a amizade e uma vida de respeito mútuo e companheirismo, pouco para uma mulher que além de ser profunda e poética, era sensual e quentissima. Sobre aquela plácida aparência de montanha, as larvas de um vulcão apenas em repouso ameaçavam em um momento entrarem em erupção.
Fui seu adorador, seu poeta reescultor. Sim, se não a pude esculpir e dar vida como Pigmaleão, fui seu devoto e adorador, recordando cada traço de memória e viajando em cada curva do corpo rubicundo e carnudo em sonhos acordados inconfessáveis. Um dia porém, realidade e ficação se misturaram, poesia e fato. A falta de encanto, de magia, de poesia, de paixão, de tesão chegaram a um limite de tensão em que o vulcão não mais pode ficar adormecido. Num pequeno toque de meus dedos naquele rosto suave e delicado, um suspiro que não era só de amizade trouxe a tona uma nova paixão que não era só a minha.
Galatéia acordava novamente, precisava novamente da paixão, precisava novamente ser amada, não bastava a ela apenas a estabilidade de uma vida sem romance. O toque suave no rosto dela, a mão dela segurando a minha em seu rosto, o beijo ardente e prolongado em que nos uníamos. Tudo parecia apenas sonho, um devaneio de minha mente de poeta, mas era real, por uma obra casual do destino eu havia sido escolhido para despertar o Vesúvio. As chamas, ainda pequenas, apenas começavam a crepitar, enquanto sentia aquela boca doce, de lábios finos, se entreabrir na minha e sugar minha língua para dentro da dela, me exigindo mais do que um simples beijo, ainda que o tempo prolongado daquele primeiro toque entre nossos lábios tenha se prolongado por vários beijinhos ardentes e picotados nas bocas sedentas um do outro.
Ela não podia ficar mais comigo naquele lugar público e me pediu que a levasse dali, para algum lugar discreto, em que pudesse dar vazão aquela repentina paixão. Era inacreditável, absurdamente inacreditável, impensável ser escolhido pela musa para cravar um soneto em sua pele. Em pouco tempo estávamos em meu quarto, eu e ela, sós, o mundo inteiro lá fora, e nossas bocas descobrindo-se, entregando-se, fartando-se de beijar, sugar e mordiscar um ao outro. Queria prolongar o tempo, para que não fosse só um instante breve, queria que ela não partisse de mim. Delicadamente comecei a beijar seu rosto, suas pálpebras e procurei aquele pescoço altivo, belíssimo, para beijar cada pedaço suavemente e fazê-la suspirar. Ela se oferecia calada e ofegante, sentia minha boca no seu pescoço e nuca, com uma mordida delicada senti o primeiro arrepio daquela deusa e uma tremenda vontade de abreviar aquilo tudo e possui-la de forma selvagem. Reisisti. Não podia ser breve, não podia ser rápido, não podia ser brutal e sem vagar. Por mais que meu sangue fervesse e parecesse que não ia resistir, comecei a despi-la suavemente e a beijar cada pedacinho daquele corpo maduro e perfeito. Balzac não teria uma personagem melhor para retratar, era o auge da beleza. Deitei-a na cama e comecei a percorrer seu corpo como se fora uma pequena formiga perdida em um monte de açúcar, lambendo cada parte para sentir o gosto, mordiscando os pedacinhos para sentir sua carne. Ela suspirava e se entregava. Com vagar, ia abrindo as portas de sua alma para me unir a ela.
Libertei os belos seios dela do sutiã que o envolvia, como senti inveja dele, o dia inteiro apalpando aquelas frutas delicadas. Um pequeno e delicado beijo em cada mamilo foi seguido de lambidinhas com a ponta da língua e depois por toda a auréola. Não suportando mais, suguei de maneira faminta os seios deliciosos e médios dela, ela suspirava e gemia e me puxava para cima dela. Mas eu resistia. Não a queria minha, senão quando ela me desejasse com todos os seus poros, com todos os seus sentidos. Fui descendo pelo vão dos seios até o ventre, beijando cada pedacinho, caminhando em sentido ao púbis, mas parando para brincar com sua cintura, mordiscar, sugar, fazendo-a soltar gritinhos e grunhidos. Não era mais uma mulher madura e estável, agora era a adolescente sapeca querendo brincar na cama comigo. Tentou se levantar, mas não deixei, Subi sobre seu corpo e e beijei longamente, nossos corpos se roçando inteiro e ela me desejando dentro dela. Não cedi. Voltei à escultura de minha galatéia, passeando a língua por cima de seu púbis e descendo até as coxas, sugando, mordendo, beijando, a deixando louca, passando delicadamente meu dedo polegar em seu clitóris e a sentindo inundada e louca de vontade. Quando ela pensou que sugaria sua frutinha, não satisfeito em torturá-la, a virei de costas, para chegar ao límite máximo dela, pois recomecei a beijá-la, de cima, da nuca, mordendo-a com força, como um cachorrinho e descendo minha língua pela linha de sua coluna, em direção a bundinha firme e arrebitada.
Ela já não aguentava mais e implorava por mim, me queria dentro dela, crepitava de tesão e o tesão descia como uma nascente por suas pernas. Isto mais me encorajava a torturá-la ainda um pouco mais. Descia pela linha de coluna até a bundinha. Passeei minha língua por ela, beijei e mordisquei cada polpinha. Ela me implorava, pedia, com uma linguagem vulgar:
- Me fode, querido, sou sua...
Eu queria ainda mais, afastei sua calcinha de lado, empinei a bundinha dela para mim e comecei a lamber sua xotinha por trás, fazendo com que ela se mexesse convulsivamente, tomada de desejo, senti que ela não iria agüentar muito tempo, então, para ajudá-la a gozar, introduzi levemente um dedinho na xotinha, enquanto a sugava, beijando, lambia com a língua, manuseava sua xaninha e seu grelinho com o dedo. Ela começou a gemer, gritar, xingar.
- Seu cachorro, seu puto, seu covarde, me fode.
Não obedeci, a queria seviciada ao extremo, a deixei então gozar com a minha boca e meu dedo, num gozo forte e louco, mas que não a satisfez. Clareana então despiu seu feitor de sua função, me derrubou na cama e subiu em mim. Tirou minha ropa de uma única vez, com muita pressa, libertou meu pau de um zás da minha cueca e começou a sugá-lo com fome e sofreguidão. Pensei que queria que eu gozasse em sua boca, tal a voracidade que me chupava, mas não era isto. Estava faminta, apenas o queria mais duro e grosso pois o desejava loucamente. Deitado, derrubado por aquela fêmea impressionante no cio. Senti quando largou a boca do meu pau e passou suas pernas por cima de mim, como uma amazonas. Então, de uma única vez, pois estava inundada, se sentou em cima dele e começou a cavalgá-lo intensamente, louca para gozar em cima da pica dura, grossa e latejante. Estava fora de si, o vulcão estava em plena erupção. Falava coisas desconexas.
- Me fode, eu quero, ai, quero todo ele dentro de mim, vou gozar, vem meu anjo, meu amor, meu puto.
Eu a acompanhava naquela prédica profana.
- Te amo, meu anjo, vem, te quero inteira, gostosa, sente meu pau, vai...
As frases foram sendo substituídas por gemidos e gritos indistintos, os dois foram aumentando o ritmo conjuntamente e comecei a liberar meu leite quente que a fez gozar loucamente. Ela explodiu juntinho, debruçada sobre mim e beijando a minha boca.
Tudo aquilo não podia ser verdade.
Ela se deitou a meu lado, mas apenas por alguns minutos. Olhou o relógio, estava na hora. Não podia ficar mais. Tinha sua vida real, além daquele momento de magia. Tomou um rápido banho, sem molhar os cabelos, e se aprontou rapidamente. Beijou-me a boca, me chamou de anjo, disse que me adorava e partiu.
Não sei bem ao certo se irá voltar. Ou se aquele foi o momento mágico, dádiva dos deuses que jamais se repetirá.
ROBERTO PONCIANO
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terça-feira, 12 de abril de 2011
Porto Alegre madrugada
Olho pela janela do quinto andar, do quarto (cômodo), vejo o centro da nossa querida Porto Alegre, Morro Santa Tereza à frente. Na ponta de tempo que me resta desta madrugada, manhã madrugada, noite acordada, posso agarrar as primeiras luzes da escada, do corredor, do elevador, que nem a dor montanhosa de um hospital pode barrar… Mas eu somos essa “massa” multiforme que se “trata” neste hospital.
Um retiro, um suspiro, parar para pensar, pessoas vão “represando” na recepção, no ambulatório, roupas no lavatório, 2:30, 3:30, 4:30, 5:30, 6:45… Um clique do mouse, um tilintar do relógio, uma “parede”, vári@s técnic@s, médic@s, equipe de higiene e limpeza, fisioterapia, controle de líquidos, termômetro, cateter, sonda, antibiótico, bactérias, artérias, sono, copa, avental, material… Hospital!
O mais e menos imediato, a “cidade baixa” a “cidade alta”, “saúde pública” e “saúde privada”, privada… privada… Mais uma chícara de café…
Esta manifestação particular da sociedade, generalidade particularizada, particularidade generalizada, indivíduo coletivo, coletivo individualizado…
- Saúde!
SUSpira fundo humanidade cindida combatendo feridas que se abrem sem cessar…
- Saúde, Porto Alegre madrugada!
Autor: Dario Silva
Fonte: http://dariodasilva.wordpress.com/2011/04/09/porto-alegre-madrugada/
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